10 de junho de 2026

O discurso anticorrupção como espetáculo, por Daniel Costa

A indignação é estimulada, mas a reflexão séria é interditada, com o espetáculo substituindo análise e opinião se disfarçando de informação.
O Grito de Edvard Munch

Jornalista acusa ministro Alexandre de Moraes de pressionar presidente do BC no caso Banco Master, reacendendo discurso lava-jatista.
Imprensa manipula tema da corrupção, apresentando-o como desvio individual e reduzindo debate a espetáculo e seletividade moral.
Discurso anticorrupção é usado politicamente, despolitizando o debate e ocultando a complexidade histórica do problema no Brasil.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

O discurso anticorrupção como espetáculo e a tentativa de ressurreição do lava-jatismo

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por Daniel Costa

Quando pensávamos que finalmente o ano estava chegando ao fim e que teríamos alguns dias de paz e descanso, algo realmente difícil quando se pensa no Brasil, as manchetes dos principais veículos de imprensa foram tomadas por uma fofoca trazida por uma jornalista de respeitável credibilidade. De acordo com a profissional, que parece ter decidido ressuscitar a célebre coluna de mexericos da Candinha, o juiz Alexandre de Moraes teria pressionado o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, no caso do Banco Master. Não resumirei o caso, pois a novela está no ar para quem quiser acompanhar.

O que me despertou a atenção, além, é claro, de a jornalista ter rasgado os princípios que regem a profissão, foi a tentativa de retomada do discurso lava-jatista, inclusive com seus métodos de um suposto combate à corrupção. Tal expediente não é novidade. Sempre que o calendário eleitoral se aproxima, a corrupção retorna ao centro do noticiário como um fantasma recorrente. Manchetes se multiplicam, personagens são eleitos vilões da vez e o discurso moralizante volta a ocupar o espaço público com força total. Desta vez, o escolhido foi exatamente o ministro Alexandre de Moraes.

Não se trata de negar a existência da corrupção nem de minimizar seus efeitos sobre a vida social. O problema reside na forma como a imprensa brasileira trata o tema e, sobretudo, em como o manipula.

A mídia, aqui entendida tanto como a imprensa hegemônica quanto como setores da chamada imprensa alternativa, que não titubearam em tirar do armário vestes lacerdistas, não apenas noticia a corrupção: ela também organiza o sentido do que deve ser entendido como corrupção. Ao fazê-lo, opera uma redução perigosa. Um fenômeno histórico, estrutural e profundamente ligado à formação do Estado brasileiro é apresentado como um desvio individual, uma falha de caráter ou uma patologia restrita a determinados grupos políticos. Assim, a complexidade cede lugar ao espetáculo.

Essa operação não é neutra. Como já apontava o jornalista Perseu Abramo, a imprensa cria uma realidade artificial que se sobrepõe à realidade vivida. No caso da corrupção, isso se traduz em padrões claros de manipulação: ocultam-se determinados fatos, fragmentam-se processos históricos, privilegiam-se versões convenientes e substitui-se informação por opinião vestida de objetividade. O leitor é conduzido a acreditar que compreende o problema quando, na verdade, consome apenas uma versão cuidadosamente editada.

O resultado mais visível desse processo é a seletividade moral. Há corrupções que indignam e corrupções que passam quase despercebidas. Há governos permanentemente associados à ideia de desvio e outros sistematicamente blindados, mesmo diante de escândalos evidentes. Desse modo, a corrupção deixa de ser um problema do sistema político-econômico e passa a ser um rótulo aplicado conforme a conveniência editorial e os interesses em jogo.

Nesse contexto, o discurso anticorrupção funciona como instrumento político, e não como compromisso ético com a democracia. Não se pode esquecer que, ao longo da história recente, esse discurso foi mobilizado para justificar golpes, deslegitimar projetos políticos, corroer instituições e alimentar soluções autoritárias. A Operação Lava Jato talvez seja o exemplo mais acabado desse processo. Elevada à condição de cruzada moral, contou com o apoio entusiasmado da grande imprensa, que abandonou o papel crítico e assumiu a função de promotora de uma narrativa punitivista, mesmo diante de abusos evidentes.

Outro aspecto perverso dessa cobertura é a despolitização do debate público. Ao tratar a corrupção apenas como uma questão moral, a imprensa afasta a sociedade de perguntas essenciais: como se estruturam as relações entre Estado e mercado? Quem se beneficia da fragilidade institucional? Quais práticas historicamente toleradas continuam operando sob novas roupagens? Sem essas questões, o debate se empobrece e o senso comum se fortalece, exatamente o que acompanhamos na última semana.

A história mostra que a corrupção nunca foi uma exceção em nossa formação social. No período colonial, práticas hoje consideradas ilícitas faziam parte do funcionamento cotidiano da administração, em um contexto marcado pela confusão entre o público e o privado. Ignorar essa dimensão histórica, como frequentemente faz o discurso midiático, não é apenas um erro, mas uma forma de manipulação. Afinal, ao apagar continuidades e permanências, constrói-se a ilusão de que o problema surgiu em determinado governo ou com determinado partido.

Ao final, a imprensa que se apresenta como guardiã da moral pública contribui para um paradoxo inquietante: quanto mais se fala em corrupção, menos se compreende o fenômeno. A indignação é estimulada, mas a reflexão séria é interditada, com o espetáculo substituindo a análise e a opinião se disfarçando de informação. Nesse contexto, vale também observar o comportamento de alguns parlamentares de esquerda que não resistem a fazer coro ao discurso lacerdista. Em meio ao burburinho causado pela jornalista, deputados do PSOL resolveram apresentar na Câmara um projeto de lei, o PL 6540/2025, que cria um Código de Conduta para os ministros do Supremo Tribunal Federal. Nada mais oportuno, ou melhor, oportunista para o momento.

Se a corrupção deve ser enfrentada de maneira séria, isso exige mais do que manchetes ruidosas e julgamentos sumários. Exige reconhecer que o discurso anticorrupção, quando manipulado, pode servir menos à ética pública e mais à manutenção de velhas hierarquias de poder. Exige, sobretudo, uma imprensa disposta a abandonar o conforto do moralismo seletivo para encarar a complexidade histórica e política do país que afirma informar.

Daniel Costa é historiador, jornalista e pesquisador. Estuda temas como a corrupção no século XVIII e a cultura popular, com destaque para o samba paulista.

Para saber mais:

Daniel Costa. Corrupção, corruptores e contrabando: uma discussão historiográfica sobre práticas ilícitas na América Portuguesa (C. Século XVIII). Disponível em: https://doi.org/10.31668/revistaueg.v11i2.12780

Daniel Costa. Corrupção e populismo. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/corrupcao-e-populismo/

Perseu Abramo. Padrões de manipulação na grande imprensa. 2ª edição. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2016.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Daniel Costa

Daniel Costa é graduado em História pela Unifesp, instituição onde atualmente desenvolve pesquisa de mestrado. Ainda integra o G.R.R.C Kolombolo Diá Piratininga onde além de compositor, desenvolve pesquisas relacionadas a História do samba de São Paulo e temas ligados a cultura popular participando das atividades e organização do centro de documentação da entidade (CedocK – Centro de Documentação e Memória – José e Deolinda Madre). Possui especializações na área de museologia (IBRAM), arquivologia (Arquivo Nacional), Educação Patrimonial (IPHAN) e História Oral (FGV/CPDOC).

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