A Invasão da Ilha de Kharg e Seus Aspectos Filosóficos
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
A hipótese de invasão da Ilha de Kharg não pode ser analisada apenas sob a ótica militar. Ainda que se trate de um objetivo geograficamente atraente, com pífia população civil e infraestrutura dedicada, o problema central não se limita à viabilidade tática da operação, chegando à sua natureza filosófica.
Do ponto de vista operacional, a tomada de Kharg apresenta uma simplicidade apenas aparente. Não há ali um tecido urbano complexo, mas um conjunto de instalações portuárias e logísticas, que pode ser evacuada à menor ameaça. O petróleo que por ela escoa provém do território continental iraniano. Diante de uma ameaça concreta, basta interromper o fluxo para anular seu valor estratégico.
O invasor, se bem sucedido, não assume um ativo, mas um alvo fixo que, livre de civis, pode ser atingido por quaisquer tipos de munição, incluindo bombas termobáricas.
Esse deslocamento é agravado pelas transformações tecnológicas recentes. Meios de transporte permanecem visíveis e vulneráveis, enquanto sistemas distribuídos de vigilância e ataque se multiplicam a baixo custo. O resultado é um descompasso estrutural entre a capacidade de atacar e a capacidade de ocupar. Um desembarque deixa de ser um movimento decisivo e passa a representar um quase suicídio em massa. Bombardeiros podem ser STEALFF, mas aeronaves de transporte de tropas não. Também não há helicópteros invisíveis. Pôr soldados no terreno pelo ar ou pelo mar em tempos de enxames de drones deve constituir um espetáculo dantesco a que jamais um ser humano deveria ser exposto.
Mas o núcleo do problema não é militar. É filosófico.
A análise econômica tradicional tenderia a enquadrar a operação em termos de custo e benefício. No entanto, esse enquadramento pressupõe comparabilidade entre os elementos envolvidos. Quando se introduz a vida humana na equação, essa comparabilidade desaparece. Se a vida tem valor absoluto, não pode ser objeto de cálculo. Qualquer decisão que implique sua perda previsível deixa de ser econômica e passa a ser moral.
A justificativa de que o Estado deve proteger seus cidadãos repousa sobre duas premissas, ameaça direta e a limitação do conflito aos combatentes. Nenhuma dessas condições se verifica plenamente. A ameaça é difusa e os efeitos da guerra ultrapassam o campo militar.
Surge, então, a questão fundamental: a quem serve o Estado.
Se sua finalidade é a proteção da pessoa humana, a vida não pode ser tratada como meio. Se, ao contrário, ele opera em função de estruturas que adquirem autonomia, a vida passa a ser subordinada a uma lógica externa.
A leitura de Marx ilumina esse ponto. No circuito M-D-M, a mercadoria medeia a satisfação de necessidades. No circuito D-M-D, o dinheiro se valoriza por meio da mercadoria. Em ambos, a produção real permanece como referência. A financeirização introduz uma ruptura: o circuito D-D, no qual o dinheiro busca sua própria expansão sem mediação material direta.
A mercadoria desaparece. O capital passa a operar por si mesmo.
Essa autonomização altera a função do Estado. Ele deixa de ser instrumento da pessoa e passa a ser garantidor de um processo que se autoalimenta. A analogia com o príon é sugestiva. É como uma proteína que, mesmo sem estrutura genética convencional (DNA ou RNA), reproduz-se. Do mesmo modo, o capital financeiro tende a dominar a sociedade, pondo o Estado ao seu serviço.
Essa lógica não se resume na guerra. Durante a pandemia de Covid-19, a mesma dicotomia se fez presente. Em países como Estados Unidos, Brasil e Suécia, contrapôs-se abertamente as medidas de isolamento e seus efeitos econômicos. A vida humana foi colocada, de forma explícita ou implícita, como antagônica à atividade econômica.
Declarações como as de Roberto Campos Neto, ao afirmar que a vida humana não teria valor infinito, não são mera retórica. São a expressão de uma lógica vigente num ambiente capitalista.
Não se trata de faces opostas de uma mesma moeda. Trata-se de uma moeda com duas faces idênticas.
A mesma estrutura de decisão que, em tempos de paz, pondera vidas frente a perdas materiais, reaparece, em tempos de guerra, legitimando operações cujo custo humano é previsível e com risco elevado. A diferença está apenas na intensidade, não na natureza.
Mais profundamente, nem mesmo os detentores do capital ocupam o centro desse processo. Eles próprios tornam-se funcionais à sua reprodução. O capital, como entidade autônoma, deixa de depender de sujeitos específicos. Torna-se um processo que se sustenta pela reorganização contínua das estruturas sociais, políticas e econômicas.
Assim, a invasão da Ilha de Kharg deixa de ser apenas uma operação militar de retorno temerário. Ela se torna um sintoma de quão doentes podem estar a sociedade e seus governantes.
Ao assumir perdas humanas em nome de um objetivo contestável, revela-se uma perversão da hierarquia de valores. A vida, embora proclamada como central, é tratada como descartável. A questão não é se a operação é materialmente viável. É se ela é moralmente admissível. É nessa ruptura — mais do que no campo de batalha — que guerras dessa natureza tendem a se decidir.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.
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Sergio Navas
2 de abril de 2026 8:02 amSe verdadeiros forem os fatos revelados sobre EPSTEIN, podemos ter uma vaga ideia do caráter de seus frequentadores que hoje comandam as forças que tem o poder de destruir a humanidade.⁷