10 de junho de 2026

O pragmatismo de Lula como método de vitória retorna em 2026, por Gustavo Tapioca

A trajetória de Lula na Presidência é uma aula de realismo político. Ele compreendeu que não se governa apenas com a "pureza" da esquerda.
Reprodução

Ministro Márcio França sugere Gilberto Kassab como vice na chapa de Lula para ampliar base eleitoral em 2026.
Deputado José Guimarães assume Secretaria de Relações Institucionais para fortalecer diálogo do governo com o Centrão.
Lula aposta em alianças pragmáticas para evitar fragmentação e garantir vitória contra adversários em 2026.

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O pragmatismo de Lula como método de vitória retorna em 2026

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por Gustavo Tapioca

Nesta terça-feira, 14 de abril de 2026, o cenário político brasileiro foi sacudido por dois movimentos que, embora ocorram em salas diferentes do Palácio do Planalto, convergem para a mesma estratégia de sobrevivência e poder.  

Primeiro, a sinalização do ministro Márcio França sobre a possibilidade de Gilberto Kassab (PSD) ocupar a vice-presidência na chapa de Lula em outubro. O argumento principal é o de que a inclusão de Kassab facilitaria a vitória de Lula, a governabilidade e a ampliação da base eleitoral e parlamentar.  

Atualmente, segundo o Brasil 247, “o PSD liderado por Kassab é a sigla com maior número de prefeitos em São Paulo, o que amplia seu peso nas articulações eleitorais. Nesse contexto, um dos cenários cogitados por aliados de Lula seria oferecer a Kassab a vaga de vice em uma eventual chapa presidencial.” 

Ponte entre governo e Centrão 

O segundo movimento na direção do Centrão foi a posse do deputado José Guimarães (PT-CE) na Secretaria de Relações Institucionais visto como um articulador político que dialoga bem com o Centrão, tem histórico de relações estáveis com seus líderes e é considerado confiável por esse grupo — características que explicam sua escolha para fortalecer a ponte entre o governo e esse bloco parlamentar.  

Para quem observa a política com o fígado, são movimentos que despertam dúvidas, sobretudo em relação à possibilidade proposta pelo ministro Marcio França para que Kassab figure na chapa como vice de Lula.  Para quem analisa a política com a mente, é a confirmação de uma genialidade tática que Lula lapida há décadas. 

Uma Retrospectiva Vitoriosa 

A trajetória de Lula na Presidência é uma aula de realismo político. Ele compreendeu, antes de todos, que no Brasil não se governa — e muitas vezes não se ganha — apenas com a “pureza” da esquerda. 

• 2002 O Pacto com o Capital  

     Para vencer o “medo” do mercado, Lula contratou o marqueteiro Duda Mendonça — egresso das campanhas de Paulo Maluf — e chocou o PT ao escolher o grande empresário José Alencar (PL) como seu vice. A “Carta ao Povo Brasileiro” foi o selo de um compromisso que garantiu a vitória 2022 e a reeleição em 2006. 

• 2010 A Consolidação da Base:  

     Para eleger Dilma Rousseff, Lula buscou João Santana (ex-sócio de Duda) e selou a aliança com o MDB de Michel Temer. Embora o desfecho de 2016 tenha sido o traumático golpe legislativo, a vitória de 2010 e a reeleição de 2014 confirmaram que o “presidencialismo de coalizão” era a única via para a estabilidade. 

• 2022 A Frente Ampla Democrática:  

     Diante do abismo autoritário de Jair Bolsonaro, Lula sacou seu movimento mais audacioso. Trouxe Geraldo Alckmin, seu antigo rival tucano, para o coração do projeto. O resultado foi a reconquista da democracia em uma eleição onde cada voto de centro foi decisivo. 

O “Choque de Realidade” na Militância 

Lula conhece sua base como ninguém. Em ocasiões anteriores, quando as alianças com a direita geraram ruído interno, o presidente não hesitou em confrontar os radicais com a crueza dos fatos, sugerindo que, se a alternativa da coalizão não lhes servia, o caminho seria o isolamento — ou o voto direto nos adversários. 

Diante do cenário de 2026, onde o Datafolha aponta um empate técnico perigoso e a ameaça real de um segundo turno contra o filho de Bolsonaro ou nomes como Caiado e Zema, Lula parece projetar o mesmo choque de realidade. 

 Ao ser provocado pelos setores mais ortodoxos de sua militância, ele terá a autoridade histórica para repetir o ultimato numa forma mais indignada:  

“Votem no filho de Bolsonaro, então. Deixem ele ganhar e entregar nossas terras raras e minerais estratégicos aos Estados Unidos em troca de um tapinha nas costas de Trump”. É o uso do absurdo para forçar a união em torno do que é essencial: a soberania nacional. 

O Espelho do Mundo: Budapeste vs. Lima 

O balão de ensaio atual em torno de Kassab e a posse de Guimarães respondem a um cenário global dramático. Na Hungria, a queda recente de Viktor Orbán provou que a autocracia só é vencida quando uma frente ampla unifica forças fora da bolha progressista.  

A lição de Budapeste é clara: a pureza isolada é a antessala da derrota. Por outro lado, o Peru serve como o aviso do abismo.  Sem lideranças aglutinadoras, a política em Lima virou uma guerra de fígados expostos que consome o Estado. Lula olha para o Peru e vê o que não quer para o Brasil: a fragmentação que imobiliza a nação. 

