21 de maio de 2026

Definitivamente, no Brasil, o ano não começa após o carnaval, por Daniel Costa

Como muitos sabem, colocar um carnaval na rua é uma tarefa que exige enorme trabalho e planejamento. É trabalho para um ano inteiro.
Vai-Vai em foto de Paulo Pinto - Agência Brasil

Jornalistas afirmam que o Brasil só começa a funcionar após o carnaval, reforçando um preconceito cultural.
Carnaval envolve trabalho intenso durante meses, com ensaios, organização e produção de escolas de samba.
Trabalhadores do carnaval mantêm atividade contínua, mostrando que o país não para durante a festa.

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Definitivamente, no Brasil, o ano não começa após o carnaval

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por Daniel Costa

Quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026. Ao ligar a televisão pela manhã em busca de informações sobre o trânsito e as melhores rotas para sair de casa, deparei-me com repórteres falando de forma efusiva: “enfim começou o ano”, “feliz ano novo” e outras frases do tipo, que buscavam reafirmar o velho mantra de que o Brasil só passaria a funcionar de fato após o carnaval.

Tais expressões, quando veiculadas no telejornal de maior audiência nas manhãs em São Paulo, sobretudo se considerarmos que a emissora em questão monopoliza parte das transmissões do festejo e, ainda, que alguns dos “coleguinhas” que emitiram tais opiniões já cobriram os próprios desfiles, escancaram não apenas a tacanhice de certas interpretações, mas também o preconceito persistente com que muitos ainda enxergam o carnaval.

Frases como essas, que para alguns parecem mera brincadeira, para quem vive o cotidiano do carnaval soam como uma verdadeira afronta. Não entrarei sequer na discussão acerca dos valores que movimentam a economia de cidades como Rio de Janeiro, Salvador, Recife e a própria São Paulo. Mesmo cidades fora do circuito principal de festas veem suas economias ganharem fôlego nesses dias, nos quais alguns optam pela folia e outros pelo descanso.

Como muitos sabem, colocar um carnaval na rua é uma tarefa que exige enorme trabalho e planejamento. Tomando como exemplo o universo das escolas de samba, é possível afirmar que mal há descanso, pois, após a comemoração ou a frustração que se seguem à apuração, quase que imediatamente já se começa a pensar no próximo desfile. Trata-se de um ciclo que envolve escolha de enredo, definição de equipe, captação de recursos e organização logística, tudo isso muito antes de qualquer folião chegar à avenida.

No início do segundo semestre, com o começo dos ensaios e das disputas de samba, aquilo que já demandava tempo do componente passa então a ocupar ainda mais o seu cotidiano. Com o samba escolhido, intensificam-se os ensaios e multiplicam-se as reuniões, os ajustes de harmonia e evolução, além dos preparos e cuidados com alegorias e adereços. Nesse período, nós, componentes, passamos também a colaborar no barracão, ajustando fantasias e auxiliando na preparação do desfile, sem contar os ensaios técnicos e as visitas a outras agremiações, práticas fundamentais para a construção do espetáculo.

Por fim, não podemos esquecer dos próprios trabalhadores envolvidos na cadeia produtiva do carnaval. São homens e mulheres que, no período em que, segundo os “coleguinhas”, o Brasil estaria imerso em um longo momento de descanso ou festa, permanecem quase dia e noite nos barracões e ateliês, muitas vezes longe da própria família, concentrados em levar um espetáculo de excelência para a avenida. Costureiras, ferreiros, aderecistas, escultores, músicos, coreógrafos, técnicos de som e luz e tantos outros profissionais sustentam, com seu trabalho, uma engrenagem complexa que movimenta, além da nossa cultura, a memória e a identidade de cada uma das agremiações.

Dizer, portanto, que o país só começa a funcionar depois do carnaval não é apenas uma simplificação equivocada. No contexto do conjunto da sociedade brasileira, essa afirmação desconsidera que vivemos um período marcado pela precariedade no mundo do trabalho, no qual boa parte dos trabalhadores autônomos ou não enfrenta, além da instabilidade, jornadas extenuantes. Ao olhar de forma restrita para aqueles que vivem e constroem o carnaval, desconsidera-se também todo um universo de trabalho e dedicação que se estende ao longo de meses.

O carnaval, portanto, não é uma interrupção da vida nacional, como alguns defendem. Mas uma expressão de sua vitalidade, um campo no qual economia, cultura e sociabilidade se entrelaçam e revelam a força de diversas comunidades que resistem, ano após ano, às interpretações apressadas e aos preconceitos ainda tão presentes em parte da nossa sociedade. E nós que vivemos dia e noite esse universo pedimos licença para descansar por alguns dias, mas já já voltamos, pois o próximo carnaval está logo ali.

Daniel Costa é historiador, jornalista, compositor e integrante do G.R.R.C. Kolombolo diá Piratininga

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Daniel Costa

Daniel Costa é graduado em História pela Unifesp, instituição onde atualmente desenvolve pesquisa de mestrado. Ainda integra o G.R.R.C Kolombolo Diá Piratininga onde além de compositor, desenvolve pesquisas relacionadas a História do samba de São Paulo e temas ligados a cultura popular participando das atividades e organização do centro de documentação da entidade (CedocK – Centro de Documentação e Memória – José e Deolinda Madre). Possui especializações na área de museologia (IBRAM), arquivologia (Arquivo Nacional), Educação Patrimonial (IPHAN) e História Oral (FGV/CPDOC).

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