4 de junho de 2026

Produtores de Sombra S.A., por Henrique Morrone

Uma crônica que aborda, por meio de metáforas urbanas, a dinâmica contemporânea da produção e apropriação de valor no Brasil.
Reprodução Freepik

Produtores de sombra crescem em cidades brasileiras, com espigões substituindo casas e reduzindo a luz natural nas ruas.
A verticalização transforma solo em ativo financeiro, aumentando metragem e arrecadação, mas reduz espaços de convivência.
A sombra urbana afeta moradores do térreo, pequenos comércios e memórias, refletindo valorização imobiliária sobre o social.

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Produtores de Sombra S.A.

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por Henrique Morrone

Nas grandes cidades brasileiras existe um setor econômico raramente mencionado nas estatísticas: o dos produtores de sombra.

Ele não aparece nas contas nacionais, não figura nos relatórios de produtividade e dificilmente é objeto de seminários acadêmicos. Ainda assim cresce com vigor impressionante. Basta caminhar por qualquer bairro que tenha conhecido a infância antes da verticalização para perceber sua expansão.

Antigamente as casas transpiravam. Tinham pátios, árvores e varandas onde o vento encontrava passagem. A luz atravessava as ruas sem pedir licença. As sombras eram curtas, móveis, quase domésticas.

Hoje a cidade parece ter desaprendido a respirar.

Depois vieram os espigões.

Um por um, ocuparam os terrenos onde antes havia jardins, oficinas, padarias e casas com portões baixos. A cidade não foi apenas crescendo — foi se empilhando.

Cada novo prédio prometia modernidade. Elevadores silenciosos, garagens subterrâneas, varandas gourmet. O discurso era sempre o mesmo: adensamento, eficiência, valorização. A paisagem urbana, diziam, estava apenas se adaptando às exigências do progresso.

Mas os espigões produzem algo além de metros quadrados.

Produzem sombra.

No início ela passa quase despercebida. Um prédio novo apenas encurta a manhã do vizinho. Outro encobre parte da tarde. Aos poucos, porém, as sombras se reproduzem. A luz demora mais a chegar. Em certas ruas já não chega.

A abundância de sombra não provocava abalos sísmicos — ao menos não diretamente. Por isso raramente aparecia nas pranchetas dos atarefados engenheiros.

Em nome da modernidade, às vezes preserva-se a fachada da casa original. A parede antiga permanece como um adereço histórico colado ao térreo do edifício novo.

É a memória transformada em ornamento.

Uma zombaria arquitetônica para quem trocou o horizonte por metros quadrados.

Os produtores de sombra são eficientes. Transformam solo em ativo financeiro com precisão admirável. Onde havia uma casa, surgem quarenta apartamentos. Onde havia uma padaria, surge uma portaria. Onde havia uma esquina com bancos de madeira, surge uma guarita.

Nada disso aparece nas estatísticas como perda.

Ao contrário: a cidade parece prosperar. O preço do metro quadrado sobe, as construtoras anunciam novos projetos, as prefeituras celebram o aumento da arrecadação.

Mas algo mais discreto também acontece.

As ruas tornam-se corredores de vento. As árvores envelhecem cercadas por concreto. Os espaços de encontro encolhem.

A luz, que antes pertencia à cidade inteira, foi privatizada.

A outra face dessa privatização solar é a socialização da escuridão.

E a conta, como sempre, é paga por quem mora no térreo da cidade.

E a sombra cresce.

Se ao menos essa abundância de sombra trouxesse algum alívio ao calor que hoje se acumula nas cidades.

Não é apenas sombra física.

É também uma sombra urbana.

Ela recai sobre as casas que resistem, sobre os pequenos comércios agonizantes, sobre as memórias que deixam de caber na paisagem.

As cidades sempre produziram edifícios. Isso não é novidade. O que mudou foi a lógica que organiza a transformação do espaço urbano.

Durante muito tempo, as cidades cresceram como suporte da vida econômica e social. Hoje, com frequência crescente, elas passam a ser reorganizadas como ativos de valorização financeira. Terrenos, edifícios e bairros passam a funcionar como instrumentos de rentabilidade financeira — processo moldado por políticas urbanas, regimes de zoneamento e incentivos fiscais que transformam a cidade em fronteira permanente de valorização imobiliária.

Nesse processo, construir deixa de significar apenas abrigar pessoas, atividades ou encontros. Passa a significar, sobretudo, capturar renda.

Construímos um grande moedor urbano que transforma casas em metros quadrados e horizonte em valorização imobiliária.

No processo, multiplicam-se os produtores de sombra.

Eles trabalham silenciosamente, andar após andar, pavimento após pavimento. Quando terminam, a cidade parece maior, mais densa, mais moderna.

Mas em muitas ruas algo essencial diminuiu.

A luz.

E como acontece em muitas economias contemporâneas, a produção de sombra continua a crescer — não porque alguém tenha decidido que ela é necessária, mas porque aprendemos a chamá-la de desenvolvimento.

Henrique Morrone é economista, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), PhD em Economia pela University of Utah e pós-doutor pela New School for Social Research (NSSR).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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