A economia mundial atravessa uma transformação estrutural cujo destino ainda não está definido, onde o período de globalização relativamente previsível que marcou as últimas décadas chegou ao fim e deu lugar a uma transição permanente, marcada por conflitos geopolíticos, fragmentação econômica, disputa tecnológica e maior volatilidade.
A avaliação é do economista Mohamed A. El-Erian, em artigo publicado pelo Project Syndicate, no qual sustenta que a nova realidade é caracterizada justamente pela ausência de um ponto de chegada claro. Em vez de administrar choques para retornar ao equilíbrio anterior, governos e empresas precisam se adaptar a um sistema que está mudando suas próprias regras de funcionamento.
Um dos principais elementos dessa transformação é a incorporação da geopolítica ao funcionamento das cadeias econômicas, onde a lógica em torno da eficiência econômica passa a dar lugar à preocupação com segurança nacional e autonomia estratégica.
O resultado é a chamada “weaponização” das interdependências econômicas: relações comerciais que antes eram vistas como mecanismos de integração passam a ser utilizadas como instrumentos de pressão política. Dois exemplos evidentes envolvem o Estreito de Ormuz e o Mar Vermelho.
A disputa por minerais críticos também segue essa lógica. Países passaram a tratar o acesso a determinados insumos não apenas como uma questão comercial, mas como componente de segurança econômica e tecnológica.
O fim do “just in time”
Uma das consequências mais importantes dessa mudança aparece dentro das empresas: antes, o modelo conhecido como just in time funcionava enquanto as empresas podiam presumir que as rotas comerciais permaneceriam disponíveis e que fornecedores estrangeiros continuariam acessíveis.
Essa premissa tornou-se mais frágil. Diante de guerras, sanções, tarifas e interrupções logísticas, as empresas passaram a buscar redundâncias, passando a aderir ao chamado just in case: produzir ou armazenar mais para estar preparado para uma eventual crise.
A mudança aumenta a resiliência das empresas, mas também eleva seus custos. Esse é um dos paradoxos da nova economia global: mecanismos que tornam o sistema mais seguro podem, simultaneamente, torná-lo menos eficiente e mais caro.
El-Erian também chama atenção para a utilização crescente de tarifas, sanções, controles de investimentos e restrições à exportação como instrumentos de política econômica e de segurança nacional.
Medidas que anteriormente poderiam ser consideradas exceções passaram a ocupar lugar central nas relações entre grandes potências – o que altera inclusive as decisões de investimento.
A política econômica deixa, assim, de funcionar como um conjunto relativamente previsível de regras e passa a incorporar variáveis geopolíticas que podem mudar rapidamente. O mesmo ocorre com o sistema financeiro internacional.
A terceira transformação apontada por El-Erian vem da tecnologia: quem conseguir incorporar primeiro tecnologias capazes de elevar a produtividade poderá conquistar vantagens significativas sobre seus concorrentes. O problema é que ainda não está claro quando — ou em que dimensão — esses investimentos se transformarão em ganhos efetivos de produtividade e receita.
E todo esse investimento precisa ser financiado, e o aumento dos investimentos em tecnologia ocorre em um ambiente no qual governos e empresas também precisam lidar com níveis elevados de endividamento.
Na visão de El-Erian, empresas, governos e investidores precisam construir reservas maiores, diversificar fornecedores, manter alternativas de financiamento e evitar dependência excessiva de uma única trajetória econômica. Em outras palavras, a capacidade de reagir a diferentes cenários passa a ser tão importante quanto tentar prever qual deles ocorrerá.
O diagnóstico não significa necessariamente que a economia global caminhe para um colapso, mas o ponto é que o sistema que emergirá da atual transição ainda não está definido.
A antiga ordem econômica combinava globalização, regras multilaterais, integração produtiva e uma relativa previsibilidade das relações comerciais e financeiras. Esses elementos não desapareceram completamente, mas deixaram de operar como referências incontestáveis.
No lugar deles, cresce uma economia em que segurança nacional disputa espaço com eficiência econômica; governos utilizam instrumentos comerciais e financeiros como armas; empresas precisam pagar mais para garantir segurança em suas cadeias de suprimentos; e investidores financiam uma corrida tecnológica cujo retorno ainda é incerto.
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