20 de maio de 2026

A ficção da “terceira via”, por Daniel Costa

Insistência em apresentar Zema e Caiado como 3ª via revela mais sobre os que formulam esse discurso do que sobre os próprios personagens.
Os governadores de Goiás e Minas Gerais, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, em visita em 2023 à Expozebu, em Uberaba - Célio Messias/Governo do Estado de SP

Elio Gaspari destaca que a terceira via com Ronaldo Caiado e Romeu Zema é uma ficção conveniente, sem ruptura real.
Caiado e Zema mantêm vínculos com o bolsonarismo, sem representar uma alternativa clara à polarização atual.
A viabilidade da terceira via depende da estabilidade democrática e de uma reorganização profunda do sistema político.

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A ficção da “terceira via”

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por Daniel Costa

No último domingo, em sua coluna na Folha de S.Paulo, Elio Gaspari voltou a acenar com a velha miragem da terceira via, agora encarnada na dupla “Ro-Ro”, formada por Ronaldo Caiado e Romeu Zema. A essa altura, já não se trata de um exercício de análise da conjuntura política, mas de um exercício recorrente de autoengano feito por setores da imprensa dita hegemônica e do mercado financeiro. Assim, a terceira via, tal como vem sendo apresentada, não é uma alternativa real; é apenas uma ficção conveniente.

Não há problema algum em desejar uma saída para a polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro. Ao contrário: em uma democracia, é saudável que existam múltiplas candidaturas, projetos e visões de país. O problema começa quando se tenta vender como novidade aquilo que, na prática, é meramente uma variação do mesmo campo político que se pretende superar.

Caiado e Zema não são outsiders de um centro democrático em formação. São, na verdade, produtos acabados da extrema direita brasileira, com vínculos evidentes com o bolsonarismo. Caiado é um nome associado publicamente à direita reacionária desde a eleição de 1989, quando já representava a União Democrática Ruralista (UDR). Em 2022, apoiou Jair Bolsonaro desde o primeiro turno. Ainda que, em momentos da pandemia, tenha adotado medidas alinhadas às recomendações sanitárias, chegando a divergir pontualmente de Bolsonaro, sua trajetória recente aponta mais para a convergência do que para a ruptura.

Zema, por sua vez, foi eleito pelo Partido Novo com discurso de eficiência fiscal e de “bom gestor”, mas rapidamente percebeu que, em Minas Gerais, sobreviver politicamente sem o apoio de Bolsonaro seria difícil. Declarou voto no então presidente no segundo turno de 2022, dividindo o palanque com o ex capitão. Após a derrota de Bolsonaro, embora tenha repudiado de forma protocolar os atos golpistas de 8 de janeiro, manteve uma postura ambígua, preservando alianças com o bolsonarismo e evitando confrontar abertamente sua base mais radical.

Assim, fica claro que nenhum dos dois consumou uma ruptura clara e consistente com o bolsonarismo. Na realidade, são, em grande medida, expressões de um mesmo campo político, ainda que com estilos distintos. Não se trata aqui de demonizar alianças eleitorais; elas são parte do jogo democrático. O ponto é outro: sem ruptura, não há alternativa; há continuidade. A insistência em apresentá-los como terceira via revela mais sobre aqueles que formulam esse discurso do que sobre os próprios personagens. Trata-se de uma tentativa de reembalar a extrema direita sob uma estética mais palatável, sem enfrentar o núcleo duro que a sustenta: um eleitorado mobilizado por pautas antissistêmicas, por desconfiança institucional e, em muitos casos, por uma visão autoritária da política.

Outro nome frequentemente alçado ao panteão da terceira via, o gaúcho Eduardo Leite, também está longe de representar essa alternativa de forma inequívoca. Lembremos que, em 2022, disputou a pré-candidatura do PSDB à presidência e, após a derrota, manteve posição ambígua no decorrer do pleito. Sua trajetória revela aproximações táticas com setores da direita e dificuldade em se afirmar como liderança de um projeto nacional consistente.

