Religião, ópio ou câncer?
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
Não há quem não conheça o trecho do livro “Introdução à filosofia do Direito”, de autoria de Marx, publicado simultaneamente na França e na Prússia em 1844, dizendo: “A religião é o ópio do povo”. De fato, ela aparece como conclusão de um argumento que, completo, é: “A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. A religião é o ópio do povo”. No original em alemão, é: “Das religiöse Elend ist in einem der Ausdruck des wirklichen Elends und in einem die Protestation gegen das wirkliche Elend. Die Religion ist der Seufzer der bedrängten Kreatur, das Gemüt einer herzlosen Welt, wie sie der Geist geistloser Zustände ist. Sie ist das Opium des Volkes.” Neste texto, pretende-se ampliar uma discussão filosófica, considerando aspectos da historiografia teórica, como a introdução dos recortes temporal e geográfico que o jovem Marx não pretendeu fazer. A partir disso, tentaremos inferir se essa frase continua válida ou não, seja depois dos vinte e quatro anos que distaram da publicação de “A Crítica à Economia Política”, seja depois dos cento e oitenta e dois anos que nos separam da publicação original.
Naturalmente, Marx não foi o único a pensar sobre o papel da religião na vida material da humanidade. Muitos filósofos anteriores a ele pensaram e publicaram sobre o assunto e algumas frases passaram, sem comprovação, para a posteridade como verdades incontestes. Uma delas é atribuída a Denis Diderot: “O mundo só será justo quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre”. Embora a frase tenha tentado criticar a sociedade dos três Estados (monarquia, clero e povo), anterior à revolução francesa, não passa de uma redução grosseira das mazelas de um dado período, numa dada sociedade. Não se pode deixar que Marx seja parafraseado de maneira tão simplória, mas, ao mesmo tempo, não se pode omitir que seu pensamento tinha tempo e lugar, revelando o eurocentrismo que caracterizou sua carreira como o maior filósofo dos últimos três séculos. O que Marx entendia por religião? O que ele entendia por ópio? A resposta para essas perguntas deve ser o marco zero para uma discussão madura e aprofundada sobre o assunto.
Dizer que os seus argumentos são limitados ao ambiente europeu é uma impropriedade. Sobre a forma com que os puritanos ingleses colonizaram o nordeste dos Estados Unidos, Marx maduro escreveu: “O tratamento da população indígena foi, naturalmente, mais terrível nas colônias de plantação […] No entanto, mesmo nas colônias propriamente ditas, o caráter cristão da acumulação primitiva não foi desmentido. Em 1703, aqueles sóbrios expoentes do protestantismo, os puritanos da Nova Inglaterra, por decretos de sua assembleia, estabeleceram um prêmio de £40 por cada escalpe indígena e cada índio capturado; em 1720, um prêmio de £100 foi estabelecido por cada escalpe; em 1744, depois que a baía de Massachusetts proclamou uma certa tribo como rebelde, os seguintes preços foram fixados: por um escalpe masculino de 12 anos ou mais, £100 em nova moeda, por um prisioneiro masculino £105, por mulheres e crianças prisioneiras £50, pelos escalpes de mulheres e crianças £50”.
A Religião e o Ópio no Século XIX
Para compreender a frase de Marx, é necessário situá-la no tempo e no espaço. Quando ele escreveu a frase que motivou este ensaio, estava na França, eminentemente católica, exilado da Prússia, predominantemente luterana, e observava a Europa industrial do século XIX. A religião de seu tempo — majoritariamente o cristianismo protestante e católico — já não era a instituição que convocava cruzadas ou ordenava massacres. Estava subordinada ao Estado e ao capital, e sua função social primordial era legitimar a ordem vigente e consolar os explorados com promessas de recompensa no céu. O operário inglês, explorado dezesseis horas por dia na fábrica, ia à capela no domingo e ouvia que “os últimos serão os primeiros” e que “a paciência é a maior virtude”. Ali, a religião era ópio puro: impedia a revolta, anestesiava a consciência de classe e fazia o trabalhador aceitar a miséria como vontade divina.
O ópio, por sua vez, não tinha no século XIX a conotação criminal que adquiriu no século XX. Era um analgésico e sedativo comum, vendido livremente em farmácias. O láudano e os “cordiais” eram xaropes para tosse, calmantes infantis e remédios para todo tipo de dor. Marx escolheu a metáfora do ópio justamente por esse duplo sentido: a religião alivia a dor, mas também gera dependência e impede a ação para mudar as condições que causam a dor. Não a comparou a uma “droga ilícita”, mas a um analgésico social que torna a vida suportável sem curar a doença de fundo.
Mas a pergunta que se impõe, cento e oitenta e dois anos depois, é: essa metáfora ainda é suficiente? Ou a história — e a geografia — mostram que a religião sempre foi algo muito mais letal do que um simples lenitivo?
Ópio ou Espada?
A própria obra de Marx fornece evidências de que a religião, em outros contextos, não era ópio, mas espada. O trecho citado sobre os puritanos da Nova Inglaterra — que ofereciam recompensas por escalpes indígenas — mostra que o “caráter cristão da acumulação primitiva” não era um desvio, mas uma característica estrutural da colonização. A teologia calvinista dos puritanos, baseada na doutrina da predestinação e na ideia de povo eleito, justificava não apenas a expropriação territorial, mas também o extermínio sistemático dos nativos. Os mesmos puritanos que fugiram da perseguição anglicana na Inglaterra impuseram, na América do Norte, uma ortodoxia tão ou mais opressiva do que aquela que haviam deixado para trás. A liberdade religiosa que buscavam era para si mesmos, não para os outros.
