O Dia em Que o PIB Brasileiro Foi Passear no Parque
por Henrique Morrone
Ao ouvir o início de um rap antigo dos Racionais MC’s, o PIB brasileiro decidiu ir ao parque.
Acordara acima das expectativas. Não muito. O suficiente para corrigir projeções e reordenar apostas.
Vestiu-se para domingo, de série encadeada a preços constantes.
E partiu.
Queria observar o que havia medido.
Na entrada, ambulantes disputavam sombra com fiscais. O PIB registrou atividade. Não registrou instabilidade.
Idosos alongavam-se em círculo. Pressão demográfica, anotou. O consumo ainda sustentava parte da expansão.
À beira do lago artificial, espigões refletiam crédito barato. Formação bruta de capital fixo.
A paisagem confirmava a estatística.
Não capturava a sombra espraiada.
Entregadores aguardavam chamadas. Falavam de bloqueios, metas, taxas variáveis.
O PIB anotou produtividade.
Não registrou conflito.
Não abriu variável para exploração.
Uma mãe dividia um salgado.
Ajuste orçamentário.
Afeto não constava.
No playground, tinta descascada. Investimento público contido. Ainda assim, a série mostrava resiliência.
Sob uma árvore, um homem organizava seus pertences num carrinho de supermercado. Transferências. Impacto marginal.
O parque funcionava. Em partes. Áreas interditadas não alteravam a média.
O PIB sentou-se. Consultou a própria variação trimestral. Crescera. Confirmado.
Na saída, uma criança perguntou quem ele era.
O PIB hesitou.
Revisou a base.
Recalculou o chão.
Talvez tivesse de voltar ao parque.
E seguiu crescendo.
Henrique Morrone é economista e professor associado da UFRGS.
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