7 de junho de 2026

Como a neurociência do comportamento explica a banalização da violência contra a mulher

Sob a ótica de Albert Bandura, o uso de humor misógino nas plataformas digitais mascara a violência e anula o senso de culpa
Imagem: Pixabay

A cada 24h, 12 mulheres sofrem violência no Brasil; casos e feminicídios aumentam conforme dados do CNJ.
Redes sociais e grupos “red pill” normalizam agressões contra mulheres por meio de humor e linguagem eufemística.
Jovens, com córtex pré-frontal em desenvolvimento, aprendem a dessensibilizar e justificar violência contra mulheres online.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Por Sheron Mendes

Banalização da violência: como a internet ensina uma geração rir de agressões contra a mulher

Gargalhadas vindas de vídeos que humilham mulheres. Outros compartilham conteúdos que tratam a dor alheia como entretenimento. Esses são assuntos que estão ganhando espaço entre os adolescentes. Em algumas plataformas digitais, a crueldade circula como uma linguagem comum, sem causar indignação ou ao menos estranheza. Conforme relatório “Elas Vivem: um caminho de luta”, publicado pela Rede de Observatórios da Segurança, a cada 24 horas, 12 mulheres são vítimas de violência no país. Já o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) registrou um aumento de 3,49% destes casos em comparação a janeiro do ano passado. Segundo o mesmo conselho, os processos de feminicídio triplicaram nos últimos cinco anos. No entanto, enquanto as estatísticas oficiais chocam, um fenômeno mais inquietante ganha força no ambiente digital: a validação de comportamento diante dessas atrocidades, normalizando o ódio.

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O renomado psicólogo canadense-americano Albert Bandura (1925-2021), criador da Teoria Social Cognitiva, dedicou parte de sua carreira a investigar o que chamou de “desengajamento moral”. Bandura demonstrou que o ser humano não nasce indiferente ao sofrimento alheio; pelo contrário, possuímos mecanismos internos que regulam nossas ações a partir de princípios éticos. O problema, segundo o pesquisador, é que esses mecanismos podem ser progressivamente desativados, permitindo que pessoas comuns justifiquem atitudes cruéis sem sentir culpa. Pelo visto, as redes sociais fazem isso com eficiência.

Em comunidades digitais associadas ao universo “red pill”, por exemplo, a hostilidade contra mulheres raramente aparece como violência explícita. Ela surge travestida de “realismo”, “verdade” ou até humor. O vocabulário muda, a intenção permanece. O que Bandura descreveu como linguagem eufemística opera aqui com precisão: suaviza-se a agressão até que ela pareça aceitável. O passo seguinte é ainda mais delicado. A repetição dessa temática reduz a resposta emocional negativa. Aquilo que antes causava horror passa a ser pouco a pouco tolerado. Depois, compartilhado. Por fim, defendido.

A neurociência do desenvolvimento ajuda a compreender a gravidade desse processo, especialmente diante dos jovens. A neurocientista canadense Adele Diamond, uma das maiores autoridades mundiais no estudo do desenvolvimento cognitivo e das funções executivas, aponta que o córtex pré-frontal, região do cérebro responsável pelo controle inibitório, empatia e julgamento moral, leva mais de duas décadas para atingir sua maturidade completa.

Isso significa que, diante de estímulos constantes, o cérebro não apenas consome conteúdo: ele aprende com ele. Aprende, inclusive, a não se importar.
Bandura aprofunda esse fenômeno ao demonstrar que a dessensibilização não ocorre isoladamente. Ela é sustentada por mecanismos que reorganizam a forma como o indivíduo interpreta suas próprias ações. A responsabilidade deixa de ser individual e passa a ser diluída no grupo. Quando milhares de usuários curtem e compartilham um vídeo misógino, ninguém se sente responsável pela agressão.

Ao mesmo tempo, constrói-se uma narrativa em que a violência é justificada. O outro deixa de ser percebido como sujeito e passa a ser reduzido a um rótulo, a uma categoria, a um estereótipo. É o processo de desumanização. Não se agride alguém, agride-se “aquilo que ela representa”. Há ainda um deslocamento sutil: a culpa é transferida para a vítima. “Ela provocou”, “mereceu”, “é assim mesmo”. A agressão deixa de ser vista como escolha e passa a ser apresentada como resposta legítima. Nesse ponto, a autorregulação moral já não opera com a mesma força.

O resultado é uma arquitetura psíquica onde a violência é reinterpretada. O levantamento realizado pelo Instituto DataSenado com cerca de 22 mil brasileiras em 2025, mostrou que 88% das mulheres afirmaram já ter sofrido violência psicológica. A violência física e o feminicídio podem ser vistos como a ponta de um iceberg cuja base é construída diariamente através de piadas, memes e discursos de ódio validados nas redes.
E quando uma geração aprende a reinterpretar a violência antes mesmo de aprender a reconhecê-la, o problema já não está apenas no conteúdo que circula, mas na forma como a consciência coletiva está sendo moldada.

*Sheron Mendes é bióloga, especialista em Neurociência do Comportamento e professora dos cursos de pós-graduação em Educação na UNINTER.

Este artigo não expressa, necessariamente, a opinião do Jornal GGN.

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  1. Rui Ribeiro

    6 de abril de 2026 1:28 pm

    Quando o Bolsonaro assumiu, a violência contra a mulher aumentou. Não era prá menos. Eles consideram a mulher um ser inferior.

    “Bolsonaro é alvo de ação por falas sobre mulheres
    Pepita Ortega, Fausto Macedo e Julia Lindner, em 11/08/2020

    Procuradores de São Paulo apontam desrespeito e misoginia em declarações de presidente e ministros, e em medidas de governo
    Discriminação. MPF questiona declarações de Jair Bolsonaro

    O Ministério Público Federal apresentou ação civil pública contra o governo Jair Bolsonaro por posturas “desrespeitosas” e declarações discriminatórias, feitas pelo presidente e ministros em relação às mulheres. Para a Procuradoria, desde o início da atual gestão, integrantes da cúpula do governo federal proferiram uma série de declarações e fizeram atos administrativos que revelam viés preconceituoso contra as mulheres, reforçando estigmas e estimulando a violência.

    Segundo o MPF, a postura de Bolsonaro e seus ministros configura abuso de liberdade de expressão, uma vez que fere outros direitos garantidos pela Constituição, como o respeito à dignidade da pessoa humana. A Procuradoria destaca que as manifestações “intoleráveis” têm efeito “sobre a realidade social e a persuasão do público, com potencial para reforçar estereótipos e posturas misóginas e discriminatórias, notadamente quando advindas de pessoas com poder de influência”.

    A ação apresentada à 6.ª Vara Cível Federal de São Paulo pede o imediato bloqueio de pelo menos R$ 10 milhões do orçamento federal e destinação dos valores para campanhas de conscientização sobre os direitos das mulheres, com veiculação pelo período mínimo de um ano. Além disso, o MPF requer que a União seja condenada ao pagamento de R$ 5 milhões ao Fundo de Direitos Difusos, a título de indenização, por danos sociais e morais coletivos. A ação foi proposta pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão em São Paulo na quarta-feira passada, dois dias antes do aniversário de 14 anos da Lei Maria da Penha.

    No documento, os procuradores Pedro Antonio de Oliveira Machado e Lisiane Braecher citam os episódios em que, segundo eles, o presidente e ministros se dirigiram às mulheres de maneira desrespeitosa ou fizeram insinuações misóginas. A ação cita, por exemplo, que em abril de 2019 Bolsonaro afirmou que “o Brasil não pode ser o paraíso do turismo gay”. “Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade.” Em fevereiro deste ano, ao se referir a uma jornalista, Bolsonaro disse, sob risos dele e de pessoas que o acompanhavam: “Ela (repórter) queria um furo. Ela queria dar o furo”.

    A peça também destaca falas de integrantes do governo, como a do ministro da Economia, Paulo Guedes. “É verdade mesmo, a mulher é feia mesmo”, disse Guedes ao endossar ataques de Bolsonaro à primeira-dama francesa, Brigitte Macron.

    “Este padrão presente em tais pronunciamentos, assim como outras declarações, veicula estereótipos que reforçam abusivamente a discriminação e o preconceito, que estigmatizam as mulheres, e causam danos morais coletivos e danos sociais”, argumentam os procuradores na ação.

    ‘Fraquejada’. Bolsonaro fez ontem referência a uma fala anterior sua, em que ele comparou o nascimento de sua filha Laura, a quinta após quatro filhos homens, a uma “fraquejada”. O comentário foi feito após uma apoiadora dizer que as suas três filhas estavam assistindo ao presidente por meio de uma chamada de vídeo. “Três meninas? Três fraque… Não vou falar, não, senão vai dar problema”, disse. O marido da apoiadora afirmou que é o “fornecedor”. “O meu está quatro a um”, respondeu Bolsonaro.

    Na ação, a Procuradoria ressalta que o “descaso do presidente pelos desafios que as mulheres enfrentam não tem se revelado apenas em discursos”, e aponta que ações do governo vêm dificultando o cumprimento dos direitos femininos…”

    https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/584912/noticia.html?sequence=1&isAllowed=y

    Vamos amarrar o burro no rabo do dono.

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