10 de junho de 2026

O Dia em Que o PIB Brasileiro Foi Passear no Parque, por Henrique Morrone

No playground, tinta descascada. Investimento público contido. Ainda assim, a série mostrava resiliência.
Jean-Michel Basquiat

O PIB brasileiro cresceu acima das expectativas, corrigindo projeções e mostrando resiliência na economia.
Consumo e crédito barato sustentam a expansão, enquanto investimento público permanece contido e desigual.
Apesar de desafios sociais, o PIB segue em crescimento, refletindo variações trimestrais positivas e ajustes econômicos.

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O Dia em Que o PIB Brasileiro Foi Passear no Parque

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por Henrique Morrone

Ao ouvir o início de um rap antigo dos Racionais MC’s, o PIB brasileiro decidiu ir ao parque.

Acordara acima das expectativas. Não muito. O suficiente para corrigir projeções e reordenar apostas.

Vestiu-se para domingo, de série encadeada a preços constantes.
E partiu.

Queria observar o que havia medido.

Na entrada, ambulantes disputavam sombra com fiscais. O PIB registrou atividade. Não registrou instabilidade.

Idosos alongavam-se em círculo. Pressão demográfica, anotou. O consumo ainda sustentava parte da expansão.

À beira do lago artificial, espigões refletiam crédito barato. Formação bruta de capital fixo.
A paisagem confirmava a estatística.
Não capturava a sombra espraiada.

Entregadores aguardavam chamadas. Falavam de bloqueios, metas, taxas variáveis.
O PIB anotou produtividade.
Não registrou conflito.
Não abriu variável para exploração.

Uma mãe dividia um salgado.
Ajuste orçamentário.
Afeto não constava.

No playground, tinta descascada. Investimento público contido. Ainda assim, a série mostrava resiliência.

Sob uma árvore, um homem organizava seus pertences num carrinho de supermercado. Transferências. Impacto marginal.

O parque funcionava. Em partes. Áreas interditadas não alteravam a média.

O PIB sentou-se. Consultou a própria variação trimestral. Crescera. Confirmado.

Na saída, uma criança perguntou quem ele era.

O PIB hesitou.
Revisou a base.
Recalculou o chão.
Talvez tivesse de voltar ao parque.

E seguiu crescendo.

Henrique Morrone é economista e professor associado da UFRGS.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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