3 de junho de 2026

Ary Jacomo Bisaglia: Bastidores do Poder, Finanças e o Copacabana Palace

Ele não era apenas um técnico; era o produto de uma formação humanista e cosmopolita que o destacava na incipiente burocracia brasileira.
iStockphoto - Reprodução

Ary Jacomo Bisaglia, técnico e maestro, atuou com JK e integrou equipe de Sebastião Paes de Almeida no Banco do Brasil.
Bisaglia morou no Copacabana Palace, onde recebeu banqueiros e denunciou riscos no transporte de dinheiro do governo JK.
Descobriu corrupção no Ministério da Fazenda, levando JK a demitir José Maria Alckmin e substituí-lo por Lucas Lopes.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Em um dos seminários realizados no âmbito do Projeto Brasil, sobre Cultura, um dos presentes veio falar comigo no final. Era Ary Jacomo Bisaglia. Disse-me que era maestro, que trabalhara com JK, que foi a pessoa que convenceu o presidente a instituir a Ordem dos Músicos do Brasil. Achei parolice.

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Depois, comentando com o então governador Geraldo Alckmin, soube que Bisaglia era uma espécie de conselheiro, acompanhando-o nas viagens pelo interior.

Curioso, resolvi marcar uma conversa gravada com ele. Foi uma entrevista fantástica, em que Bisaglia me contou uma vida tão rica, com participação em episódios relevantes do governo JK, que julguei ter encontrado um contato de causos.

Tempos depois, ele faleceu e recebi dos filhos um arquivo com inúmeros recortes de jornal e gravações que comprovavam o que contara.

Aqui vai um resumo das conversas que tivemos.

A história do Brasil desenvolvimentista de meados do século XX não se escreveu apenas em atas oficiais, mas em rascunhos sobre mesas de cristal e em conversas ao luar nas sacadas do Palácio de Laranjeiras. Lembro-me de uma terça-feira, ao final do governo Juscelino Kubitschek, em que a alvorada foi rompida por uma serenata matinal. Eleazar de Carvalho conduzia a Sinfônica Brasileira e o coro de Cleofe Person de Mattos sob a janela do presidente. Foi fundadora, em 1941, do Coro Feminino Pró-Música, que deu origem à Associação de Canto Coral — instituição que dirigiu por décadas.

JK, em mangas de camisa e com o sorriso que era sua marca registrada, regia o coro invisível da modernidade brasileira. No centro desse turbilhão entre a técnica e a boemia, circulava Ary Jacomo Bisaglia, um tecnocrata de elite cuja trajetória desvela as engrenagens e as fragilidades de uma era de ouro.

1. A Formação Intelectual e o Início da Trajetória Profissional

Ary Jacomo Bisaglia não era apenas um técnico; era o produto de uma formação humanista e cosmopolita que o destacava na incipiente burocracia brasileira. Sua visão de gestão foi lapidada na Universidade Católica de Grenoble, onde, sob a tutela do dominicano Padre Lebret, absorveu a filosofia de Jacques Maritain. O tomismo atualizado para o século XX forneceu-lhe a base para um pragmatismo ético que se tornaria seu maior diferencial.

Ao retornar ao Brasil, Bisaglia trouxe consigo o domínio fluente do francês e uma sofisticação cultural que lhe permitiu transitar entre a academia de comércio e o alto escalão industrial. Sua entrada na Companhia de Vidros do Brasil (CVB) colocou-o na órbita de Sebastião Paes de Almeida. Ali, a eficiência técnica de Bisaglia encontrou um terreno fértil em um Brasil que buscava a modernização administrativa, unindo o rigor técnico europeu à vivacidade do ambiente de negócios paulista.

2. O Império de Sebastião Paes de Almeida: A Gestão de um Centralizador

Sebastião Paes de Almeida era o epítome do poder pessoalista da época. Quando assumiu a Secretaria da Fazenda de São Paulo para sanar o caos deixado por Adhemar de Barros, ele não trabalhava com arquivos tradicionais. Sua sala na Rio Branco era o retrato do minimalismo tecnocrata: mesas de cristal límpido, sem estantes, sem uma única folha de papel. Sebastião guardava o Estado inteiro na cabeça.

