21 de maio de 2026

O fim da era dos grupos de mídia nacionais, por Luís Nassif

O imediatismo e a falta de visão estratégica da imprensa, a impede de apostar no novo. Ela aposta no poder imediato.
Reprodução

A era dos grandes grupos nacionais de comunicação no Brasil está chegando ao fim devido a mudanças econômicas e tecnológicas.
Publicidade digital já representa 60% da receita publicitária, enquanto confiança nas notícias tradicionais está em 42% em 2025.
A concentração da mídia contraria a Constituição de 1988, e redes sociais marcam nova fase com desafios semelhantes.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Está chegando ao fim, no Brasil, a era em que poucos grupos nacionais de comunicação conseguiam se apresentar como intérpretes naturais da nação, árbitros da respeitabilidade pública e fiadores do regime político. 

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Esse ciclo está se esgotando por razões econômicas, tecnológicas e históricas. A publicidade migrou fortemente para o ambiente digital — que já representava 60% da receita publicitária total no Brasil em 2024, com projeção de chegar a 70% em 2029 —, enquanto o consumo de notícias se fragmentou e o engajamento com TV, impresso e sites jornalísticos tradicionais segue em queda. No Brasil, a confiança nas notícias medida pelo Reuters Institute ficou em 42% em 2025, num patamar estabilizado, mas longe da autoridade quase sacerdotal que os grandes grupos exerceram por décadas. 

Democracias precisam de uma imprensa forte. O problema brasileiro foi outro: a formação de um sistema altamente concentrado, cartelizado, familiar, patrimonialista e politicamente orgânico às classes dominantes do momento, apesar de a própria Constituição de 1988 vedar monopólio e oligopólio nos meios de comunicação social. 

Sempre me intrigou o fato da mídia jamais ter se proposto a ser a voz de novos grupos que surgiam no país, como resultado de mudanças econômicas e sociais.

Sempre minimizou a era das grandes indústrias, deixou de lado os movimentos de apoio às pequenas e médias empresas, ignorou por muito tempo a própria revolução agrícola.

Em vários momentos da história, colocou-se contra qualquer projeto de soberania nacional ou de inclusão social.

Conspirou contra o segundo governo Vargas e denunciou diuturnamente o governo JK, usando para ambos denúncias de corrupção – que se revelaram totalmente falsas.

Ora, ambos os governos estavam lançando as bases de uma nova elite empresarial e social. Havia uma demanda por otimismo excepcional. O papel de qualquer mídia inteligente seria captar esses movimentos e se tornar seu porta voz. No curto período em que entendeu essa dinâmica, na campanha das diretas, a Folha de S. Paulo tornou-se o jornal mais influente do país.

Mas se a fórmula funcionou, porque em todos os demais momentos históricos, a mídia preferiu apostar no velho e matar o novo?

A razão é simples. O imediatismo e a falta de visão estratégica da imprensa, a impede de apostar no novo. Ela aposta no poder imediato. E o poder imediato sempre é o poder de ontem, até que seja desbancado pelo novo. Ela só adere ao novo, depois que este se torna poder.

Desse modo, ela atua como estratificadora de todas as eras político-econômicas de um país. O novo sempre terá dificuldades, devido à resistência da mídia. Só depois que ele consegue se impor, apesar da mídia, ele passará a receber seu apoio. 

Nos anos 90, a mídia atingiu seu apogeu, não apenas econômico como político. Eram 4 grandes diários, no eixo Rio-São Paulo, que faziam a pauta nacional. O que diziam era reproduzido por agências de notícias, se espraiavam pelo noticiário de rádio e pela imprensa regional.

Cada tiro era uma bomba.

Vivi esse período e percebi, no espaço de uma coluna que mantinha na Folha, o enorme poder transformador da mídia, desperdiçado, deixado de lado. Na minha coluna, ajudei a disseminar os programas de qualidade total, as políticas científico-tecnológicas, a importância da indústria cultural, da digitalização do Judiciário, da criação de uma indústria de defesa.

Ficava imaginando o que seria possível se, em vez de uma coluna, o jornal inteiro abraçasse uma visão modernizante para o país. Acelerariam em décadas o grande salto nacional.

Mas foi inútil. Até o Estadão, que em priscas eras representou uma elite conservadora culta, o jornal que trouxe a USP, perdeu totalmente seu clã modernizador.

A própria Constituição de 1988 vedava monopólio e oligopólio nos meios de comunicação social. O texto constitucional também determina finalidades educativas, culturais, informativas e estímulo à produção independente e regional; o país, porém, jamais regulou de forma efetiva esse mandamento. O resultado foi um espaço público sequestrado por poucos conglomerados, capazes de confundir liberdade de imprensa com liberdade de empresa — e interesse público com interesse acionário. 

Agora, com a vinda das redes sociais e das grandes plataformas, há o fim de uma era e a entrada de uma nova era, com todos os vícios da anterior: concentração da propriedade, direcionamento do discurso, falta de controle social.

