4 de junho de 2026

A sutileza da violência de Estado em Valor Sentimental, por Felipe Lott

O trauma que coloca a estória em movimento foi produzido por violência política, perpetrada pelo Estado norueguês durante a ocupação nazista.
Divulgação

O filme norueguês Valor Sentimental, vencedor do Oscar 2026, aborda a violência de Estado e seus efeitos transgeracionais.
Durante a ocupação nazista na Noruega, Karin Borg foi presa e torturada, trauma que impacta a família Borg até hoje.
O diretor Gustav tenta curar o trauma familiar por meio do cinema, enfrentando resistência das filhas, especialmente Nora.

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A sutileza da violência de Estado e dos efeitos transgeracionais em Valor Sentimental

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por Felipe Lott

No último dia 15 de março, Valor Sentimental ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2026. Apesar da aparência prosaica, o filme norueguês trata profundamente da questão da violência de Estado e dos danos e efeitos transgeracionais, ainda que o longa-metragem não pretenda classificar-se dessa forma.

De forma mais geral, Valor Sentimental fala sobre os traumas familiares dos Borg, que não foram resolvidos, nem mesmo enfrentados. A despeito de manter esse enganoso tom mais genérico, o trauma que coloca a estória do filme em movimento foi produzido justamente por questões de violência política, perpetrada pelo Estado norueguês durante a ocupação nazista.

Em 9 de abril de 1940, Alemanha nazista invadiu a Noruega. Resistindo até o dia 10 de junho do mesmo ano, o Estado norueguês sucumbiu às forças nazistas, passando a ser ocupado pelo Exército alemão e governado pelo Governo Nacional, uma composição norueguesa fantoche a serviço dos nazistas. Por razões geopolíticas, como a posição geográfica privilegiada do país próxima ao Ártico, a aliança com os ingleses e a invasão da Finlândia pela União Soviética em novembro de 1939, os nazistas invadiram a Noruega em meados de 1940, permanecendo na Noruega até a capitulação da Alemanha em 8 de maio de 1945.

O início do trauma dos Borg encontra-se justamente nesse período de ocupação nazista. Em algum momento do regime nazista na Noruega, Karin, mãe do renomado cineasta Gustav Borg (Stellan Skarsgård) e avó da promissora atriz Nora Borg (Renate Reinsve) e da historiadora Agnes Borg Pettersen (Inga Ibsdotter Lilleaas), foi denunciada por vizinhos por fazer propaganda antinazista, sendo presa e torturada pelo Estado norueguês. Sobrevivendo às torturas do regime pró-nazista norueguês, Karin retornou à sua casa, dedicando-se a cuidar do filho Gustav, até cometer suicídio.

Toda essa violência de Estado sofrida por Karin é o motivo do drama enfrentado pelos Borg, protagonizado especialmente pela neta Nora.

No prólogo de Valor Sentimental, Nora relembra de uma redação escolar em que contava a história da casa de sua família. Por volta dos 10 anos de idade, Nora relata como a casa foi construída, as histórias felizes e tristes da família, finalizando com o problema estrutural da construção. Como metáfora para a própria família, a casa dos Borg afunda graças a uma fissura na construção, que só cresce conforme o tempo passa. Palco de praticamente todo filme, essa casa fissurada representa o estado anímico da família Borg, que se recusa a tratar do problema.

O fato de Nora produzir uma redação escolar sobre esse tema tão delicado e pessoal, por volta dos 10 anos, explícita bastante a questão do dano transgeracional produzido pela violência de Estado. Desde criança, Nora já sabe dos problemas da família com clareza, como costuma acontecer com outras crianças que vivem a mesma situação. Comumente, uma criança de uma família de atingidos e atingidas pela violência de Estado tem plena consciência do trauma familiar, desde tenra idade. Independentemente do grau de conhecimento e de consciência, o trauma é sabido.

Nessas situações, não são necessárias explicações. Mesmo que diante do silenciamento, o comportamento dos e das familiares mais velhos/velhas transmite informações suficientes para entender que algo muito grave aconteceu no passado. Geralmente, essa transmissão ocorre muito mais por manifestações emocionais intensas, seja pelo silêncio, seja pelo barulho, metáfora sonoplasta que Nora utiliza para apresentar os conflitos dos pais no monólogo de abertura, que acaba levando o pai Gustav Borg a sair de casa e mudar-se para Suécia.

