10 de junho de 2026

Os riscos de flexibilizar a proteção da Amazônia, por Augusto Rocha

Estarmos preservados não nos impõe a obrigação de destruir. Ao contrário, deveríamos nos esforçar para potencializar esta preservação.
Arquivo Agência Brasil

Projeto de Lei 551/2019 propõe reduzir reserva legal na Amazônia de 80% para 50% em propriedades rurais.
Redução da proteção afeta ecossistema; uso científico da biodiversidade é alternativa ao desmatamento.
Amazônia tem potencial industrial e mineral, sem necessidade de ampliar áreas desmatadas para desenvolvimento.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Desmatar não é desenvolver: os riscos de flexibilizar a proteção da Amazônia

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Augusto Cesar Barreto Rocha

              Alfredo Lopes analisou com maestria, em texto publicado no dia 04/03/2026, “O suicídio hídrico do agronegócio brasileiro” a respeito do Projeto de Lei 551/2019, de autoria do senador Mecias de Jesus, que propõe permitir a redução da reserva legal na Amazônia de 80% para 50% em propriedades rurais localizadas em estados onde mais de 65% do território já esteja protegido por unidades de conservação, terras indígenas ou áreas federais.

              Vou adicionar alguns aspectos ao texto que apresenta razões mais do que contundentes para a inadequação deste projeto. Para além da chuva e do equívoco que é desmatar a Amazônia para mais “agro”, a redução das áreas protegidas afeta o ecossistema da floresta. A indicação de limite de 20% que existe na legislação atual é muito acertada e, para alguns, até excessiva. Há outros usos além de agricultura para o solo Amazônico.

              A começar com o uso industrial que já existe, poderíamos incrementar o uso científico da riqueza potencial da biodiversidade. Para que ela deixe de ser potencial, precisaremos estudá-la e não a doar, nem adicionarmos mais pasto ou soja. Há outras regiões no Brasil que ainda podem ser aproveitadas para a agricultura ou pecuária. Não precisamos adicionar mais território a partir da floresta. O que precisamos é usar a floresta e os seus potenciais. A eventual flexibilização de uma das principais salvaguardas do Código Florestal para o bioma amazônico é perigosa e desnecessária. Afinal, nem usamos os 20%. Para que mais áreas?

              O fato de estarmos preservados não nos impõe a obrigação de destruir. Ao contrário, deveríamos nos esforçar para potencializar esta preservação. Não há desequilíbrio econômico – o que falta é um efetivo uso econômico destes territórios da região ou mesmo um maior uso dentro do que já existe. Precisamos parar de acomodar o discurso destruidor no meio do discurso de desenvolvimento. Romper a visão de que só na economia agrária é que há espaço para o progresso nacional. Este hábito do passado precisa ser transcendido, até porque ele carece de uma lógica mínima, quando se verificam os indicadores de desenvolvimento humano dos diferentes tipos de atividades econômicas do país.

              “A floresta amazônica não é apenas um patrimônio ambiental”, como afirmou o Alfredo Lopes e adicionou “ela funciona como infraestrutura climática da produção agrícola do país”. O Amazonas é um hábil Estado industrial. O Pará é um hábil Estado de produção mineral. O Amapá tem um belo histórico mineral e poderá ter um futuro próspero na indústria petrolífera. E tudo isso sem ampliar arcos de desmatamento. Precisamos aproveitar os potenciais da floresta. Quando teremos investimentos maiúsculos no desenvolvimento científico para uma indústria a partir da floresta, tal qual foi feito para a atividade agrícola?

              Por que temos tanta resistência em cruzar as fronteiras extrativas? Elas exigem diálogo institucional e adição de valores. Elas exigem trabalho árduo e alta dose de fracasso para se chegar ao sucesso. Parece que insistimos nos ganhos fáceis e rápidos e, por isso mesmo, menos rentáveis e mais destrutivos. A Amazônia nos impõe uma calma por sua grandeza. Uma temperança por conta de suas forças, mas, ao mesmo tempo, uma potência oculta que precisa ser desbravada com mais cuidado, pelo bem da “fábrica de chuva da Amazônia” e pelo bem de uma prosperidade única que poderemos extrair desta biodiversidade.

Augusto Cesar Barreto Rocha – Professor da UFAM.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Augusto Cesar Barreto Rocha

Augusto César Barreto Rocha é Professor Associado da UFAM. Possui Doutorado em Engenharia de Transportes pela UFRJ (2009), mestrado em Engenharia de Produção pela UFSC (2002), especialização em Gestão da Inovação pela Universidade de Santiago de Compostela-Espanha (2000) e graduação em Processamento de Dados pela UFAM (1998).

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Gaspar Alencar

    9 de março de 2026 8:40 am

    Augusto, bom sou fiscal do meio ambiente, sou quase septuagenário, sou desconhecido, mas foi através do ato de fiscalizar. Que Tornei-me, um pesquisador, Educador Ambiental e Produtor cultural, além de escritor iniciante. As fiscalizações pontuais ou pulverizada, são logo posterior a conclusão diluídas. E se repentem em seguida no mesmo lugar ou migram. Desenvolvemos aqui na Floresta Nacional de Palmares, uma metodologia denominado de monitoramento sistemático na Escala 365X24 durante uma década. Sem lavrar um auto de infração, disparar um projétil e prender algum infrator caçador. Como foi desenvolvido na prática – monitoramento sistemático, nos antecipamos aos danos. O caçador fazia suas armadilhas, idenficamos antes do caçador retornar, retiramos nos armadilhas e em mesmo sem identificá-lo afastavam para outro ponto que poderia ser dentro da UC. O processo se repete até afasta-lo definitivamente de dentro a Flona Palmares. Neste período criamos o projeto socioeducativo ambiental palmares, para crianças e adolescentes do entorno com aulas de educação ambiental não formal, Capoeira, literatura, teatro, computação e esportes. O conselho consultivo é importante, o encontro de saberes é importante, a mostra de Ciências é importante e a participação dentro marcando presença e participando da gestão é fundamental. Por fim ” Ele era conduzido por um senso de dever que não transferia responsabilidade”! Se quiser conversar mais sobre o tema da conservação em Unidades de Conservação, enviar uma mensagem (86) 99555-0909. Não ligar. Agradecemos o GGN, pela visão holística do mundo de forma independente! Toda atenção é pouco para não capturaram nossa consciência!

Recomendados para você

Recomendados