
A demolição da cultura em São Paulo
Por Ary de Jácomo Bisaglia, prefácio do livro “História da Música Brasileira”, publicado em 2011
ROBERTO BUENO – musico, multiinstrumentista, arranjador, promotor musical, escritor, compositor, professor e líder da classe de músicos.
Eu o conheci, pessoalmente, há apenas dois anos. Mas duas destas suas atribuições me chamaram a atenção: PROFESSOR – para mim não deve significar apenas um titulo ou profissão, mas uma verdadeira vocação motivada pela necessidade de transmitir ao próximo toda a sua experiência e conhecimentos, sem os objetivos imediatos de lucros ou vantagens, mas por puro altruísmo.
A segunda qualidade e a de líder de classe, hoje totalmente engajado na recuperação e na retomada de objetivos da ORDEM DOS MUSICOS DO BRASIL, uma autarquia federal criada por Juscelino Kubitscheck para a dignificação da profissão de musico, nos moldes de suas congêneres voltadas para outras profissões liberais, como advogados, médicos, engenheiros, economistas, etc.
Nesta sua nova obra – PEQUENA HISTÓRIA DA MUSICA BRASILEIRA, me chamou a atenção pelas suas peculiaridades de simplicidade mas, ao mesmo tempo, abordando inúmeras facetas da evolução da musica no Brasil com todas as suas particularidades de intervenções das mais variadas culturas, com seus instrumentos originais e suas formas de expressão.
Quando Roberto Bueno me convidou para uma modesta participação nesta obra, com uma inicial revisão e sugestões, a minha empolgação por esta missão me levou a contribuir com inúmeras informações e dados, assim como fotos históricas de meu acervo particular.
Aqui entrou em ação a minha vertente de professor que não me permite deixar de transmitir conhecimentos acumulados em muitos anos de experiência profissional.
Esta obra tem o objetivo de ser simples, sem pretensões de um tratado histórico, mas com informações peculiares que em raras oportunidades o leitor ou estudioso poderá se deparar.
A partir do material contido nesta obra, propomos aos leitores uma reflexão e uma comparação das figuras e fatos aqui contidos, com as realidades que vem ocorrendo no mundo musical e cultural que nos cerca, principalmente na cidade de São Paulo mas, também comum em outras paragens.
A atividade profissional da musica, principalmente da musica erudita, em muito depende das estruturas e dos apoios institucionais e governamentais.
No primeiro caso vem ocorrendo um crescente interesse por parte de empresas e instituições, face ao desenvolvimento das técnicas de marketing aliadas aos vários mecanismos de incentivos fiscais a cultura.
Contudo, na área governamental, seja na esfera estadual ou municipal e mesmo na federal, a cada administração vemos a deteriorarão de toda uma estrutura cultural criada pelo trabalho fecundo, serio e diuturno de homens de real valor humano e artístico. Como os vários músicos revelados nesta obra.
Na administração estadual da cultura, o perfil de seus secretaries titulares revela o descaso e o total despreparo para a função – tivemos um cafeicultor, um usineiro, um jornalista, um diretor de futebol, uma burocrata estranha aos meios socioculturais paulistas, um socialite e um economista. Fácil entender a falência total dos objetivos maiores e os custos operacionais crescentes, manipulados por segundos e terceiros escalões administrativos.
Na administração estadual de Jose Serra vimos a corrida pelos programas de terceirizações de serviços culturais, entregues para sociedades denominadas de “amigos” sem maiores avaliações ou licitações. Hoje todas elas alvo de dezenas de agomes judiciais pelas mais variadas ilegalidades ou irregularidades. Com um custo-benefício negativo – aumento de encargos financeiros com diminuição na quantidade e qualidade dos serviços prestados, assim como o desvio de recursos públicos para entidades privadas.
Ainda nessa administração estadual, foi assinada uma lei inconstitucional que viola dispositivos de legislação federal no concernente ao exercício profissional dos músicos. Esta lei, hoje sendo analisada pelo Supremo Tribunal Federal para a sua
anularão, libera os músicos de terem uma carteira profissional no Estado de São Paulo, como poderia estar liberando também advogados, médicos, economistas, engenheiros, etc.