Atravessada por essas emoções turbulentas, o filme passa do monólogo introdutório de Nora para mostrá-la em seu trabalho de atriz. Em uma grande peça em que ela interpreta um papel importante, Nora tem um ataque de pânico, não quer entrar em cena, e tenta de tudo para escapar do palco. Vestida com uma típica roupa de camponesa medieval, o filme apresenta pouquíssimas cenas da peça. Na rápida passagem pela única cena, Valor Sentimental exibe estruturas cênicas que se parecem a grandes fogueiras, o que pode indicar que a temática da peça aborde a questão da violência contra a mulher, por meio da caça às bruxas.

A sugestão é ainda mais forte se dermos atenção ao sobrenome de Nora. Em norueguês, borg significa castelo, mais um vínculo com o tema medieval. Nessa exposição de Nora em seu trabalho de atriz, o filme apresenta como a protagonista vive internamente, completamente agoniada em suas emoções, como se estivesse presa em um grande castelo, sem instrumentos para deixá-lo ou transformá-lo, acabando por ser vista ou apresentar-se como uma mulher confusa, levando-a a queimar violentamente por dentro, como se fosse uma bruxa em uma fogueira. Para Nora, a adaptação a essa sociedade é muito difícil, fruto justamente desse trauma carregado pela família Borg, a família Castelo, a família encastelada.

Diferentemente de sua filha, Gustav conseguiu deixar fisicamente a casa da família Borg, ou melhor, o castelo físico e emocional da família. Sem compreender a saída do pai, Nora guarda muitas mágoas dele, dificuldade exposta logo no momento em que Gustav aparece pela primeira vez no filme. Mesmo sendo proprietário, Gustav deixou a casa de sua família com a ex-esposa Sissel Borg (Ida Marianne Vassbotn Klasson), que, além de morar, usava o espaço como consultório de atendimento psicológico. Como psicóloga, Sissel aparece como um dique que segura a estrutura do castelo, evitando o seu desmoronamento.

Ao tratar psicologicamente de pessoas na casa, Sissel acabava promovendo uma espécie de terapia familiar dos Borg, ainda que de veladamente. Possibilitado por essa personagem, esse equilíbrio precário esvai logo na introdução do filme, pois Sissel é apresentada em seu funeral, realizado na própria casa. Em decorrência desse momento infeliz, Gustav retorna da Suécia para rever as filhas, depois de muitos anos distante. No contato com a morte daquela que garantia alguma estabilidade emocional à família, é que se abre uma grande oportunidade de transformação do passado familiar dos Borg.

Após essa densa introdução, Valor Sentimental parte para expor as enormes dificuldades que Gustav tem de estabelecer relações com as filhas, especialmente com Nora. Distante emocionalmente e com pouco traquejo para relações pessoais, Gustav somente consegue construir um canal de diálogo por meio de seu trabalho como cineasta. Também no começo do filme, Gustav tenta convidar Nora para trabalhar em seu novo filme, convite que é imediatamente rechaçado pela filha.

Mesmo tentando explicar que ele escreveu o roteiro do longa-metragem para ela, Nora recusa-se peremptoriamente a trabalhar em qualquer projeto do pai. Aqui, Valor Sentimental é bastante bem-sucedido em expor a corrosão dos canais de comunicação familiares produzida pela violência de Estado e seus efeitos transgeracionais. Nora exige presença e demonstrações de afeto mais efetivas do pai, ao passo que Gustav somente consegue comunicar-se por meio do trabalho, que, inclusive, possui o potencial de alavancar a promissora carreira da filha.

A proposta cinematográfica de Gustav não é desprovida de profundo valor sentimental, não é apenas um trabalho. Pelo contrário, carrega consigo uma grande tentativa de cura catártica do trauma familiar. Há 15 anos sem realizar sequer um único filme, Gustav é um diretor veterano vivendo mais do passado do que das produções recentes. Somente por esse movimento de querer fazer um novo filme depois de tanto tempo e de tê-lo roteirizado para a filha mostra a profunda dimensão sentimental do novo projeto de Gustav. Porém, pelo rancor que sente pelo pai e pela rejeição do que entende e sente como rejeição paterna, Nora é incapaz de ler o roteiro do filme.

Com um canal de comunicação tão corroído e obstruído, Gustav procura por uma atriz que interprete o papel escrito para sua filha. Exitoso, Gustav encontra uma jovem atriz estadunidense de sucesso, que estrelará essa megaprodução da Netflix. Fundamental para transmitir essa carga emocional do filme dentro do filme, a jovem atriz estadunidense não tem nada de ingênua, apesar do esforço do longa-metragem em oferecer essa falsa ideia, a começar pelo próprio sobrenome da personagem, Rachel Kemp (Elle Fanning).