A ascensão de Bisaglia nesse império deveu-se à tradição técnica de sua família. Seu pai, através da Revisora Nacional, havia trazido da Suíça o sistema Ruff, um método de racionalização de empresas baseado em cartões perfurados. Foi essa engenharia que modernizou o império de Sebastião. Bisaglia, junto a Juvenal Aires e José Henrique Turner, enfrentou o “rombo fiscal” dos títulos do 4º Centenário — papéis fraudados que inundavam o mercado.

O risco dessa centralização absoluta, contudo, revelou-se dramático: quando Sebastião sofreu um infarto e passou seis meses convalescendo na Ilha Porchat, descobriu-se um enorme passivo fiscal. Sem a “cabeça” do mestre, o sistema ruiu, demonstrando que a modernização técnica da era Ruff ainda era refém do personalismo dos seus comandantes.

A ida para o Rio e para o governo JK

Ary Jacomo Bisaglia foi para o Rio de Janeiro para acompanhar seu chefe, Sebastião Paes de Almeida, em sua nomeação para atuar no Banco do Brasil.

Após Sebastião ter financiado a campanha presidencial de Juscelino Kubitschek (JK) no Estado de São Paulo, o novo presidente o levou para compor o governo federal no Rio de Janeiro (que era a capital do país e sede do banco na época). Como Bisaglia fazia parte da equipe técnica de confiança de Sebastião desde a Secretaria da Fazenda de São Paulo, ele integrou o grupo que o acompanhou nessa mudança para o Banco do Brasil.

Sobre a sua chegada e instalação no Rio de Janeiro, os relatos destacam o seu trajeto de hospedagens:

  • Centro da cidade (Hotel Serrador): Nas primeiras semanas, Bisaglia ficou hospedado no Hotel Serrador, no centro do Rio. Embora preferisse ir para a Zona Sul por gostar de praia (já que havia sido criado no Rio), ele ficou no centro por ser mais prático para o trabalho e para ficar perto do restante da equipe técnica que havia viajado com eles.
  • Zona Sul (Hotel Excelsior): Depois, ele se transferiu para o hotel Excelsior, em Copacabana, buscando ficar próximo à praia. Foi lá que ele exigiu pagar a própria conta após o hotel tentar oferecer a estadia como cortesia, justificando que não queria colocar seu emprego público em risco por aceitar vantagens.
  • Copacabana Palace: Por fim, durante um coquetel, ele encontrou Otavinho Guinle (filho do dono do Copacabana Palace) e comentou que estava procurando um apartamento para morar. Foi nesse momento que Otavinho lhe ofereceu o acordo para morar no luxuoso anexo do hotel pagando apenas metade das despesas.

3. Diplomacia no Copacabana Palace e a Precariedade da Riqueza

Com a eleição de JK, o centro de gravidade deslocou-se para o Rio de Janeiro. Bisaglia instalou-se no Anexo do Copacabana Palace, uma escolha estratégica. Morar no hotel, com um desconto de 50% negociado com Otavinho Guinle, era mais barato e eficiente do que manter uma estrutura privada. O Anexo era um prolongamento do Banco do Brasil: ali, Bisaglia recebia banqueiros internacionais, como o espanhol Martin Fierro, suavizando as arestas do gabinete com um uísque à beira da piscina.

A dualidade do Brasil desenvolvimentista era gritante. Enquanto Bisaglia desfrutava da sofisticação do hotel, a logística do Estado era de uma precariedade assustadora. Ele relata o transporte de 50 milhões de cruzeiros — o reforço de caixa para evitar uma corrida bancária em São Paulo — em caixas de pinho cru com alças de corda. O numerário viajava em peruas Ford verde garrafa, sem identificação ou chapa branca para não atrair suspeitas. O dinheiro era embarcado em aviões comerciais da VASP, onde funcionários guardavam a carga na pista até a decolagem. Bisaglia, aterrorizado com a ideia do avião cair e o dinheiro ser considerado “carga à deriva” sem dono legal, foi quem alertou para o risco, forçando a intervenção da FAB para garantir a segurança da liquidez nacional.