Ainda na figura do politico supra citado, na sua passagem pela Prefeitura de São Paulo deixou um legado altamente negativo para a cultura musical e a historia da cidade. Enquanto podemos ver nesta obra várias citações sobre a Escola Nacional de Musica criada no Rio de Janeiro ainda no Governo Imperial e, a cada administração federal como estadual, crescendo e se tornando mais importante inclusive a níveis nacionais como internacionais, em São Paulo tivemos a desapropriação e a liquidag3o do Conservatório Dramático e Musical por um decreto municipal de duvidosa legalidade jurídica. Era a segunda escola de musica mais antiga do Pals. e por onde passaram as suas maiores figuras, muitas delas citadas neste livro. Desapropriada para dar lugar a uma vaga Praga das Artes – apenas mais uma obra…e, o atual titular da Prefeitura Municipal, Engenheiro Gilberto Kassab, esta dando cobertura a plena continuidade desta politica anti-cultural.
Na esteira deste decreto municipal citado, foi feito outro totalmente ilegal desapropriando a valiosa biblioteca do Conservatório Dramático, de mais de 10.000 volumes, alguns raríssimos, assim como muitas obras originais e, incluindo ainda mais de cem anos de prontuários de alunos de elevado valor histórico, como Mario de Andrade, Souza Lima, Camargo Guarnieri, Frutuoso Viana e centenas de outros.
I: o único caso conhecido no Pais de desapropriação de uma biblioteca e, por curiosidade ou coincidência, o atual Secretario Municipal de Cultura responsável por esta desapropriação e um comerciante de livros raros.
Mas, o ex-prefeito e ex-governador Jose Serra não esta sozinho nesta desconstrução da cultura e da musica na Cidade e no Estado.
Enquanto na maioria das cidades com administradores mais sérios e conscientes dos valores culturais sob as suas responsabilidades, edifícios
públicos como privados destinados 3 galerias de arte, bibliotecas e teatros são rigorosamente preservados e, quando necessário, restaurados, em S3o Paulo números teatros foram desnecessariamente demolidos – públicos como privados, quando a Prefeitura poderia ter intervindo:
O Teatro Boa Vista, na rua do mesmo nome, foi demolido para dar lugar a um banco.
0 Teatro Santana, que por décadas era o principal da Cidade ate o termino do teatro Municipal, pertencia a um membro da família Matarazzo e seus herdeiros demoliram para dar lugar a um edifício e uma galeria.
■ 0 Prefeito Faria Lima demoliu o Teatro São Paulo na rua da Gloria – era um grande teatro com palco italiano, etc. para abrir a ligação Leste-Oeste, quando haviam outras opções de engenharia, mais econômicas e com a preservação do teatro.
■ O Prefeito Paulo Maluf demoliu outra grande e tradicional casa de espet3culos – o Teatro Colombo, no Largo da Concordia, para dar passagem a um viaduto que poderia estar 200 metros mais adiante.
Ainda no mesmo bairro, a iniciativa privada demoliu o Teatro Brás Politheama que, assim como o Teatro Colombo, tinha abrigado grandes e Importantes companhias estrangeiras de opera e de revistas.
Deixamos de citar o Teatro São Pedro que, vendido ao grupo Light & Power, foi demolido mas estava sendo substituído pelo Teatro Municipal, construído 3suafrente.
No caso dos teatros demolidos que pertenciam a particulares, estes contaram com a indiferença e a complacência dos respectivos prefeitos na 6poca – Jânio Quadros, Luiza Erundina e Reinaldo de Barros.
Outro fato cultural extremamente negativo se refere as varias reformas efetuadas no Teatro Municipal de São Paulo.
estão conseguindo galgar posições profissionais as mais elevadas. Inclusive no Exterior, como um jovem contrabaixista saído da comunidade de Heliópolis e hoje tocando na Filarmônica de Israel.
Mas, de outro lado, o aparecimento de neófitos assumindo posições de decisão em orquestras e escolas de musica (publicas como privadas) por vias das mais estranhas, assim como novos “maestros” geralmente autodidatas, frutos de um marketing pessoal agressivo as vezes resvalando dispositivos do Artigo 171 do Código Penal, aliados a uma inconsequente e generalizada má administração cultural, podem estar deteriorando o mercado musical mais responsável com serias consequências para o seu efetivo desenvolvimento.
Hoje já vemos os choques culturais entre músicos profissionais sérios e competentes com estes dirigentes improvisados.
Não seria improprio abordar aqui a necessidade de homens públicos, executivos como parlamentares, se dedicarem seriamente aos projetos de criação e desenvolvimento permanente de bens sociais e não ao desserviço de destruição e anulação de conquistas sociais, materiais e culturais da sociedade.
A abordagem destes temas não objetiva pessoas ou valores mas tão somente fatos e circunstancias.
Apenas um alerta neste Prefacio!
Ary de Jacomo Bisaglia, Professor e Musico
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