O conflito no Golfo Pérsico, marcado por um cessar-fogo prorrogado unilateralmente pelo presidente americano Donald Trump, mas ainda longe de uma resolução, continua produzindo efeitos devastadores sobre a economia regional e global. A conclusão é de especialistas reunidos pelo Observatório de Geopolítica, exibido pela TV GGN na última sexta-feira (24), que analisaram os vencedores e perdedores do conflito sob perspectivas militares, econômicas e diplomáticas.
Participaram do debate o geógrafo e pesquisador de Ásia Ocidental Edilson Adão; a analista de relações internacionais Bárbara Mendes, pesquisadora do Grupo NUP e da USP; Márcio Sampaio, mestre em ciências da comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo; e o cientista político e professor de relações internacionais José Maria de Souza Júnior.
Perdedores
Para Edilson Adão, a resposta sobre quem perde com a guerra é direta: todos os países do Golfo Pérsico, sem exceção. A região concentra 50% das reservas mundiais de petróleo e suas economias dependem fundamentalmente dessa commodity, o que torna o impacto do conflito estrutural, não conjuntural.
O barril de petróleo, que habitualmente oscila entre 60 e 65 dólares, chegou a 105 dólares, uma alta que comprime as economias locais e pressiona o mercado global. O Kuwait, aliado histórico dos Estados Unidos, deve registrar uma queda de 14% no PIB. A Arábia Saudita projeta retração de 5%. O Catar também enfrenta recessão severa.
A única exceção parcial é a Aramco, a petrolífera estatal saudita, que pode se beneficiar da alta dos preços. Isso porque a Arábia Saudita tem uma alternativa de escoamento pelo Mar Vermelho, via Estreito de Babel Mandeb — o que a torna menos dependente do bloqueio no Estreito de Hormuz do que seus vizinhos.
Quanto ao Irã, o pesquisador foi enfático: é o maior derrotado do conflito. O país teve milhares de alvos atacados pela coalizão americana e israelense, incluindo infraestrutura civil, e enfrenta um cenário de destruição ampla, ainda que tenha demonstrado resiliência ao não sucumbir em poucas semanas ao poderio militar dos Estados Unidos.
Ásia Oriental
Bárbara Mendes chamou atenção para um aspecto frequentemente subestimado no debate: o impacto do conflito sobre os países da Ásia Oriental, que são os principais compradores do petróleo produzido no Golfo.
Com o bloqueio do Estreito de Ormuz, primeiro imposto pelo Irã, depois pela Marinha americana, o fluxo de petroleiros foi drasticamente reduzido. Japão, Coreia do Sul, Taiwan e China já começam a recorrer a estoques emergenciais para reequilibrar o abastecimento.
Mas o problema vai além do petróleo. A pesquisadora destacou que o leste asiático concentra o polo tecnológico mundial, chips, carros elétricos, inteligência artificial, e que toda essa cadeia produtiva depende de insumos que passam pelo Estreito de Ormuz. O conflito, portanto, ameaça não apenas o abastecimento energético, mas a produção tecnológica global.
O caso do Japão é particularmente crítico. O país tem o petróleo como principal fonte de energia primária. A energia nuclear, apesar de ainda presente, enfrenta resistência popular desde o desastre de Fukushima. Além disso, o Japão se vê em uma posição diplomaticamente delicada: quando Trump pediu apoio dos aliados para reabertura do Estreito de Ormuz, Tóquio invocou o artigo 9 de sua Constituição, que restringe a participação do país em operações militares externas não relacionadas à sua própria defesa territorial. Isso estreitou o espaço de negociação japonês com Washington.
A Coreia do Sul enfrenta problema semelhante. Durante o conflito, os Estados Unidos retiraram as baterias antiaéreas THAAD instaladas em solo sul-coreano, equipamentos que haviam gerado tensão com a China anos atrás, quando Seul aceitou recebê-las. A retirada agora frustra os sul-coreanos e aprofunda a desconfiança em relação à confiabilidade americana como parceiro de segurança.
Rússia ganha
Um dos pontos mais contundentes do debate foi levantado por Edilson Adão: enquanto os aliados dos Estados Unidos no Golfo e na Ásia sofrem, quem mais se beneficia do conflito é a Rússia.
Como grande produtora de petróleo, a Rússia colhe os frutos da alta dos preços, e usa essa receita extra para financiar sua guerra na Ucrânia, inclusive na compra de armamentos. O paradoxo é que parte do equipamento militar que seria destinado à Ucrânia foi deslocado para o teatro de operações do Golfo, enfraquecendo ainda mais Kiev.
“Os Estados Unidos atingem seus aliados e fortalecem seus adversários”, resumiu Adão. Enquanto isso, a China, que aposta há 30 anos em uma estratégia de desenvolvimento pacífico e investimento em infraestrutura, emerge como o “adulto da sala” na percepção dos países do Golfo, cada vez mais simpáticos a Pequim diante do comportamento errático de Washington.
Gestão da crise
O cientista político José Maria de Souza Júnior trouxe ao debate uma dimensão que a imprensa americana vem investigando com crescente atenção: a suspeita de que pessoas bem relacionadas com a Casa Branca estariam usando informações privilegiadas para lucrar nos mercados financeiros com os anúncios de Trump sobre o conflito.
O mecanismo é simples na teoria: cada anúncio presidencial, um cessar-fogo declarado, uma retomada das hostilidades, uma prorrogação, provoca oscilações imediatas nos contratos futuros de petróleo e nos índices de bolsas de valores ao redor do mundo. Quem sabe com antecedência o que será anunciado pode posicionar suas apostas e lucrar com a variação.
Segundo Souza Júnior, há evidências de que atores não identificados entraram nesses mercados pouco antes de anúncios decisivos do governo Trump, acumulando lucros de milhões de dólares. O mesmo padrão teria sido observado em mercados de apostas. A imprensa americana, e parte da internacional, já repercute essas suspeitas, ainda que sem confirmação oficial.
Para o cientista político, o episódio representa uma exacerbação de uma lógica conhecida: “governar para si e para os seus”. O acesso a informações privilegiadas, nesse contexto, não seria apenas uma falha de controle, mas possivelmente um componente da própria gestão da crise.
Ameaça de fome global
Um relatório da FAO, agência da ONU para agricultura e alimentação, publicado durante o conflito reforça a dimensão humanitária da crise. Um terço dos fertilizantes consumidos no mundo passava pelo Estreito de Ormuz antes do conflito.
Com o bloqueio, o abastecimento agrícola de vários países do Sul Global foi severamente comprometido, elevando o risco de escassez alimentar em múltiplas regiões.
A conclusão dos especialistas é de que o conflito no Golfo representa um erro estratégico de proporções históricas para os Estados Unidos: ao atacar o Irã e desestabilizar a região, Washington prejudicou seus próprios aliados, fortaleceu a Rússia, abriu espaço para a China e corroeu décadas de confiança construídas com parceiros no Golfo e na Ásia. E o fim do conflito, e da crise que ele gerou, ainda não tem prazo definido.
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