Friedrich Merz e a renovação da retórica nazista
por Fábio de Oliveira Ribeiro
A violência letal praticada de maneira coletiva, coordenada e sistemática com um propósito definido sempre foi uma característica da guerra. Como apenas uma pequena parcela dos homens é naturalmente capaz de praticar atos violentos sem sentir medo ou culpa, as pessoas engajadas voluntária ou compulsoriamente num exército precisam ser adestradas para dominar o medo e cometer na guerra atos que elas não cometeriam normalmente. Parte desse processo de aprendizado envolve a desumanização do inimigo.
Sem regras de engajamento, um conflito militar somente se esgota com o genocídio. Todavia, o ímpeto genocida nem sempre foi uma característica da guerra. No mundo antigo, a guerra também tinha por finalidade obter escravos saudáveis que pudessem ser obrigados a trabalhar nas fazendas da cidade vitoriosa ou na terra conquistada do povo derrotado. Inimigos derrotados podiam eventualmente ser incorporados à civilização vitoriosa e Roma foi uma especialista em fazer isso. Sendo assim, desde tempos imemoriais os soldados também são adestrados a obedecer a seus comandantes quando eles ordenam a interrupção da matança porque isso se tornaria economicamente contraproducente.
Modernamente os objetivos da guerra se deslocaram do acesso à terra e a escravos. As hostilidades militares passaram a ter uma finalidade colonial ou a ocorrer entre nações que disputavam zonas de influência política e/ou comercial. Desde o final do século XIX o controle de territórios ricos em reservas de petróleo se tornou a chave tanto para o sucesso econômico quanto para a hegemonia militar. Isso se tornou decisivo à medida que a guerra se tornou um fenômeno mecanizado, em grande medida dependente da disponibilidade de gasolina e óleo diesel.
Preconceitos linguísticos, religiosos, culturais e raciais sempre foram utilizados para ligar e desligar o binômio “amigo / inimigo”. Regras de engajamento foram acordadas entre estados para limitar os meios de violência a um mínimo aceitável, com a limitação da agressão militar entre soldados e a exclusão de comportamentos considerados crimes de guerra (como o assassinato de soldados que se renderam, o extermínio de populações em territórios ocupados, o uso de armamentos proibidos, etc.). Não vou entrar aqui em detalhes sobre essas regras de engajamento militar porque esse não é meu objetivo.
Durante a II Guerra Mundial, o binômio “amigo / inimigo” foi ideológica e racialmente deslocado do âmbito tradicional até se transformar no binômio “humano / não humano”. Os nazistas consideravam seus inimigos judeus, poloneses, eslavos seres inferiores. Os norte-americanos trataram os japoneses como sub-humanos. E os japoneses, por sua vez, acreditavam ser racialmente superiores aos chineses. Nesse contexto, episódios de extermínio em massa se tornaram comuns. A guerra caracterizada por genocídio terminou com um genocídio em Hiroshima e Nagazaki.
O trauma da guerra caracterizou o pós-guerra, período em que novas regras de engajamento foram criadas e aceitas por todos os países. A belicosidade norte-americana e israelense lentamente destruiu as regras de convivência entre as nações até que em Gaza o genocídio de palestinos se tornou aceitável e no Irã a guerra começou com dois crimes de guerra: o bombardeio de uma escola de meninas e o assassinato a sangue frio do líder de um país que estava em paz com Israel e nunca ameaçou militarmente o território dos EUA.
Durante quase toda a Idade Média e mesmo depois do fim dela, as guerras religiosas foram muito sangrentas porque o binômio “amigo – inimigo” se transformou nos binômios “fiel – infiel”, “puro – impuro”. Não havia paz possível ou possibilidade de convivência pacífica entre cristãos e islâmicos, nem entre católicos e protestantes. O Tratado de Vestfália, celebrado ao fim da guerra dos 30 anos, encerrou um longo ciclo de guerras exclusivamente religiosas. Esse ciclo está agora recomeçando.
Imediatamente após Donald Trump e Netanyahu atacarem criminosamente o Irã o mundo se dividiu entre os países que exigem o respeito das regras internacionais e aqueles que não reconhecem sua validade delas. Os líderes norte-americanos parecem inclinados a iniciar a III Guerra Mundial para recuperar ou reafirmar a hegemonia planetária dos EUA.