Em norueguês, kemp significa acampar. Na impossibilidade de contar com o Castelo (Borg), Gustav teve que Acampar (Kemp). O jogo de sobrenomes já mostra como essa é uma falsa solução, o que Rachel Kemp logo percebe ao longo do filme. Para aqueles e aquelas que sofreram direta e indiretamente com a violência de Estado, viver no próprio corpo, nas próprias emoções, nos próprios pensamentos é como se estivessem acampados/acampadas. Como equipamento de moradia, uma barraca de acampamento é uma estrutura provisória, pequena, leve, flexível, que possa ser desmontada e transportada rapidamente para outro lugar.

Como moradia, uma barraca de equipamento é uma estrutura extremamente precária, ainda mais quando comparada a um castelo. Apenas pela dialética entre os sobrenomes das atrizes Nora Borg e Rachel Kemp, fica explícita a necessidade de levantar acampamento e de ocupar essa casa familiar emocionalmente conturbada, esse castelo mal-assombrado. Contudo, essa dinâmica não se restringe ao sobrenome das duas atrizes do filme de Gustav.

No primeiro encontro entre Gustav e Rachel Kemp, a atriz estadunidense assiste a um filme renomado do cineasta, que a emociona profundamente. A única cena desse filme é a fuga de um casal de irmãos pequenos de soldados nazistas. Por volta dos 10 anos de idade, a menina consegue escapar entrando em um trem, que parte imediatamente. Entretanto, a menina vê que seu irmão foi capturado pelos nazistas, através da janela da cabine do trem. Aflita, a menina tenta levantar-se para ajudar o irmão capturado por alguns soldados nazistas fora do trem, que está de partida, porém, uma senhora, que já estava sentada no banco da cabine, a impede de tentá-lo.

Ainda que não fique explícito ou dito, muito provavelmente esse filme de Gustav também era sobre a experiência de sua mãe, direta ou indireta, durante o nazismo. Por meio de seu trabalho, Gustav consegue trabalhar o trauma familiar dos Borg, os irmãos separados pela violência do Estado norueguês pró-nazismo. Nesse filme renomado de Gustav, provavelmente o menino não sobreviveu à prisão, e, se sobreviveu, foi em circunstâncias muito deterioradas. Por sua vez, a menina muito possivelmente se sentiu culpada, o que poderia levá-la a rebelar-se contra o Estado nazista na Noruega, como o fez Karin, mãe de Gustav, dedicando-se à propaganda antinazista durante a ocupação do país.

Por meio de Rachel Kemp, sabemos que o filme é profundamente tocante. Também por meio dessa personagem, notamos que o novo longa-metragem de Gustav não deve ser interpretado por ela. Por um lado, Rachel Kemp é informada claramente que ela interpretaria a mãe de Gustav, que foi presa e torturada pelo regime nazista norueguês e se suicidou quando o filho era pequeno, na casa da família. Também chegou ao seu conhecimento que o papel e o filme haviam sido escritos para Nora, filha do cineasta.

Como personagem, a importância crucial de Rachel Kemp é transportar-nos para dentro de Valor Sentimental e dentro do filme dentro do filme. Por um lado, ela se sensibiliza com a história familiar dos Borg, em geral, e de Gustav, em particular. Por outro, não consegue compreender por que a filha não aceita interpretar o papel que foi escrito para ela. Ainda que sutilmente, é Rachel Kemp quem explicita esse impasse da família Borg.

Apesar de ser uma produção da Netflix, o filme de Gustav é a forma de o cineasta tratar de seu trama familiar e de tentar reconstruir o diálogo com as filhas. Travada na impossibilidade atual, a estória da família e do filme pôde ganhar movimento a partir da iniciativa de Agnes Borg Pettersen, a filha mais nova de Gustav. Guardando menos rancor que sua irmã mais velha Nora, Agnes também recusa a participação de seu filho Erik (Øyvind Hesjedal Loven), no novo filme do pai. Mesmo que Gustav já tivesse conversado com o neto, que concordara em participar do filme, a mãe Agnes barra qualquer possibilidade de que isso acontecesse.

