O governo do Paquistão declarou oficialmente, nesta sexta-feira (27), o estado de “guerra aberta” contra o Afeganistão. A decisão ocorre após uma madrugada de intensos bombardeios aéreos que atingiram alvos estratégicos em Cabul, a capital afegã, e em Kandahar, reduto do líder supremo do Talibã, Sheikh Haibatullah Akhundzada. A ofensiva marca a ruptura definitiva entre os vizinhos, que até 2021 mantinham uma histórica, embora complexa, aliança.
A escalada militar é a mais grave desde o retorno dos fundamentalistas ao poder em solo afegão. Segundo o porta-voz do Exército paquistanês, Ahmed Sharif Chaudhry, as tropas atingiram 22 alvos militares e mataram 274 “autoridades e militantes do regime do Talibã” desde a noite de quinta-feira. O porta-voz informou ainda que pelo menos 12 soldados paquistaneses morreram nos confrontos até o momento.
Divergência sobre o balanço de danos
Apesar da precisão dos números apresentados por Islamabad, o governo do Talibã mantém uma postura cautelosa. O principal porta-voz do grupo, Zabihullah Mujahid, confirmou os ataques à capital e a Kandahar, mas alegou inicialmente que não houve vítimas, silenciando sobre o balanço de mortos em suas fileiras.
A operação atingiu instalações militares e depósitos de munição, visando neutralizar a capacidade de resposta do regime vizinho. “Nossa paciência se esgotou. A partir de agora, estamos em guerra aberta“, afirmou o ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Asif, justificando a ofensiva pelo suposto apoio de Cabul a grupos terroristas que atacam o território paquistanês.
Retaliação e crise humanitária
Em resposta aos bombardeios, as forças afegãs lançaram contra-ataques ao longo da Linha Durand, a fronteira terrestre entre os dois países. “Alguns deixaram seus documentos (…) Não levaram nem o dinheiro, nem a ajuda que tinham recebido. Por medo, todos foram embora“, relatou uma testemunha à agência AFP, descrevendo o êxodo de civis em regiões fronteiriças como Paktia e Nangarhar.
Embora o Talibã tenha expressado o desejo de resolver o conflito via diálogo nas primeiras horas de sexta-feira, o comando militar paquistanês assegurou que a operação está em andamento e que qualquer nova provocação será respondida com força total.
Mediação internacional
A crise na Ásia Central mobilizou potências vizinhas. A China e a Rússia, que mantêm laços pragmáticos com o regime talibã e parcerias estratégicas com o Paquistão, pediram moderação imediata. Pequim, preocupada com seus investimentos no Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC), afirmou estar mediando a crise por canais próprios.
A porta-voz da diplomacia russa, Maria Zakharova, instou as partes a “abandonarem esta perigosa confrontação e regressarem à mesa de negociações“. O Irã também se ofereceu para facilitar o diálogo, temendo que a desestabilização regional gere uma nova onda de refugiados e fortaleça grupos como o Estado Islâmico Khorasan, que opera na zona de fronteira e ameaça a segurança de todos os países envolvidos.
Deixe um comentário