21 de maio de 2026

Políticas públicas como imagem e a vacina contra os reacionários, por Luiz Alberto Melchert

A eficácia política de um governo depende da convergência entre três elementos: entrega concreta, percepção social e fixação da identidade.
Minha Casa Minha Vida - Arquivo Agência Brasil

Políticas públicas consolidam-se unindo entrega material, percepção social e identidade simbólica, diz texto de Luiz Alberto Melchert.
Minha Casa Minha Vida exemplifica política com identidade forte, enquanto Casa Verde e Amarela não conseguiu mesma fixação social.
Governo Lula enfrenta desafio de criar signos que traduzam avanços em conquistas reconhecidas para resistir a ataques simbólicos.

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Políticas públicas como imagem e a vacina contra os reacionários

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Resumo
A política pública só se consolida quando une três dimensões: entrega material, percepção social e identidade simbólica. Sem essa convergência, mesmo avanços reais tornam-se frágeis diante da disputa política. Este texto propõe que o êxito eleitoral de um governo depende menos da soma de políticas isoladas e mais da capacidade de sintetizar, em programas concretos e reconhecíveis, os novos anseios da sociedade. A ausência dessa síntese ajuda a explicar o descompasso atual entre resultados objetivos e percepção pública.

A História pode ser lida como um cabo de guerra entre grupos com interesses distintos. De um lado, os que têm e não querem perder; de outro, os que não têm e querem ter. Há ainda um terceiro vetor, frequentemente negligenciado: os que já tiveram e buscam reaver o que perderam. Esse grupo atua sobre o medo dos primeiros e reorganiza o campo político. Mas esse conflito não se dá apenas no plano material. Ele ocorre também no plano simbólico, onde se define o significado das mudanças.

O ponto central é que não basta produzir mudanças; é preciso que elas sejam reconhecidas como tais. A política não se sustenta apenas pela realidade objetiva, mas pela forma como essa realidade é percebida e batizada.

Exemplo de construção da memória coletiva é o programa Minha Casa Minha Vida. O ciclo de expansão do crédito imobiliário no Brasil nos anos 2000 foi viabilizado por mudanças institucionais profundas. A alienação fiduciária reduziu o risco do crédito imobiliário. Ela eliminou os intermináveis processos de penhora ligados à anacrônica hipoteca, permitindo a expansão da oferta de financiamento. A expansão da alienação fiduciária para imóveis usados ampliou o mercado. É que as famílias passaram a poder ir de um imóvel para outro ao longo de seu ciclo de vida. Para atender a demanda, criou-se, no mercado financeiro, uma infraestrutura capaz de operar em escala.

No entanto, esses elementos não permaneceram na memória coletiva. O que se fixou foi o Minha Casa Minha Vida, que introduziu um enorme contingente no mercado imobiliário recém-reformado. A razão é simples: a população não percebe dispositivos jurídicos, mas experiências concretas. A casa própria tem materialidade imediata. Ela pode ser vista, habitada, exibida.

Isso revela uma característica fundamental: a memória social não registra cadeias causais longas. Ela se organiza em torno de objetos perceptíveis.

Quando uma política pública ganha nome e identidade, passa a ser percebida como conquista. Essa transformação é decisiva para sua sobrevivência.

A tentativa de substituição do Minha Casa Minha Vida por Casa Verde e Amarela não prosperou porque o novo nome não carregava a mesma densidade simbólica. A infraestrutura permaneceu, mas a identificação social não se transferiu.

O mesmo princípio vale para instituições mais amplas, como a Petrobras, cuja origem esteve associada ao lema “O petróleo é nosso’, de forte apelo mercadológico. Quando esse vínculo simbólico se dissipa, a instituição torna-se mais vulnerável a cobiça. Não se trata apenas de comunicação. Trata-se de proteção política. O que é reconhecido como conquista tende a ser defendido pela sociedade. Não se ter mantido o lema da Petrobras apagou o sentimento de conquista do coração e da mente dos brasileiros, tendo sua imagem destruída pela Lava a Jato; posteriormente, no governo Bolsonaro, apregoada como estorvo a se descartar.

Ocorre que a sociedade é dinâmica e novos anseios advêm justamente das conquistas pretéritas. À medida que a miséria recua, as demandas sociais se transformam, no que ficou conhecido como Pirâmide de Maslow. A política precisa deixar de representar apenas sobrevivência e tem que passar a significar mobilidade. Essa evolução conceitual altera o tipo de programa capaz de mobilizar a sociedade.

Benefícios indiretos ou de longo prazo perdem apelo perante entregas concretas e imediatas. O Pé-de-Meia é um exemplo dessa falta de concretude. Trata-se de uma política relevante, com potencial de impacto estrutural. No entanto, num horizonte não antecipável. O benefício é real, mas não se traduz em um objeto visível comparável à moradia.

Ao mesmo tempo, a sociedade que emergiu dos ciclos anteriores de inclusão já não se orienta apenas pela lógica da carência. Seus anseios passam a envolver estabilidade, qualidade de serviços, acesso a oportunidades e mobilidade mais sofisticada.

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta um problema que não é de ausência de políticas, mas de ausência de signos. Resultados objetivos podem se refletir em números, mas, sem um signo que os torne emblemáticos, não se convertem em percepção de conquista. Sem sentimento de conquista, não há capital político devidamente vacinado contra os ataques dos reacionários. Eles operam justamente no plano simbólico. Ao reorganizar a narrativa, podem transformar avanços em ameaças e inibir a capacidade de mobilização social.

A eficácia política de um governo depende da convergência entre três elementos: entrega concreta, percepção social e fixação da identidade. A ausência de qualquer um deles compromete o conjunto. Dar nome a um programa é necessário, mas não suficiente. É preciso que esse nome represente uma experiência concreta e alinhada aos anseios do povo num dado momento histórico.

Quando se dá essa convergência, a política deixa de ser apenas ato administrativo e entranha-se na memória coletiva e torna-se imune ao vírus do retrocesso.

O desafio contemporâneo, portanto, não é apenas governar, mas sintetizar. Não basta fazer; é preciso fazer de modo que a sociedade reconheça, nomeie e incorpore como conquista. É nesse ponto que se decide não apenas a permanência de políticas públicas, mas a própria direção do cabo de guerra da História.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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1 Comentário
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  1. Gaspar Alencar

    31 de março de 2026 10:09 am

    É isso Luiz, a vacina contra a estupidez! É preciso Saber como dizer isto nas escolas, na universidade, na rua, no mercado do peixe e a aos ” sem nocao”! E sair da retranca e partir para o ataque com passes inteligente! Com inteligencia é que combate os extremistas! Cipolla, neles!

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