Entre o crédito caro e a vida cara: o que está em jogo em 2026
Juros, endividamento e transporte como termômetro da eleição
por Maria Luiza Falcão Silva
Há algo de aparentemente paradoxal no Brasil que se aproxima das eleições presidenciais de 2026. Os indicadores macroeconômicos não sugerem uma crise clássica: o desemprego caiu, a inflação perdeu intensidade em relação aos picos recentes e o crescimento, ainda que modesto, se mantém positivo. E, no entanto, o humor social não acompanha essa melhora.
Essa dissociação entre números e percepção não é um detalhe — é, na verdade, o ponto central da disputa política que se desenha.
A economia pode estar melhorando nos relatórios. Mas, para milhões de brasileiros, a vida continua difícil. E é nesse descompasso que se definem eleições.
Três elementos, em particular, ajudam a explicar esse fenômeno: o nível elevado dos juros, o grau de endividamento das famílias e o custo dos transportes. Não são variáveis abstratas. São experiências cotidianas.
Comecemos pelo endividamento.
Dados recentes indicam que o comprometimento da renda das famílias com dívidas gira em torno de 30%. Esse número, por si só, já diz muito. Não se trata apenas de quantas famílias estão endividadas — que são muitas —, mas de quanto da renda mensal está sendo drenado para o sistema financeiro.
É uma transferência silenciosa e contínua.
O salário entra, mas não permanece. Ele é rapidamente absorvido por parcelas, juros do cartão, crédito consignado, financiamento. O consumo se mantém, mas comprimido. A sensação de sufocamento financeiro se instala mesmo entre aqueles que estão empregados.
Esse é o primeiro posto-chave: o endividamento transforma renda em ilusão de renda.
A esse quadro soma-se o nível ainda elevado das taxas de juros. Mesmo com eventuais reduções, o custo do crédito no Brasil permanece entre os mais altos do mundo. Isso significa que cada parcela paga carrega, embutido, um peso adicional — invisível, mas decisivo.
Juros altos não aparecem na prateleira do supermercado. Mas aparecem na fatura.
Eles operam como um imposto não declarado sobre o presente e sobre o futuro. Travam o investimento, dificultam a retomada mais robusta da economia e, sobretudo, ampliam o custo de viver.
O resultado é um cotidiano em que o dinheiro não rende — e, mais do que isso, parece sempre insuficiente.
Mas há um terceiro elemento que torna essa equação ainda mais sensível: o transporte.
Poucos preços têm impacto tão direto e imediato na percepção da economia quanto os combustíveis e as tarifas de transporte público. O aumento do diesel encarece alimentos. A gasolina pesa no orçamento das famílias. A passagem de ônibus incide diariamente sobre o trabalhador.
Diferentemente dos juros, que operam de forma difusa, o transporte é concreto, visível, inevitável.
Ele é pago todos os dias.
E, por isso, se converte em um dos principais formadores da chamada “inflação percebida” — aquela que não depende dos índices oficiais, mas da experiência direta das pessoas.
Mas há ainda um elemento adicional, frequentemente invisível no debate público, que agrava esse quadro: o impacto das tensões geopolíticas e dos conflitos internacionais sobre os preços da energia. Guerras e disputas no Oriente Médio, interrupções em rotas estratégicas e a própria revalorização geopolítica do petróleo pressionam os preços globais dos combustíveis. Esse movimento, no entanto, não é percebido como tal pela população. O que chega ao cotidiano não é a geopolítica — é o preço da gasolina e do diesel. A mediação entre esses dois planos simplesmente desaparece. E, na ausência dessa conexão, a alta dos combustíveis tende a ser atribuída diretamente ao governo, reforçando a percepção de deterioração econômica, ainda que suas causas sejam, em grande medida, externas.
É nesse ponto que os três fatores se encontram.
Juros elevados encarecem o crédito. O crédito caro alimenta o endividamento. O endividamento reduz a renda disponível. Ao mesmo tempo, o custo do transporte pressiona o orçamento diário e encarece toda a cadeia de consumo.
Forma-se, assim, um ciclo de compressão do bem-estar.
A economia cresce, mas a vida não melhora na mesma proporção.
E é exatamente esse tipo de situação que costuma produzir resultados eleitorais imprevisíveis.
O presidente Lula chega a 2026 com ativos importantes: recuperação do emprego, programas sociais fortalecidos, alguma estabilidade institucional após anos de turbulência. Mas enfrenta um desafio clássico de governos em contextos de juros altos: a dificuldade de converter melhora macroeconômica em sensação de progresso no cotidiano.
Esse é um terreno fértil para narrativas simplificadoras.
A extrema direita não precisa apresentar um diagnóstico sofisticado. Basta capturar o sentimento difuso de insatisfação e traduzi-lo em uma mensagem direta: “a vida piorou”.
E, quando a experiência cotidiana parece confirmar essa percepção, o argumento ganha força.
O risco, portanto, não está necessariamente em uma deterioração abrupta da economia, mas em algo mais sutil e, por isso mesmo, mais perigoso: a persistência de um mal-estar econômico difuso, alimentado por fatores que atingem diretamente o bolso e a rotina das famílias.
Juros, endividamento e transporte não são apenas variáveis econômicas. São mediadores da percepção social.
E eleições, no fim das contas, são decididas exatamente aí.
Se o governo conseguir reduzir esse descompasso — aliviando o custo do crédito, enfrentando o peso do endividamento e estabilizando os preços que mais afetam o cotidiano — poderá transformar estabilidade em apoio político.
Se não conseguir, corre o risco de ver uma economia razoavelmente organizada produzir um resultado eleitoral adverso e desatroso.
A história recente mostra que isso não é apenas possível.
É, muitas vezes, o que acontece.
Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).
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WRamos
27 de março de 2026 2:54 pmMais que o juro básico da Selic, o que torna o preço do crédito absurdo é o spread descontrolado. Por se tratar de emergência econômica clara, entendo que o governo poderia buscar formas emergenciais para enfrentar a situação. O Tesouro deveria abrir crédito aos bancos, até mesmo por meio de emissão de moeda se preciso, para recomprar dívida de cartão de crédito e cheque especial, obrigando os credores a descontarem do juro acumulado no saldo os exageros de spreads sempre justificados com a inadimplência. Caberia ao devedor a decisão de aderir ao programa, comprometendo-se com um processo de educação financeira e tendo que ficar fora do mercado de crédito pelo tempo de recuperação. Os bancos poderiam cobrar juro real acima da inflação e repassá-los ao Tesouro, ficando apenas com remuneração modesta de intermediário.