Tem-se um país sem rumo e com a bússola, em vez de organizar o trajeto, montando armadilhas para jogar o navio em direção ao iceberg.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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12 Comentários
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  1. J.pontomarcelo

    25 de março de 2026 9:50 am

    Na divulgação “bomba”à época lavajato do telefonema de Dilma oara Lula eu estava em um local público e tinha uma tv,nossa foi um alarde,uma fofocaiada só de um assunto fútil,desta vez não houve COMOÇÃO nenhuma,as pessoas já sabem q os MIMADÕES de lá odeiam Lula e manipulam até a mãe deles se puderem só para ferrar Lula,puro oreconceito,no governo bolso a DESIGUALDADE DISPAROU,os bilionários ficaram muito mais ricos com todo tipo de falcatrua,politicas públicas para eles e liberdade tb,enquanto para o povo um salário de fome,mas bolso soube DISFARÇAR,ocuoar a mente das pessoas com mentiras e futilidades,é incrivel q 99 por cento dos empresários e povão não oerceberam isto culoando uma oessoa e partido q edtava à sete anos fora do governo,acho isto demais incrivel, é preciso lembrar o clima de ódio REFLETINDO até em chacinas em escolas em nosso País algo q nunca houve e sem falar na BADERNA E ZONA institucional q reflete até hoje,achei o máximo q até policiais apoiando Bolso q queria o “povão “com armas sendo q quem ia ficar mais vulnerável com isto são os próprios policiais agindo como zumbis caminhando ao precipício,sem mais e tudo isto é muito show !!!Obs.:Os conscientes q fazem oarte do sistema precisam VALIRIZAR o q Lula fez Institucionalmente falando salvando o país,não é usalo e jogar fora mas já entendi os bilionários,é numa ditadura q ganham mais dinheiro sem ter obrigação nenhuma com a sociedade,ESQUECEM q o contexto mundial é REVOLUCIONÁRIO,neste caso os nossos amigos do Brics precisarão nos ajudar na forma de não comprar nossos produtos em caso de Lula sofrer um golpe no Brasil!!!

  2. Evandro Condé

    25 de março de 2026 10:24 am

    Nassif, veja bem como a Globo é meiga. Lembrando os tempos da antiga União Soviética, quando personagens eram retirados ou incluídos das fotos, a GlobeNews utilizou o mesmo procedimento na edição do vídeo do programa Estudio I do dia 20/3. Mas vamos ao menos dar um desconto. Eles avisaram que editaram.

  3. fabricio coyote

    25 de março de 2026 10:44 am

    eu havia comentado no canal do Conversa Afiada que o saudoso Paulo Henrique Amorim jamais publicaria criticas supostas à extrema direito pela Globo News. é tolo imaginar racionalidade em burgueses. eles querem manter-se condicionadores do erário. a burguesia alemã, contrariando a suposta racionalidade da filosofia alemã, alçou hitler ao estrelato. lá, em tese, houve autocrítica. aqui é mais visceral: o espectro eletromagnético é usado para ridicularizar o povo brasileiro e incentiva a violência. é o caos!

  4. fabricio coyote

    25 de março de 2026 10:46 am

    com supremo com tudo. é ilusão querer achar racionalidade no sistema de justiça. e um engodo jogar tudo na conta somente da polícia judiciária pois essa depende sempre de ser avalizada pelo poder judiciário.

  5. beto amorim

    25 de março de 2026 10:50 am

    sempre bom ouvir o nassif. como leigo acho que houve uma corrupção sistemica nao no sentido monetario mas de visao jornalistica investigativa. Ela começou com a derrocada de dilma e lula. Com o apoio da lava jato houve a demonização de LULA e do PT como partido indecente. A globo maior conglomerado de noticias do pais pautou a midia de um modo geral. O concerto era bem afinado, LULA LADRAO PT CORRUPTO, Seguiu-se o efeito manada sem qualquer criterio jornalistico. Toda a midia hegemonica seguiu a mesma toada. Não havia contra ponto e a midia passou a adotar a direita como o partido do bem, ai envolve questoes religiosas tambem para levar o povo a acreditar nessa narrativa, isto funcionou ate a eleição de bolsonaro ela, porém, nao esperava o advento das midias sociais e também a direita nao fez a sua parte, fingir que queria o bem do Brasil. O absurdo jornalistico de ANDREA SADI, com o pouwer point criminoso, tentando passar pano para os expoentes da direita e jogar a culpa da corrupção no colo do pt foi a gota da agua. O icone do combate a corrupção SERGIO MORO passou a desgustar a sopa de FLAVIO BOLSONARO e VALDEMAR DA COSTA NETO, ” de embrulhar o estomago” nao tem defesa moral possivel para esta aliança A midia alternativa acordou e a direita se afundou na corrupção. A midia de direita esta perdendo credibilidade, o povo entendeu e estamos vivendo um momento de mudança. O brasil precisa de jornalismo investigativo e jornalista serios.

