5 de junho de 2026

A Entrevista da Indústria, por Henrique Morrone

A indústria chegou pontualmente, trazendo debaixo do braço um currículo antigo. Nele constavam experiências respeitáveis
por Edward Frederick Skinner

O PIB brasileiro percebe redução da presença industrial e aumento de serviços financeiros e plataformas digitais.
Investimentos industriais tornaram-se mais cautelosos, com preferência por circulação de ativos existentes.
Produção ainda ocorre, mas com menor frequência e impacto estrutural na economia do país.

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A Entrevista da Indústria

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por Henrique Morrone

Depois do último passeio no parque, o PIB brasileiro ficou inquieto.

Havia caminhado entre ambulantes, entregadores, aposentados fazendo alongamento e famílias dividindo lanche sob árvores rarefeitas. Registrara movimento, consumo, circulação. As planilhas haviam reagido positivamente. Tudo parecia em ordem.

Ainda assim, algo lhe escapava.

Havia muita atividade, mas pouca densidade. Muito fluxo, pouca matéria. Era como ouvir uma música composta apenas de eco.

Decidiu investigar.

Mandou chamar a indústria.

A indústria chegou pontualmente, trazendo debaixo do braço um currículo antigo. Nele constavam experiências respeitáveis: encadeamentos produtivos, engenharia, aprendizado tecnológico, exportações ocasionais. Alguns certificados estavam amarelados, mas ainda legíveis.

O PIB abriu a entrevista com cordialidade técnica.

— Gostaria de entender melhor sua trajetória recente — disse.

A indústria assentiu.

— Durante décadas — continuou o PIB — sua presença era bastante visível em minhas contas. Havia fábricas, cadeias produtivas, investimento em máquinas.

— Nos últimos anos, porém, sua aparição tornou-se esporádica.

— Tenho percebido — respondeu a indústria.

O PIB consultou suas planilhas.

— No seu lugar surgiram várias atividades exóticas. Plataformas, intermediações financeiras, serviços administrativos que organizam outros serviços. Tudo perfeitamente registrável. E bastante opaco.

— Produzem muito? — perguntou a indústria.

— Produzem movimento — respondeu o PIB.

Houve um breve silêncio.

— E quanto ao investimento? — perguntou a indústria.

— Continua existindo — disse o PIB. — Mas tornou-se mais cauteloso.

Às vezes prefere conferir a taxa de juros antes de decidir se comparece.

A indústria fez uma anotação no próprio currículo.

— Entendo.

O PIB prosseguiu:

— Também notei que parte do financiamento disponível prefere circular entre ativos já existentes.

— Reciclagem de capital? — perguntou a indústria.

— Digamos que sim.

A indústria recostou-se levemente na cadeira.

— Posso fazer uma pergunta?

— Claro.

— Ainda existe interesse em produzir?

O PIB consultou novamente suas planilhas. Havia números abundantes: crédito, serviços financeiros, atividades de intermediação, administração de portfólios e plataformas digitais que organizavam o trabalho de outros.

Produção aparecia aqui e ali, como uma fotografia antiga perdida entre arquivos recentes.

— Produzir ainda entra nas contas — respondeu o PIB.

— Mas com menos frequência.

— E isso não o preocupa? — perguntou a indústria.

O PIB hesitou.

Desde esse último passeio no parque vinha percebendo que muitas atividades movimentavam seus números sem alterar muito a paisagem produtiva. Havia crescimento em certas colunas, mas pouca transformação estrutural.

Era como se a economia tivesse aprendido a aumentar o volume sem alterar a melodia.

Fechou a planilha.

— Digamos que estou tentando entender.

A entrevista chegou ao fim.

— Agradeço sua disponibilidade — disse o PIB.

A indústria levantou-se, recolheu o currículo antigo e dirigiu-se à porta.

Antes de sair, voltou-se com certa cautela.

— Ainda há espaço para mim nas suas contas?

O PIB abriu novamente a planilha.

Havia crédito, serviços, plataformas e operações financeiras encadeadas.

Produção aparecia em alguns campos, mas ocupava menos linhas do que antes.

Ajustou os números com cuidado.

— Não desapareceu — respondeu.

A indústria saiu em silêncio.

O PIB permaneceu alguns instantes olhando a planilha aberta.

Produção exigia máquinas, investimento, coordenação e aprendizado. Transformava a paisagem.

Era trabalhoso.

Nos últimos anos aprendera a crescer de outra forma.

Atividades exóticas surgiam com frequência crescente nas planilhas: serviços complexos, estruturas dedicadas a administrar outras estruturas.

Produziam bastante movimento.

E exigiam muito menos esforço.

Talvez estivesse ficando preguiçoso.

Fechou a planilha com certo alívio.

Pensou por um instante.

Melhor contratar mais serviços.

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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