17 de agosto de 2026

O pacto improvável: Como o imperialismo e o golpismo uniram um marechal conservador e o maior líder comunista do Brasil

Descendente de Lott destaca que seu militar era conservador, do campo da direita, mas que se posicionava contra o entreguismo; assista

Em uma conversa reveladora conduzida pelos jornalistas Icaro Brum e Lourdes Nassif, do Jornal GGN, os historiadores Guilherme Diniz e Felipe Lott trouxeram à tona os bastidores de uma das alianças mais intrigantes da história política brasileira. Autores do livro “Lott e Prestes – O Marechal e o comunista”, os convidados destrincharam como figuras de espectros políticos tão distantes uniram forças em prol de um projeto de nação soberana.

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Guilherme Diniz, especialista em Brasil Republicano e História Militar, e Felipe Lott, doutor em História Contemporânea e bisneto do marechal Henrique Lott, explicaram que a união entre o militar legalista e o líder comunista Luiz Carlos Prestes foi forjada não por afinidade ideológica, mas pela existência de adversários comuns: o golpismo civil-militar e a forte interferência do imperialismo dos Estados Unidos no país.

Durante o debate, os autores resgataram o cenário das décadas de 1950 e 1960, marcado pela intensificação da Guerra Fria, período em que os Estados Unidos agiam ativamente para impedir a consolidação de qualquer projeto de desenvolvimento nacional autônomo na América Latina. Enquanto Prestes liderava o Partido Comunista do Brasil após décadas de protagonismo político iniciado no tenentismo, o marechal Henrique Lott emergia na segunda metade dos anos 1950 como uma figura central de preservação da legalidade democrática.

Felipe Lott destacou que seu bisavô era um homem conservador, situado no campo da direita, mas que se posicionava contra o entreguismo representado por candidaturas demagógicas da época. Essa postura legalista fez com que Prestes e os comunistas enxergassem no marechal a única alternativa viável para enfrentar as forças que tentavam submeter as riquezas e a soberania do Brasil aos interesses estrangeiros.

Um militar legalista

A narrativa histórica ganhou contornos dramáticos quando Felipe Lott detalhou a atuação decisiva de seu bisavô para garantir a posse do presidente eleito Juscelino Kubitschek e de seu vice, João Goulart, em 1955. Após o suicídio de Getúlio Vargas em 1954 — motivado por uma forte pressão de setores liberais e conservadores apoiados pelos Estados Unidos, especialmente após a criação da Petrobras —, Lott havia assumido o Ministério da Guerra com a missão de pacificar as Forças Armadas. No entanto, a vitória eleitoral de JK desencadeou uma série de conspirações golpistas que tentaram impugnar o resultado das urnas por vias jurídicas e midiáticas.

O estopim para a reação de Lott ocorreu após o funeral do general Canrobert Pereira da Costa, onde o coronel Jurandir Bizarria Mamede proferiu um discurso altamente político e golpista contra a posse de JK. Diante da recusa do presidente interino Carlos Luz e de outras autoridades em punir a insubordinação de Mamede, e percebendo que um golpe de Estado estava em andamento com o apoio da Marinha e da Aeronáutica, o marechal Lott agiu rapidamente. Na madrugada de 11 de novembro de 1955, ele liderou um contragolpe preventivo, mobilizando tropas para neutralizar os conspiradores e evitar uma iminente guerra civil, assegurando assim o respeito à Constituição e a futura posse dos eleitos.

Os paralelos com o Brasil de hoje

Ao traçar paralelos com a realidade contemporânea, os debatedores apontaram que o sentimento de antipatia em relação às políticas econômicas severas dos Estados Unidos ainda ecoa na sociedade brasileira. Guilherme Diniz alertou, contudo, que a estrutura atual das Forças Armadas é muito diferente daquela de meados do século passado. Segundo o historiador, o golpe de 1964 promoveu um expurgo das lideranças militares nacionalistas e consolidou uma profunda absorção ideológica estadunidense dentro das academias militares brasileiras.

Diniz enfatizou que, para o Brasil retomar um caminho de desenvolvimento autônomo, é indispensável que o Estado adote uma postura firme de enfrentamento ao capital estrangeiro e às multinacionais que mitigam o crescimento do país, ressaltando que a soberania nacional exige a defesa intransigente de nossa tecnologia, indústria de defesa e recursos naturais.

Esta entrevista foi concedida ao vivo na noite de sexta (14), para o programa TV GGN 20 Horas, que é transmitido de segunda a sexta, sempre às 20h, no canal TV GGN no Youtube (youtube.com/tvggn). O programa também abordou os resultados da última pesquisa Quaest para a presidência da República e a declaração de Gilberto Kassab (PSD) decretando a derrota de Flávio Bolsonaro em 2026. Assista à entrevista no episódio abaixo:

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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