  6. WRamos

    25 de março de 2026 2:07 pm

    Para sair do enrosco e atender à CF88, talvez fosse o caso de se criar um novo tipo de sociedade empresarial onde se poderia acomodar as empresas jornalísticas, além de outras atividades que o mercado não consegue tocar com respeito devido. Ignácio Rangel costumava caracterizar bem as organizações, deixando claro que o interesse público não precisa ser exclusivamente buscado por organizações estatais. É possível conciliar capital privado e interesse público, desde que regras sejam estabelecidade, vigiadas e respeitadas. Uma ideia seria a criação de SAIP, Sociedade Anônima de Interesse Público, onde nenhum investidor ou grupo tenha controle, com capital pulverizado e com incentivos fiscais para pequenos investidores. Se imunidade tributária ao papel imprensa se justificou pelo caráter público do jornalismo, faz mais sentido incentivar o investimento popular e organizações que atuem em prol da democracia.

  7. jose machado

    25 de março de 2026 5:40 pm

    Nassif, o caso banco Master é um bomba no quarte-general da extrema direita:
    A Faria Lima, os financistas-agiotas ou a elite financeira como queira.
    Eis que esses são os personagens ocultos, e que se mantém ocultos, nos golpes de
    Estado que o Brasil sofreu desde 2013 até última tentativa em 08 de Janeiro de 2023.

    O Banco Central é o protagonista, pois não fiscalizou como deveria, mas os outros bancos
    também são. Todos estão envolvidos direta ou indiretamente, pois vendiam os títulos do Banco
    Masters, recebiam as comissões, e viam a movimentação de toda gastança e exibição do banqueiro
    Daniel Voccaro.

    O objetivo era atingir a balbúrdia (certos da impunidade e da ocultação pela mídia) e os fundos do FGC.

    Não tem inocentes nessa História. E eles querem fazer do limão uma limonada para querer
    jogar a culpa no governo.

    E a imprensa foi convocada a fazê-lo. Mas eis que deu errado e estão se queimando todos.

  8. Tadeu Silva

    25 de março de 2026 7:46 pm

    O “imenso Portugal” emulou mentalidade e prática paroquial da metrópole católica rescendendo a incenso e parafina sob acordes gregorianos e debater febril de asas powerpontuais. O diabo abandonou a liturgia pesada e trabalhosa e converteu-se à leveza sustenta pelos dízimos neopentecostais na palma da mão. Coisa profissionalizante, cívico-militar, do corre ágil e esperto como notícia boa, mesmo péssima. A negrada faz a diferença ou, Se Maomé não vai até a fonte, ou fome, a “f” vai até Maomé.

  9. MARTHA MASSAKO TANIZAKI

    25 de março de 2026 10:22 pm

    Desde a lava jato seríamos todos ignorantes como uma parcela mais esclarecida do bolsonarismo se não fosse essa imprensa independente!!! Pergunto se não tem jeito um governo progressista estudar uma divisão menos injusta do seu orçamento de publicidade tirando dos “jornalecos” e destinando parte para a imprensa independente

  10. Jose carlos lima

    26 de março de 2026 5:29 am

    Lembro que a Odebrecht e outras empreiteiras e empresas eram anunciantes da Globo que, na ânsia pra destruir Lula, apoiou a Lava Jato cujo objetivo era destruir Lula e a engenharia nacional, através de um processo baseado em falsas narrativas
    
    Mas a Globo não se exempla e vem de Lava Jato 2, com direito a exibir power point feito por um bolsonarista que acusa de plágio a emissora
    
    Triste viu

  11. José de Almeida Bispo

    26 de março de 2026 8:38 am

    “No curto período em que entendeu essa dinâmica, na campanha das diretas, a Folha de S. Paulo tornou-se o jornal mais influente do país.”
    Na impossibilidade de receber o jornal, ainda no calor da gráfica, entrei, em outubro de 1999, na internet, pelo link local do Uol. Só pra ler o jornal.
    Mas a Folha se tornou Falha já em 2004. Aguentei por certo tempo, me desligando completamente em 2008.
    Disso ficou o aprendizado: “Eu não preciso ler jornais; mentir sozinho eu sou capaz” (Raul Seixas).
    E a decepção de me saber sozinho; sem quase ninguém em confiar.
    Também por isso, O BRASIL É UM MILAGRE!

  12. José de Almeida Bispo

    26 de março de 2026 8:54 am

    Outra coisa:
    A concentração da mídia grande em São Paulo, ao invés de na capital oficial, Brasília, vai desintegrar o país.
    Há clara mudança no comportamento separatista no país a partir da mudança das Organizações Globo para São Paulo, mesmo o Rio tendo deixado de ser a referência nacional há quase 66 anos.
    A capital federativa é Brasília.

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