10 de junho de 2026

O Chef Brasileiro e o Rito da Rigidez Técnica, por Henrique Morrone

O chef entende a sinergia. O sabor final da receita é qualitativamente maior do que a simples soma aritmética dos ingredientes.
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O chef brasileiro entende a complementaridade produtiva, combinando ingredientes em proporções fixas para sabor e consistência.
Economistas neoclássicos ignoram essa rigidez, defendendo substituições infinitas entre insumos, como farinha e ovos.
Gostos e preferências são moldados pela cultura e tempo, não dados fixos, diferentemente do modelo neoclássico tradicional.

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O Chef Brasileiro e o Rito da Rigidez Técnica

por Henrique Morrone

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​O autêntico chef brasileiro possui um conhecimento econômico que escapa aos manuais ortodoxos: ele compreende a complementaridade produtiva. Sabe, por experiência de bancada, que os ingredientes devem ser combinados em proporções fixas para garantir a plenitude do sabor e a consistência da receita. É a primazia das relações técnicas sobre a abstração matemática.

​Infelizmente, essa sabedoria artesanal é ignorada pelos economistas neoclássicos. Eles insistem na fantasia de uma isoquanta bem-comportada, onde existiria uma infinidade de combinações entre farinha e ovos para produzir o mesmo bolo. Para o teórico de gabinete, se o preço dos ovos sobe, basta substituí-los por mais farinha até que o bolo se torne um deserto de pó — ou uma impossibilidade física. É a ingenuidade em estado puro, travestida de elegância geométrica, que ignora a função de produção de proporções fixas de Leontief.

​Ademais, o chef entende a sinergia. O sabor final da receita é qualitativamente maior do que a simples soma aritmética dos ingredientes. Trata-se de um sistema complexo, onde o todo emerge das interações, e não apenas da agregação. Apenas os devotos mais fervorosos dos modelos DSGE (Dynamic Stochastic General Equilibrium) acreditam que o comportamento da economia pode ser reduzido à soma das partes, como se a dinâmica de uma nação fosse o resultado de um “indivíduo representativo” cozinhando sozinho em uma cozinha em vácuo.

​Por fim, o chef sabe que gostos e preferências não caem do céu: são moldados pela cultura, pela técnica e pelo tempo. Enquanto o nosso arquétipo neoclássico se apega ao dogma das preferências dadas e imutáveis — o único parâmetro intransmutável que garante a consistência do seu castelo de cartas — a realidade mostra que o mercado é um processo de transformação contínua de desejos e padrões de consumo.

​Em suma, o economista neoclássico, isolado em sua torre de equações, revela-se incapaz de assar um bolo — quiçá de compreender a complexidade de uma economia real em movimento.

Henrique Morrone é economista e professor associado da UFRGS.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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