Os EUA hostilizaram diplomaticamente a Espanha porque aquele país se recusa a legitimar os crimes de guerra que foram cometidos pelos norte-americanos e israelenses. A reação da Europa em favor dos espanhóis é mais tímida do que aquela que foi esboçada quando Donald Trump ameaçou invadir a Groelândia. Emmanuel Macron disse que os EUA e Israel violaram as regras internacionais, mas despachou um porta-aviões para ajudar os aliados tradicionais. Isso foi feito pela Itália. Os iranianos não começaram a guerra, mas estão dispostos a se defender com tudo que têm e eles estão demonstrando grande capacidade defensiva e ofensiva.
Os negócios dos fabricantes de armamentos norte-americanos e europeus tendem a melhorar muito nos próximos meses. Com todas as atenções voltadas para o Oriente Médio é provável que guerra da Ucrânia será encerrada com uma vitória da Rússia. Apesar das mentiras repetidas exaustivamente pela imprensa europeia e norte-americana, a derrota dos ucranianos no campo de batalha já é um fato consumado há alguns meses. À vitória militar russa na Ucrânia foi acrescentado um bônus: a alta do preço do petróleo causada pela guerra contra o Irã.
No caso do Irã, o que chama mais atenção é o retorno da intensa desumanização religiosa do inimigo. Pete Hegseth invocou Jesus e a Bíblia para arengar as tropas norte-americanas. Vários comandantes militares norte-americanos fizeram o mesmo provocando reação dos subordinados.
Os EUA é um estado laico que paradoxalmente pretende lutar uma guerra religiosa com forças armadas que empregam os binômios “fiel – infiel”, “puro – impuro” no lugar do tradicional binômio “amigo – inimigo”. Suponho que o secretário da guerra de Donald Trump enxerga a si mesmo como um cavaleiro cruzado numa Cruzada. Hegseth provavelmente é incapaz de perceber que a perspectiva que ele adotou vai apenas reforçar a disposição do Irã de resistir. A longa memória das agressões medievais católicas certamente levará mais gente do Oriente Médio a se posicional em favor dos iranianos.
Foi nesse contexto que o líder da Alemanha disse que o Irã não deve ser protegido pela Lei Internacional. Essa afirmação é grotesca: o Irã faz parte da ONU, foi militarmente agredido sem justificativa e tem o direito de se defender. Ontem, amigo inglês me disse que os alemães estão acordando seus inner-Nazis. Isso me parece tão evidente quanto preocupante, porque a fala de Friedrich Merz informa ao mundo que uma vez mais a Alemanha está disposta a fazer uma guerra identificando o binônio “amigo – inimigo” ao binômio “humano – não humano”.
O mais preocupante no caso de Merz é a disposição da imprensa alemã de apoiar a militarização do país e não questionar a retórica nazista que está sendo utilizada abertamente no caso do Irã. Durante décadas as instituições democráticas da Alemanha lutaram para desnazificar aquele país. Isso foi afrouxado para permitir o apoio de Berlim ao genocídio em Gaza com intensa repressão policial interna contra os adversários da matança de crianças palestinas cometida pelos israelenses. Os inner-Nazis ganharão agora mais espaço nas consciências dos alemães à medida que o país deles desumaniza os iranianos para aderir automaticamente ao esforço de guerra dos EUA?
A cobiça norte-americana, israelense e europeia pelo petróleo iraniano parece ser mais real do que as justificativas que estão sendo publicamente apresentadas para a intensificação da guerra. Os chineses dependem bastante do petróleo e do gás iraniano. O alvo dos EUA, França, Alemanha e Itália é o Irã ou a China? O que farão os chineses se perceberem que serão tratados da mesma maneira que os iranianos?
Num mundo insano comandado por líderes gananciosos e dispostos a sacrificar seus povos numa guerra de grandes proporções que afetará todos em todos os lugares, o melhor a fazer é dar um passo atrás e não se deixar envolver pela retórica fácil dos binômios “amigo – inimigo”, “fiel – infiel”, “puro – impuro” e “humano – não humano”. A tarefa da imprensa nesse momento não é ajudar os lunáticos evangélicos e sionistas a bater os tambores de guerra, mas apontar como e porque acalmar os ânimos será mais produtivo e adequado.
Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.
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Jicxjo
7 de março de 2026 9:19 pmFriedrich Merdz.