Essa constatação — de que a religião pode ser simultaneamente ópio para os oprimidos e espada para os opressores — já era percebida por Marx, mas ele não a desenvolveu em sua frase célebre. Se tivesse dito “na Europa do século XIX, a religião cristã cumpre a função de lenitivo para as misérias impostas pelo capitalismo industrial”, a frase seria mais defensável. Mas a força poética da metáfora — “a religião é o ópio do povo” — acabou por obscurecer a complexidade histórica que o próprio Marx, em outros textos, reconhecia.
A Confirmação de Weber e a Crítica Materialista
Anos depois, Max Weber, em A Ética Protestante e o “Espírito” do Capitalismo, demonstrou como a teologia calvinista — com sua ênfase na predestinação, na disciplina ascética e no trabalho como sinal de eleição — criou as bases culturais para o desenvolvimento do capitalismo moderno. Weber, porém, inverteu a relação causal que Marx estabelecia. Para Weber, a religião tinha autonomia causal: ela criava as condições para o desenvolvimento econômico, e não apenas o refletia. O capitalismo teria nascido, em parte, da ética protestante.
Mas essa tese, apesar de seu lustro, é mais pobre do que a análise materialista de Marx. O desenvolvimento econômico não foi promovido pelo calvinismo, mas pela abundância de recursos e pela expropriação violenta dos povos indígenas. O ouro das minas, o algodão das plantações, a madeira das florestas — tudo isso já estava lá, tomado à força. A disciplina calvinista, o trabalho árduo e a poupança vieram depois do saque. Foram uma ética de administração do espólio, não de criação de riqueza. Weber confundiu a justificativa com a causa. Marx, ao descrever a acumulação primitiva como um processo sangrento, não cometeu esse erro.
O Câncer e a Metástase
Se a religião já era espada no século XVII, quando os puritanos escalpelavam indígenas em nome do Deus cristão, no século XXI ela se tornou algo ainda mais letal: um câncer metastático. O calvinismo, que já havia purificado a lógica da eleição e da predestinação, deu origem ao neopentecostalismo e, deste, ao sionismo cristão. Essa teologia apocalíptica não apenas divide a humanidade entre eleitos e réprobos; ela instrumentaliza a catástrofe como caminho para a salvação.
Os sionistas cristãos acreditam que a volta de Jesus só ocorrerá quando todos os judeus estiverem reunidos em Israel e o Templo de Jerusalém for reconstruído. Para isso, apoiam incondicionalmente o Estado de Israel, financiam assentamentos na Cisjordânia e justificam a expropriação dos palestinos como parte do plano divino. Mas, uma vez cumprida a profecia, os judeus serão convertidos à força ou destruídos no Armagedom. O amor dos sionistas cristãos por Israel é, no fundo, um amor instrumental: amam os judeus como se ama uma peça de xadrez que será sacrificada no final do jogo.
A Convergência Fatal
O sionismo cristão e o sionismo judaico compartilham a mesma matriz teológica: a ideia de povo eleito, a crença na predestinação, a divisão do mundo entre vencedores e perdedores. Ambos convergem na prática — a expropriação territorial, a desumanização do outro, a justificativa divina para a violência —, mas divergem radicalmente no objetivo final. Os sionistas cristãos querem o Armagedom; os sionistas judeus querem a libertação nacional. E, se o Armagedom chegar, será justamente dos sionistas cristãos contra os sionistas judeus, que hoje se aliam e se protegem mutuamente.
Essa contradição interna torna a aliança entre os dois grupos não apenas instável, mas absurdamente suicida. Eles se abraçam hoje — pastores evangélicos abençoando Israel, rabinos agradecendo pelo apoio americano —, mas o abraço é o de dois lutadores que se preparam para o golpe final. No meio disso, os palestinos são esmagados por duas teologias que, no fundo, concordam em uma coisa: eles não são parte do plano de salvação de nenhum dos dois lados.
Ópio, Espada, Câncer
A frase de Marx, “a religião é o ópio do povo”, continua sendo uma metáfora genial para certos contextos. Para o operário inglês no domingo, para o camponês alemão na miséria, para o palestino sitiado, a religião ainda funciona como um lenitivo: alivia a dor, dá sentido ao sofrimento, promete justiça no além. Mas essa é apenas uma face da moeda. A outra face — que a história mostra de forma ininterrupta — é a religião como espada do opressor, como justificativa para o genocídio, como combustível para o Armagedom.
O que era ópio no século XIX tornou-se câncer no século XXI. E esse câncer, enraizado na teologia calvinista e radicalizado no sionismo cristão, corrói o tecido social, divide a humanidade entre eleitos e réprobos, e coloca em risco a própria sobrevivência da espécie. A metáfora do ópio já não basta. É preciso ir além de Marx, sem abandoná-lo, para compreender que a religião — sobretudo em sua forma apocalíptica e imperialista — não é apenas um anestésico social, mas uma doença que devora o mundo.
Conclusão
Cento e oitenta e dois anos depois da publicação da “Introdução à filosofia do Direito”, a frase de Marx resiste como uma verdade parcial. Ela captura com precisão a função ideológica da religião no capitalismo industrial do século XIX. Mas a história — e a geografia — mostram que a religião nunca foi apenas ópio. Ela foi, e continua sendo, espada e câncer. A atual aliança entre sionismo cristão e sionismo judaico, movida por teologias de eleição e predestinação, é a prova mais dramática de que a religião, quando aliada ao poder, não anestesia a dor: ela a produz.
Se Marx estivesse vivo para ver o sionismo cristão financiando guerras no Oriente Médio em nome do Armagedom, talvez reformulasse sua frase para algo como: “A religião é tanto o ópio do povo quanto a a espada do opressor. No século XXI, com a mercantilização da fé, tornou-se câncer.” Não para negar sua intuição original, mas para completá-la com a tragédia que ele não pôde antecipar
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.
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