5 de junho de 2026

O País na Roda-Gigante, por Henrique Morrone

A ideia parecia elegante: permitir que os componentes da demanda agregada comprassem seu ingresso e participassem do passeio.
Maceió - Divulgação

A economia brasileira é comparada a uma roda-gigante com consumo, investimento, governo e exportações como cabines distintas.
Consumo permanece alto, sustentado por crédito e importações, enquanto investimento e gasto público ficam em níveis baixos.
A roda gira com dificuldades, refletindo uma estrutura econômica desgastada e crescimento limitado no país.

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O País na Roda-Gigante

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por Henrique Morrone

Um dia a economia brasileira decidiu instalar uma roda-gigante.

Não foi decisão coletiva. Surgiu de estudos, seminários e projeções cuidadosamente modeladas. A ideia parecia elegante: permitir que os componentes da demanda agregada comprassem seu ingresso e participassem do passeio.

Consumo, investimento, gasto do governo e exportações alinharam-se na bilheteria.

Cada um recebeu sua cabine.

O consumo entrou primeiro, como costuma acontecer em economias que aprenderam a sobreviver empurrando o presente um pouco mais adiante. Sentou-se confortavelmente e começou a subir.

O investimento chegou com alguma hesitação. Trazia projetos, máquinas e horizontes de longo prazo. Ao olhar para a engrenagem percebeu que alguns dentes estavam gastos. Ainda assim, entrou na cabine e aguardou o giro.

O gasto do governo apareceu carregando infraestrutura, políticas públicas e um manual de instruções sobre multiplicadores. Foi acomodado discretamente numa cabine mais baixa.

As exportações vieram logo depois, trazendo soja, minério e outras mercadorias disciplinadas pelo mercado mundial. Não discutiram o mecanismo. Entraram e aguardaram o movimento.

A roda começou a girar.

Mas não era perfeitamente redonda.

Havia um achatamento na parte superior — exatamente onde o consumo costuma permanecer.

Não era apenas o formato. Havia também uma engrenagem.

O consumo subia, iluminado pelas lâmpadas do crédito e das transferências. Lá de cima acenava para os outros passageiros e anunciava crescimento. As estatísticas confirmavam movimento.

No topo, porém, apareciam também as importações.

Sempre pontuais, sempre elegantes, sempre prontas para ocupar o melhor lugar da paisagem. Quando o consumo sobe, elas já estão lá em cima. Afinal, quando o país decide gastar, alguém precisa fornecer os bens que a engrenagem interna deixou de produzir.

Mais abaixo, o investimento tentava subir.

Às vezes ganhava alguma altura. A cabine rangia, a paisagem parecia abrir horizontes. Mas logo voltava para perto da base.

Não é o acaso.
É a engrenagem gasta que apressa a descida do investimento.

O gasto do governo também rodava baixo. De tempos em tempos alguém na cabine de controle apertava um botão chamado “ajuste”. A roda não parava, mas o espaço para subir ficava menor.

As exportações oscilavam conforme o vento externo. Em alguns momentos ganhavam altitude, puxadas pelo preço das commodities. Em outros, desciam silenciosamente, sem que a estrutura do parque se alterasse.

E o consumo?

O consumo permanecia no alto.

Não porque a roda estivesse perfeitamente calibrada, mas porque alguém precisava continuar acenando para a plateia. De cima, o movimento parecia progresso.

Alguns visitantes do parque preferiam observar a roda de outra forma.

Não olhavam para os passageiros da demanda, mas para a renda que cada cabine carregava.

Vista assim, a paisagem mudava.

Em cada cabine viajavam salários, lucros e juros.

No topo, quase sempre, chegam primeiro lucros e juros.

Lá embaixo, os mecânicos observavam a engrenagem com cautela.

A roda girava.

Mas girava com aquele rangido abafado das máquinas que avançam apenas por rotina.

Os passageiros aprenderam a conviver com o barulho.

Alguns até acreditam que isso seja o próprio som do crescimento.

No parque da macroeconomia brasileira, a roda-gigante continua aberta ao público.

Os ingressos são vendidos todos os dias.

O problema não é o passeio.

É a roda que construímos.

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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