Países devem resistir ao impulso de acumular petróleo e combustível durante a crise energética desencadeada pela guerra EUA-Israel contra o Irã, alertou o chefe da Agência Internacional de Energia (AIE), com o abastecimento global esperando piorar ainda mais caso o Estreito de Ormuz permaneça fechado.
“Peço a todos os países que não imponham proibições ou restrições às exportações”, disse Fatih Birol ao FT. “É o pior momento possível quando se olha para os mercados globais de petróleo. Seus parceiros comerciais, aliados e vizinhos sofrerão as consequências.”
Embora tenha evitado citar a China diretamente, os comentários de Birol parecem dirigidos a Pequim. O país é a única grande nação a ter proibido a exportação de gasolina, diesel e querosene de aviação em resposta à guerra, que já dura cinco semanas — embora a Índia tenha imposto tarifas extras sobre exportações.
Birol afirmou que “grandes países asiáticos que possuem refinarias de grande porte” deveriam reconsiderar qualquer proibição. “Se esses países continuarem a restringir ou proibir totalmente as exportações, o impacto sobre os mercados asiáticos será dramático.”
Seu apelo pode ser também direcionado aos Estados Unidos, onde circulam rumores sobre uma possível proibição de exportações de combustíveis refinados, em meio à gasolina passando de US$ 4 por galão e à ameaça de escassez de querosene na Califórnia. Embora os EUA tenham apoiado um apelo do G7 contra proibições de exportação, o secretário de Energia americano, Chris Wright, até agora apenas descartou uma proibição sobre exportações de petróleo bruto.
Birol revelou que alguns países já estão acumulando energia, minando o efeito da liberação coordenada de 400 milhões de barris de petróleo e combustível das reservas estratégicas pela AIE — medida tomada para tentar estabilizar os mercados durante o conflito.
“Infelizmente, vemos que alguns países estão aumentando seus estoques existentes durante nossa liberação coordenada de reservas”, disse ele. “Estão estocando. Isso não ajuda. Este é um momento em que todos os países devem provar que são membros responsáveis da comunidade internacional.”
Entre os países que tiveram estoques crescentes nas últimas semanas estão os próprios EUA e a China. Apesar de ser o maior contribuinte para o plano da AIE, os estoques americanos cresceram 5% em comparação ao ano anterior, segundo o mais recente relatório semanal da Agência de Informação de Energia dos EUA. Já os estoques terrestres chineses de petróleo bruto devem estar cerca de 120 milhões de barris acima do normal em abril, atingindo 1,3 bilhão de barris, de acordo com projeções da empresa de dados energéticos OilX.
A crise energética tem sido sentida de forma mais aguda na Ásia, onde alguns países já começaram a racionar combustível e a reduzir a jornada de trabalho semanal. No Ocidente, embora os preços do diesel e do querosene tenham subido acentuadamente, Birol afirmou não haver “escassez física de querosene ou diesel na Europa no momento” — mas alertou que a situação pode mudar nas próximas semanas se a perturbação no fornecimento proveniente do Oriente Médio persistir.
Birol, que como chefe da AIE tem estado no centro das discussões sobre como responder à crise, advertiu que “em abril, perderemos o dobro da quantidade de petróleo bruto e derivados que perdemos em março”, caso o Estreito de Ormuz não seja reaberto ao tráfego marítimo. Em tempos normais, um quinto de todo o petróleo e gás natural liquefeito do mundo passa pelo estreito, praticamente fechado pelas ameaças iranianas de atacar navios.
Mesmo após o fim do conflito, a normalização levará muito tempo, advertiu. “Estamos acompanhando todos os principais ativos energéticos da região diariamente, ou hora a hora”, disse, referindo-se a campos de petróleo e gás, oleodutos, refinarias e terminais de GNL. “Atualmente, 72 ativos energéticos foram danificados, e um terço deles sofreu danos graves ou muito graves.”
Birol elogiou a Arábia Saudita pela resposta rápida à crise, após o país redirecionar mais de dois terços de suas exportações de petróleo por um oleoduto até o Mar Vermelho, contornando o estreito. Ele disse ter recebido garantias das “mais altas autoridades sauditas” de que esse oleoduto estratégico está “bem protegido”, mas alertou que um eventual ataque bem-sucedido à rota teria “consequências extremamente graves” para a economia global.
Birol também afirmou que a crise atual redesenhará o sistema energético mundial, assim como as crises anteriores — a dos anos 1970 e a provocada pela invasão russa da Ucrânia em 2022. Ele previu que o momento atual impulsionará um novo renascimento nuclear, um boom nos veículos elétricos e um avanço nas energias renováveis, ao mesmo tempo em que levará alguns países a queimar mais carvão. Quanto ao setor de gás, que se apresentava como fornecedor confiável, Birol disse que o segmento terá de “trabalhar muito para recuperar sua reputação” após dois choques energéticos em quatro anos.
Por fim, o dirigente descartou que o Reino Unido consiga repetir seu boom petrolífero das décadas passadas. “O país já extraiu a maior parte do que pode ser retirado de forma economicamente viável”, concluiu. “Naquela época, o Reino Unido produzia 5% do petróleo e gás mundiais. Hoje, esse número é de apenas 0,7%.”
*Com informações do Financial Times.
LEIA TAMBÉM:
Deixe um comentário