Nesse cenário, o piano Steinway da Sociedade de Cultura Artística, guardado na boate Meia Noite, tornou-se o refúgio de Bisaglia. Sócio da entidade, ele assumiu a guarda do instrumento — que vinha sendo danificado pelo transporte descuidado — e detinha a chave da gerência. Ao cair da tarde, ele retirava a capa do piano e transformava a boate vazia em um salão de elite, onde a técnica financeira e a sensibilidade artística se fundiam sob a luz azul do “Copa”.

4. Crônica de uma Época: A Família Soares no Apartamento Nº 1

O ecossistema do Copacabana Palace abrigava dinastias em ascensão e em queda. Nenhuma trajetória foi tão emblemática para Bisaglia quanto a de José Soares, pai de Jô Soares. Ocupando o majestoso apartamento nº 1, com vista para a piscina, José era um corretor de títulos que operava com uma infraestrutura frenética: 40 telefones instalados para vender “até fumaça” na Avenida Rio Branco.

Sempre de terno branco e charuto, José Soares era o retrato da ostentação que antecedia o abismo. A volatilidade do mercado e o fim dos privilégios do câmbio levaram-no à quebra. Jô Soares, recém-chegado da Suíça aos 18 anos, era parte da “rodinha” ao redor do piano de Bisaglia, muito antes de se tornar o ícone da televisão brasileira. O contraste era melancólico: enquanto o tio de Jô, Togo Renan Soares, o “Canela”, consagrava-se como mestre do basquete, a família de José Soares via seu império telefônico silenciar, deixando para trás dívidas de meses no hotel antes do exílio em Teresópolis.

5. A Queda de José Maria Alckmin e o Embate de Estilos

A tensão entre a técnica e o compadrio atingiu seu ápice no Ministério da Fazenda. O “smoking gun” da corrupção da era Alckmin foi descoberto por Bisaglia de forma quase acidental. Seu primo, um importador libanês na Avenida Atlântica, vangloriou-se de ter liberado seu Cadillac — cuja guia de importação Bisaglia negara por ser ilegal — mediante uma assinatura de Leonardo Alckmin, filho e chefe de gabinete do ministro.

Leonardo utilizava o dólar oficial (18 cruzeiros) para importar supérfluos, como Cadillacs e uísque, que eram revendidos pelo valor do dólar paralelo (27 cruzeiros). O pátio da Praça Mauá estava abarrotado de veículos de luxo apreendidos que eram liberados na calada da noite por guias assinadas no Ministério. Sebastião Paes de Almeida, implacável na técnica, levou a prova documental a JK.

O desfecho ocorreu no Palácio de Laranjeiras, presenciado apenas por Penido. Juscelino, com a dor de quem demite um amigo de infância, foi direto: “Zé Maria, não dá mais. Leonardo está fazendo besteira há meses e eu não posso carregar esse problema”. Alckmin ainda tentou apelar para a amizade, ao que JK respondeu: “A amizade continua, mas no Ministério não dá mais”.

A sucessão trouxe Lucas Lopes, o técnico exausto que carregava o peso do FMI e do rigor fiscal para casa, trabalhando até as 22h sob a pressão de Otávio Gouveia de Bulhões. Era o oposto de Sebastião Paes de Almeida, o pragmático que dizia: “Quando fecho a portinha do elevador do hotel, o banco fica lá”. Sebastião preferia o jantar, a biriba a três centavos o ponto e o descanso mental para enfrentar as batalhas do dia seguinte. Ary Jacomo Bisaglia, entre o piano e os cartões perfurados do sistema Ruff, foi o elo silencioso que garantiu que a engenharia financeira do Brasil não sucumbisse totalmente ao peso das suas próprias contradições.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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