A responsabilidade por esse vazio também recai sobre partidos que preferiram preservar alianças ambíguas a se posicionar com nitidez. O MDB, que poderia ter consolidado Simone Tebet como uma liderança nacional de centro, optou por uma estratégia fragmentada, com coligações diversas nos estados: Norte e Nordeste marcharam ao lado de Lula, enquanto Sul, Sudeste e Centro-Oeste caminharam ao lado do bolsonarismo. Como exemplo, basta lembrar a triste figura do prefeito Ricardo Nunes, político com uma trajetória abaixo dos níveis mais aceitáveis de mediocridade, mas que, para garantir sobrevida política, abraçou a pauta bolsonarista. O PSDB, capitaneado por Aécio Neves, e o Cidadania, sob o comando de Roberto Freire, aprofundaram seu isolamento em meio a divisões internas e ao ressentimento histórico da dupla em relação ao PT. Ambos barraram tentativas de construção de uma frente democrática mais ampla e vêm assistindo ao próprio encolhimento. O tucanato, que um dia foi a grande referência da social democracia brasileira, hoje sobrevive mais de sua memória do que de sua capacidade de renovação, e o Cidadania, em meio a uma crise interna sem precedentes, também se vê às portas de uma implosão.

Diante desse cenário, a terceira via tão alardeada pela grande imprensa e por setores do mercado, quando não vista como pura ficção, dificilmente se viabilizará no curto prazo. Sua construção exigirá uma reorganização mais profunda do sistema político, tornando-se possivelmente factível para a disputa de 2030.

Mas aqui reside o ponto mais incômodo dessa discussão. A consolidação de uma alternativa real ao lulismo e ao bolsonarismo não depende apenas de nomes ou partidos, mas das condições institucionais em que essa alternativa busca emergir. E essas condições não são neutras. Em cenários de alta polarização e ataques constantes à democracia, o espaço para projetos intermediários tende a desaparecer, com a política se reorganizando em torno de clivagens mais duras e empurrando o eleitorado para escolhas binárias, como se viu em 2018 e também, em grande medida, em 2022.

Daí o paradoxo que muitos se recusam a admitir: o desenvolvimento dessa terceira via está estreitamente ligado à preservação de um ambiente democrático estável. Em contextos de erosão institucional, alternativas moderadas tendem a definhar. Já em cenários de normalidade democrática, com regras respeitadas, abre-se espaço para o surgimento de novas lideranças.

A terceira via que Gaspari e tantos outros anunciam para 2026, portanto, não passa de uma antecipação retórica de algo que ainda não encontrou base social nem expressão política consistente. Caiado, Zema e Leite orbitam, em maior ou menor grau, o mesmo campo que dizem transcender. Ou seja, não há ruptura, não há projeto, não há novidade.

Se uma alternativa vier a existir, ela não nascerá de arranjos improvisados nem de candidaturas recicladas. Surgirá, se surgir, de um processo de reorganização do sistema político. Até lá, convém abandonar as ilusões confortáveis. A terceira via não está logo ali, esperando para ser descoberta. No Brasil de hoje, ela ainda é apenas uma ideia sem corpo, sem base e sem coragem de se afirmar como tal.

Daniel Costa é historiador, jornalista e pesquisador. Estuda temas como a corrupção no século XVIII e a cultura popular, com destaque para o samba paulista.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Daniel Costa

Daniel Costa é graduado em História pela Unifesp, instituição onde atualmente desenvolve pesquisa de mestrado. Ainda integra o G.R.R.C Kolombolo Diá Piratininga onde além de compositor, desenvolve pesquisas relacionadas a História do samba de São Paulo e temas ligados a cultura popular participando das atividades e organização do centro de documentação da entidade (CedocK – Centro de Documentação e Memória – José e Deolinda Madre). Possui especializações na área de museologia (IBRAM), arquivologia (Arquivo Nacional), Educação Patrimonial (IPHAN) e História Oral (FGV/CPDOC).

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