A decisão taxativa da mãe é fruto especialmente do papel que Erik desempenharia no novo filme do pai. Nesse longa-metragem, Gustav queria que o neto o interpretasse, ao passo que Nora, a tia de Eric, interpretaria a mãe de Gustav, sua avó. Ainda comedidamente, Valor Sentimental vai mostrando mais abertamente os objetivos de Gustav com seu novo filme, tratar o trauma familiar dos Borg. Por sua incapacidade de abordar o tema diretamente com as filhas, Gustav escolhe fazer a mesma tentativa de cura familiar no terreno que ele domina, o cinema, contudo, sem admiti-lo expressamente.

Menos fechada do que a irmã em relação ao pai, Agnes Borg Pettersen acaba aceitando ler o roteiro, movimento completamente obstruído por Nora. Absorvida pela leitura do texto, Agnes apura o roteiro a partir de seu trabalho de historiadora. Pesquisando em fontes primárias em algum arquivo da Noruega, Agnes pôde constatar que o filme é realmente sobre a irmã Nora, e não sobre a avó Karin. A partir desse exame, Agnes concorda que o filho Erik atue no filme. Ao mesmo tempo, busca convencer a irmã de aceitar atuar no novo filme do pai.

Para isso, Agnes destaca as passagens do roteiro que falam diretamente da vida de Nora, como a tentativa de suicídio na adolescência. Impressionada como o pai distante poderia saber desses detalhes de sua vida, Nora foi certificada pela irmã Agnes de que ela não contou nada ao pai. Muito provavelmente, era a mãe Sissel Borg que repassava essas informações para o ex-marido na Suécia.

Como psicóloga, provavelmente Sissel conseguiu estabilizar a filha Nora enquanto esteve viva. Com seu falecimento, caberia ao pai fazer algum movimento em prol do tratamento do trauma familiar. Nesse sentido, ele o fez a partir de suas possibilidades, escrevendo um filme, um longa-metragem sobre sua mãe/filha.

A despeito de o filme aparentemente concluir que o roteiro é na verdade sobre Nora, essa é uma conclusão precipitada e ilusória. O filme é sobre Karin/Nora. Para tentar curar a violência de Estado sofrida pela avó, silenciada na família, a neta interpretou a avó em vida. Ainda que mais inconsciente do conscientemente, a tentativa de suicídio de Nora, na adolescência, foi um ato desesperado de fazer a família Borg enxergar e tratar aberta e diretamente a morte de Karin, a mãe do pai que se suicidou em decorrência das marcas deixadas pelo Estado norueguês dominado pelos nazistas.

Sem saber, Nora tentava curar o trauma da família Borg de forma extrema e irrefletida, dados os pontos obscuros da história familiar. Sabendo, Gustav enxergava o que a filha Nora fazia, ainda que não quisesse ver. Talvez ajudado pela ex-esposa, talvez sabendo por conta própria, Gustav escreveu um roteiro para poder dar linguagem a toda a angústia familiar que Nora incorporava e expressava solitariamente de forma autodestrutiva.

O final de Valor Sentimental é justamente esse, o estupor de Nora após interpretar a cena do suicídio da avó. É assim que sabemos que ela aceitou estrelar o novo filme do pai. É assim que sabemos que ela se deu conta de que interpretava a avó, em vida. Mais ou menos na metade do longa-metragem, o filme explica que a cena do suicídio acontece com a atriz despedindo-se do filho, entrando no quarto, fechando a porta e fazendo um barulho de alguém que se enforcou, após chutar o banco que a sustenta. Em outras palavras, o roteiro do novo filme de Gustav sugere o suicídio, mas não o mostra explicitamente.

Na conclusão de Valor Sentimental, vemos exatamente essa cena. Porém, o filme dentro do filme nos mostra Nora dentro do quarto, sem subir em cadeira alguma. Apenas ali naquele quarto, viva, estupefata. Ela sobreviveu. Ela pôde dar corpo à avó Karin, pôde dar vida à memória da avó massacrada pela violência de Estado nazista na Noruega.

Distanciando-se da perplexa Nora e já passando os créditos de Valor Sentimental, podemos ver que a casa, que seria o cenário ideal do novo filme de Gustav, foi retirada de seu local original. A família pôde locomover-se, deixar o seu lugar de estancamento, onde afundava junto da casa. A mudança física da casa é a mudança sentimental da família Borg, agora desencastelada.

Felipe Lott – Doutor e mestre em História pela UFF e bacharel em Ciências Sociais pela UFF, membro do coletivo Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça e do Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça e Reparação

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