O Vazamento no Apartamento Brasil
por Henrique Morrone
Neusa, economista neoclássica, e Azevedo, político liberal, decidiram unir trapinhos.
Não foi paixão.
Foi tesão milimetricamente calculado.
De um lado, conveniência política. Do outro, a velha conveniência teórica de que agentes racionais sempre maximizam algo — nem que seja uma convivência desajustada.
Resolveram alugar um apartamento no Edifício Regina, unidade conhecida no mercado imobiliário como apto Brasil.
O imóvel parecia promissor, atendendo ambos a contento.
Neusa gostou da lógica contratual, bem amarrada, quase estéril.
Azevedo gostou da visibilidade da varanda, com sua exposição fácil — não menos necessária.
Instalaram-se numa sexta-feira, empilhando livros, discursos e algumas crenças metodológicas bem modeladas. O edifício tinha história: reformas periódicas, assembleias agitadas e promessas recorrentes de modernização. Nada fora do comum em estruturas que sobrevivem graças a uma mistura de improviso e esperança institucional.
Na primeira noite quente, algo a arrepiou — e não foi o marido.
Foi quando Neusa se olhou no espelho e não se reconheceu.
Havia ali uma imagem levemente deformada, ondulada pela água que já corria por dentro da parede.
Foi quando ouviram.
Ping.
Ping.
Ping.
A água escorria por dentro, infiltrando o espelho, estufando paredes, desprendendo azulejos e embolorando os cantos.
Azevedo foi direto:
— Vazamento. Precisamos contê-lo o quanto antes.
Neusa preferiu formular hipótese.
— Pode ser apenas um desajuste temporário no sistema hidráulico.
Ela não parecia particularmente alarmada.
— Sistemas complexos costumam convergir ao equilíbrio — desde que ninguém interfira cedo demais.
Ligaram para a imobiliária.
Depois de alguns minutos de música instrumental, uma voz paciente explicou que a gestão hidráulica do edifício havia sido terceirizada para uma empresa especializada em gerenciamento de vazamentos.
— Gerenciamento? — perguntou Azevedo.
— Sim. Eles monitoram o vazamento, decidem quem deve arcar com a conta e providenciam um orçamento. Depois de feito, foram necessários mais dois — um para validar o primeiro e outro para comparar riscos.
— E consertam? — insistiu Azevedo.
— Dependendo da análise técnica.
— Ufa… — disse Neusa. — Com a terceirização, fico aliviada. É uma especialização: uma alocação para o agente mais eficiente, aquele que melhor sabe gerenciar o risco.
Fez uma pausa, olhando para o teto.
— Azevedo, sabia que terceirização, na prática, inexoravelmente vem acompanhada de precarização.
Foi a primeira briga do casal — e não seria a última.
O ping continuava.
A terceirizada rebolava.
Neusa parecia pensativa.
— Se consertarmos apenas este ponto, podemos gerar incentivos perversos — e nos próximos vazamentos teremos de pagar novamente.
Azevedo acrescentou outra panela.
— No curto prazo, estamos lascados. Perderemos a cozinha.
Neusa respondeu com calma:
— Sacrifícios de curto prazo podem gerar ganhos de longo prazo.
Azevedo olhou para a água que começava a se espalhar pelo chão.
— O eleitorado sempre mora no curto prazo.
Neusa assentiu.
— O longo prazo costuma chegar silencioso.
Ligaram novamente.
A empresa terceirizada explicou que seu papel era administrar o vazamento dentro de parâmetros aceitáveis.
— Aceitáveis para quem? — perguntou Azevedo.
— Para o sistema.
Neusa assentiu.
— Faz sentido.
Quando se pensava que o proprietário finalmente arcaria com o prejuízo, surgiu outro problema.
A avaliação indicava que o vazamento poderia advir da coluna de água do condomínio Regina. Agora o teatro ganhava novas matizes: proprietário, condomínio, inquilinos.
Enquanto isso, o vazamento continuava comprometendo o Estado do apartamento Brasil.
Não atentaram para fechar o registro das más ideias. Quando lembraram, preferiram não desgastar a válvula.
Ping.
Ping.
E o relatório ainda estava em fase final de elaboração. Assim como o contrarrelatório.
Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário