O agronegócio brasileiro além dos grãos: dimensão real e potencial produtivo
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
Introdução
A tradição mundial para comparar o peso dos países na oferta mundial é a medida pela produção de grãos. Esse critério é insuficiente. Essa prática captura somente as commodities e deixa de fora o que há de mais amplo, que são fontes energéticas e alimentares que não se expressam diretamente em toneladas de soja ou milho.
Ao reduzir o agronegócio aos grãos, subestima-se tanto a escala quanto o potencial. Mais do que isso, obscurece-se a relação entre produção, insumos e autonomia.
Pensando além dos grãos
A produção brasileira de grãos, estimada em cerca de 353 milhões de toneladas, concentra-se majoritariamente em soja e milho. Esse volume posiciona o país, juntamente com os Estados Unidos, seu maior concorrente, no núcleo do agronegócio global.
A produção de mandioca, açúcar e etanol constitui uma importante base energética, ignorada por não se tratarem de produtos comerciáveis internacionalmente. Convertida em equivalente em milho via poder energético, essa produção corresponde a aproximadamente 100 milhões de toneladas.
Essa equivalência pode ser sintetizada:
– Mandioca: 17 a 18 milhões de toneladas → ≈ 7,5 a 8 milhões de toneladas de milho equivalente
– Açúcar: ≈ 45 milhões de toneladas → ≈ 50 milhões de toneladas de milho equivalente
– Etanol: ≈ 30 milhões de m³ → ≈ 40 a 50 milhões de toneladas de milho equivalente
Total: ≈ 100 milhões de toneladas de milho equivalente
Essa estimativa requer prudência.
O milho é mensurado seco; a mandioca, úmida. A comparação direta subestima a mandioca. Em bases equivalentes, a diferença não apenas se reduz: inverte-se.
A mandioca pode atingir algo como 40 t/ha, enquanto o milho raramente ultrapassa 12 t/ha. Mesmo considerando um limite genético de 20 t/ha para o milho, atinge as estimativas mais conservadoras para a mandioca. Somadas, essas três lavouras adicionam ao sistema produtivo brasileiro uma base energética comparável a uma safra de grande escala em âmbito mundial.
Incorporar essa pauta em equivalência leva o agronegócio brasileiro a um patamar próximo de 450 milhões de toneladas de grãos em termos energéticos. Esse número representa a produção já reconhecida e a não considerada como commodity.
O potencial produtivo
O Brasil dispõe de cerca de 150 a 170 milhões de hectares de pastagens, dos quais uma parcela relevante apresenta algum grau de degradação, numa área estimada entre 50 e 70 milhões de hectares.
A recuperação dessa área não é total nem simultânea. Ela é regida pela lógica da integração lavoura-pecuária. Nesse sistema, a área se alterna entre lavoura e pastagem. Mata-se a cobertura existente, planta-se a soja, cultiva-se a segunda safra — em geral milho — e, ainda durante o ciclo, introduz-se capim adaptado à sombra. Após a colheita, o capim assume, permitindo o retorno do gado. Em seguida, a área é novamente preparada para o plantio.
A remoção do gado para a implantação da lavoura requer área de pasto específica, geralmente, de 20% do total aberto. Nela, a pastagem ficou descansando no período da seca, recompondo-se para novo ciclo. Retirando-se também a área a recompor as reservas naturais, sobra algo como vinte e quatro milhões de hectares a serem adicionados à tecnologia da integração lavoura-pecuária.
Imaginando-se uma produtividades próxima da média nacional, essa área tem um potencial para 72 t milhões de soja e 230 t milhões de milho, perfazendo 302 t milhões de grãos aproximadamente. Ao se somar esse potencial à produção atual, obtém-se uma ordem de grandeza superior a 700 milhões de toneladas de grãos ao ano a serem condicionadas à existência de mercado e à vontade política para que esse salto seja dado. Essa vontade política traduz-se na assunção de que a autonomia na produção de insumos é essencial, seja no aspecto estratégico da invulnerabilidade, seja no sentido da maximização do valor agregado aos bens a serem exportados.
Conclusão
O agronegócio brasileiro é maior do que os grãos indicam e tem potencial para crescer muito além de sua escala atual.
Essa expansão não se realizará por inércia.
Ela depende da recomposição da capacidade nacional de produção de insumos e do reconhecimento de que sua base é necessariamente interna.
O país desenvolveu, ao longo das últimas décadas, uma tecnologia própria de integração lavoura-pecuária, que permite intensificar a produção sem expansão territorial e sustentar ganhos contínuos de produtividade.
Essa condição padece de uma contradição. Um país que avançou, em tecnologia, vinte anos à frente de seus concorrentes abriu mão da autonomia na produção nacional dos insumos de que depende.
Sem a consciência de que o mercado é uma guerra, o potencial permanece isso mesmo, apenas potencial.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.
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