A Coroação de uma Biografia Fantástica 

Afinal, a história do nordestino sertanejo que migrou ainda criança com a mãe e os irmãos, fugindo da fome para se transformar no maior líder de trabalhadores do país, não admite retrocessos.  

O homem que foi preso político da ditadura, fundou o Partido dos Trabalhadores e subiu a rampa do Planalto por três vezes, não pode coroar essa biografia fantástica com uma derrota para mediocridade do filho de Bolsonaro, Caiado ou Zema. 

A articulação com o centro e a vinda de figuras como Kassab, se vier a ser adotada por Lula – que ainda não se pronunciou a respeito nem foi provocado nesta terça, 14 – não são recuos, mas a blindagem necessária para que o legado de Lula permaneça intocado.

No xadrez do poder, ele provaria, mais uma vez, que está dez jogadas à frente, transformando adversários em aliados para garantir que o Brasil não volte para as mãos de quem o despreza. Lula joga pela biografia, joga pelo povo e, acima de tudo, joga para vencer. 

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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  1. MARTHA MASSAKO TANIZAKI

    15 de abril de 2026 12:24 pm

    Kassab como vice será a repetição do impeachment da Dilma!!! Pode não chegar ao impeachment mas o governo andará mais rápido para a centro direita pela força do kassab! A desvantagem do lula hoje está na comunicação com a população já que realizações não faltam. O.problema de comunicação será resolvido na campanha com Lula atuando mais junto à população!!! Não ao kassab na vice presidência!!

  2. Rui Ribeiro

    15 de abril de 2026 12:48 pm

    Mariliz Pereira Jorge publicou matéria nesse mesmo sentido:

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marilizpereirajorge/2026/04/a-eleicao-deste-ano-sera-pior.shtml

    O Raul Seixas e o Oscar Rasmussen escreveram em “Por quem os sinos dobram”:

    “Nunca se vence uma guerra lutando sozinho
    Você sabe que a gente precisa entrar em contato
    Com toda essa força contida e que vive guardada
    O eco de suas palavras não repercutem em nada

    É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro
    Evita o aperto de mão de um possivel aliado, é
    Convence as paredes do quarto, e dorme tranquilo
    Sabendo no fundo do peito que não era nada daquilo

    Coragem, coragem
    Se o que você quer é aquilo que pensa e faz
    Coragem, coragem
    Eu sei que você pode mais”

  3. Rui Ribeiro

    15 de abril de 2026 1:16 pm

    A ascensão do Flávio Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto se deve aos seus méritos ou a deméritos do governo?

    Resposta de outra IA:

    “Pelas pesquisas mais recentes de abril de 2026, Flávio Bolsonaro e Lula estão em empate técnico no 2º turno. Então a ascensão dele é real, mas ainda não é uma liderança consolidada.Aí vai o que os dados e analistas apontam como causas principais — mistura dos dois fatores:

    1. Méritos / Fatores pró-FlávioConsolidação como herdeiro político: Com Jair Bolsonaro inelegível, Flávio ocupou o espaço de principal nome da direita. Ele herdou a base conservadora já organizada.

    Reorganização do eleitorado conservador: Analistas apontam que ele conseguiu reduzir a diferença para Lula com crescimento consistente, interpretado como reorganização desse campo.

    Vitimização do clã Bolsonaro: Parte da leitura é que o discurso de perseguição política contra a família tem mobilizado eleitores.

    2. Deméritos / Fatores do governoAvaliação do governo Lula: Levantamentos da Quaest vinham mostrando queda gradual na aprovação, com equilíbrio entre aprovação e desaprovação. Em out/2024 a aprovação estava em 36% e desaprovação entre 43-55%.

    Cenário econômico: Lula chegou ao 2º ano do 3º mandato pressionado pelo custo de vida, mesmo com PIB crescendo 3,5% em 2024 e desemprego no menor nível histórico, 6,6%. A percepção de inflação acumulada de 26,93% no governo anterior ainda pesa na memória do eleitor.

    Polarização: O dado de empate reflete o grau de polarização que deve marcar 2026. Os dois lados têm rejeição alta, então parte do voto é “anti-outro”.

    Números atuais para contexto:Meio/Ideia, 3-7 abr 2026: Flávio 45,8% x Lula 45,5% – diferença de 0,3pp, dentro da margem de erro de 2,5pp.

    Outro cenário estimulado: Lula 40,4% x Flávio 37%.

    Quaest: apontava empate técnico em rodadas anteriores e nova pesquisa saiu esta semana para ver se a tendência se mantém.

    Conclusão: Não dá pra atribuir a uma coisa só. É uma combinação: Flávio conseguiu se firmar como o candidato único da direita bolsonarista, enquanto o governo Lula enfrenta desgaste natural de meio de mandato + polarização. Em eleição, crescimento de oposição quase sempre vem casado com queda de aprovação do governo.

    Faltam 6 meses pra eleição e muita coisa muda. O que vai definir é como os dois vão performar na campanha, economia e eventuais terceiros nomes como Caiado”.

  4. Mário Mendonça

    15 de abril de 2026 1:24 pm

    Tapioca, mas ele tem acordo com o picolé de chuchu, no qual já falou que ele continuará como você! Abração

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