Terras Raras e o Brasil como alvo
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
Na Idade Média, os alquimistas ainda acreditavam que a matéria era composta por somente quatro elementos: terra, água, fogo e ar. Aos poucos, começaram a perceber que substâncias eram distinguíveis e podiam ser isoladas, por processos como a redução de metais. Eram processos conhecidos e dominados, mas não entendidos por faltar um conceito essencial: o de oxidação. O oxigênio só foi identificado no século XVIII por Antoine Lavoisier. Antes disso, predominava a Teoria do Flogisto. Nela, os corpos combustíveis conteriam uma substância — o flogisto — que seria liberada durante a queima.
A interpretação dos fenômenos era, portanto, limitada. Observava-se, por exemplo, que o óxido de ferro apresentava densidade menor que a do ferro metálico. Como não se conhecia o papel do oxigênio, concluiu-se que algo era perdido no processo, o que levou à ideia, hoje inconcebível, de “massa negativa”. Não se compreendia que, na redução, há perda de oxigênio e reorganização da matéria, com variação de volume e massa.
Chamava-se de “terra” tudo como se encontrava na Natureza, geralmente, resultado de reação oxidante, até então não explicada. Quando, no fim do século XVIII, foram identificados novos óxidos em minérios da Península Escandinava, denominou-se como “terras”. Por serem encontradas em pequenas quantidades na região, justificou-se o epíteto de “raras”.
O nome permaneceu, embora contenha dois equívocos. Essas substâncias não são terras, no sentido químico moderno, e não são necessariamente raras. O que era exíguo na época era o conhecimento sobre elas e a capacidade de isolá-las.
Entendidos esses conceitos, podemos avançar para o problema contemporâneo, em que essas substâncias deixaram de ser curiosidades de laboratório para se tornarem elementos centrais na disputa econômica e tecnológica internacional.
Reserva não é uma quantidade absoluta. Ela depende de três variáveis: conhecimento da crosta terrestre, que é capaz de estabelecer províncias minerais; investimento em pesquisa e uso industrial. A determinação das províncias minerais trata da gênese dos minérios, o que implica na conjunção entre reservas de várias substâncias consideradas como “parentes”. Uma bacia sedimentar, por exemplo, indica a possibilidade de se encontrar petróleo, mas sua descoberta depende do investimento pesquisa, quando, além da contatação da existência da substância procurada, determina-se a viabilidade técnica de sua extração. Se houver uso, verifica-se se a reserva é economicamente viável; se o for, dá-se início à próxima etapa, a mineração, que, por sua vez, enseja várias outras etapas, indo do refino à industrialização.
Assim, para todos os efeitos, sempre que se falar em reserva, entenda-se como reserva conhecida, pois a mineração depende do preço da substância e do custo de extração. No caso das terras raras, há dois complicadores, o fato de não existirem sempre juntas como um time de futebol. Numa mesma província geológica, cuja existência é de razoável probabilidade, as quantidades de cada uma das dezessete substâncias apelidadas como terras raras[1] pode variar entre si.
Assim, os números amplamente divulgados, de 44% das reserva estarem na China e 23% estarem no Brasil, refere-se às reservas conhecidas, jamais a real total existente na face da Terra. Mesmo tratando-se de valores supostos a partir do conhecimento científico atual, fica claro que a Terra depende fortemente desses dois países no que tange ao fornecimento de elementos químicos cujo consumo destina-se, em 80%, à fabricação de itens indispensáveis à indústria bélica. Isso explica a razão de tanta celeumas. Os Estados Unidos consumiram uma parcela significativa de seu armamento atacando o Irã.
A China que, além de deter a maioria das reservas, conta com monopólio virtual do refino e da redução dos metais que compõem essa família fechou a torneira, alegando que não vai vender matéria-prima para a produção de armas que se podem virar contra ela própria.
O resultado é que se tornou extremamente difícil repor o arsenal estadunidense. É inimaginável que o país mais belicoso do mundo esteja inerme perante uma potência que, até então, era tida como fraca o suficiente para ser aniquilada em poucos dias. Era de se esperar que se iniciasse uma corrida pelas terras raras, a começar pelo Brasil, sabendo-se de sua propensão para fazer face à recusa da China. Se o mundo está olhando para o Brasil com interesse, os Estados Unidos nos veem com a avidez que somente quem está acostumado ao esbulho consegue. Cabe ao Estado brasileiro administrar o papel estratégico que assumiu no mundo e não se deixar explorar, como é o caso do quartzo. Nesse caso, saem do Brasil 95% da matéria-prima que viabiliza a redução do silício metálico, destinado, entre outros infinitos usos, à fabricação de chips, cuja produção está cada dia mais longe de nossa indústria. Impedir a exportação de matéria-prima estratégica é essencial para grantir nossa soberania. Talvez, o fato de protegermos nossas jazidas de terras raras equivalha, em termos estratégicos, à produção de armamento nuclear. Queiramos ou não, é inexorável que o Brasil abandone a eterna adolescência e assuma a maturidade como país.
[1] O conjunto denominado “terras raras” corresponde aos quinze lantanídeos, acrescidos de ítrio e escândio, cujos óxidos foram historicamente classificados como “terras”. São os seguintes elementos: Escândio, Ítrio, Lantânio, Cério, Praseodímio, Neodímio, Promécio, Samário, Európio, Gadolínio, Térbio, Disprósio, Hólmio, Érbio, Túlio, Itérbio e Lutécio. Esse conjunto reflete a proximidade geoquímica desses elementos, razão pela qual tendem a ocorrer associados em depósitos minerais, ainda que em proporções distintas.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.
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