21 de junho de 2026

Deus nos livre das mentes simples — e das pessoas raivosas

Outro dia cai em armadilha já conhecida: nunca fazer ironia em texto público. Fiz. A reação foi desanimadora e exaustiva.
Reprodução

Ironia em textos públicos gera mal-entendidos; leitores menos sofisticados interpretam literalmente e reagem com agressividade.
Alexandre de Moraes tem três perfis: estrategista do inquérito, magistrado autoritário e parte da aliança Lula-STF.
Preservar a democracia é o critério para avaliar o STF; críticas devem corrigir, não desmontar o sistema político.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Não pense que a ira e o terraplanismo são monopólio dos bolsonaristas. Há bolsões do nosso lado — menores, é verdade — mas intensamente barulhentos, primários e, convenhamos, exaustivos.

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Outro dia caí numa armadilha contra a qual o grande Millôr Fernandes já alertava há décadas: nunca faça ironia em texto público.

Para rebater a velha manobra do jornalista que atribui qualquer informação a “seis fontes”, respondi que havia consultado “doze fontes” que diziam exatamente o contrário — e que revelaria seus nomes assim que a jornalista revelasse os dela.

Para quê?

Em minutos, surgiram os perspicazes de plantão: acusaram-me de não querer revelar fontes e — pasmem — de talvez nem tê-las. Fui obrigado a explicar, um por um, que não havia fonte nenhuma. Era ironia. 😉

Erro meu. Ironia exige um mínimo de sofisticação do leitor — e esse é um insumo cada vez mais escasso.

A lógica da simplificação agressiva

Há também os irados. Esses não interpretam: reagem.

Diante de situações complexas, comportam-se como o Pateta ao volante: pegam o controle do próprio post e saem atropelando tudo pela frente — especialmente quem ousa introduzir nuances onde eles querem certezas absolutas.

Por nuance, entenda-se algo simples: criticar decisões de um governo que você apoia.

Como assim? Lula não escorrega. Questionar é fazer o jogo do inimigo. Discordar é traição. Apontar ajustes é sabotagem.

Haja fígado.

O caso Moraes — um personagem de três camadas

Esse comportamento aparece com nitidez no debate sobre Alexandre de Moraes. Ele é, evidentemente, um personagem complexo — e isso já basta para irritar os simplificadores.

Há, no mínimo, três Moraes.

O primeiro é o que conduziu o chamado “inquérito do fim do mundo”. Ali demonstrou visão estratégica e coragem pessoal que, muito provavelmente, entrarão para a história.

O Supremo percebeu antes de muitos a engrenagem da conspiração que se formava no entorno do bolsonarismo. O inquérito foi aberto, entregue a Moraes, que montou sua equipe com base em critérios de confiança pessoal — errando, é verdade, em ao menos um caso grave.

Mas o saldo é inegável: havia riscos reais, inclusive pessoais e familiares. Ainda assim, não houve vacilo. Sua atuação ajudou a pavimentar a resistência institucional que culminou na preservação da ordem democrática.

O segundo Moraes é o magistrado de perfil autoritário, que, como tantos outros integrantes de cortes superiores, passou a monetizar prestígio.

Aqui é preciso precisão: não há prova de “ato de ofício” — isto é, de decisões judiciais tomadas em benefício de contratantes. Mas o simples fato de circular nesse ambiente já fornece munição farta para críticas.

O terceiro elemento não é exatamente uma pessoa, mas um arranjo: a aliança entre Lula e o STF — particularmente Moraes, Gilmar e Toffoli.

O paradoxo dos “objetivos”

É aqui que os defensores da objetividade absoluta entram em curto-circuito.

Como defender hoje o STF se foi o mesmo STF que endossou o impeachment, prendeu Lula e o retirou da eleição de 2018?

A resposta é menos moralista e mais histórica: instituições não são essências fixas. São contextos.

O Supremo — como qualquer poder — é ele e suas circunstâncias.

Não cabe aos novos Catões decretar que “Cartago deve ser destruída”. Essa tentação moralizante pode ser confortável, mas é politicamente inútil.

A pergunta relevante é outra: o que o STF representa hoje?

E mais: o que representa, neste momento, a convergência entre Moraes, Gilmar, Flávio Dino e Dias Toffoli?

O critério que importa

Todo juízo precisa ser subordinado a um objetivo maior.

No Brasil de hoje, esse objetivo é claro: a preservação da democracia.

O resto entra em outra chave:

  • decisões equivocadas → criticam-se
  • excessos → suportam-se
  • agendas regressivas → disputam-se

Mas sem perder o eixo.

Porque quando se perde o eixo, a crítica vira munição — não para corrigir o rumo, mas para desmontar o próprio sistema que permite a crítica.

Em resumo

A política real não é feita de pureza, mas de equilíbrio de forças.

Quem exige coerência absoluta acaba, frequentemente, servindo à incoerência maior.

E quem não suporta complexidade costuma resolver o problema do pior jeito possível: eliminando-a — junto com a própria capacidade de compreender o mundo.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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23 Comentários
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  1. Rui Ribeiro

    6 de maio de 2026 8:49 am

    Nassif, desculpa eu ficar pentelhando o tempo todo no seu jornal, principalmente porque numa matéria “onde querem revólver, eu sou coqueiro”, como diria o Caetano. Você me desculpa?

    Acabo de ler algo que confirma o que a nossa Sublime Elza Soares cantou já quase na hora da sua partida: “A carne mais barata do mercado é a carne negra”.

    https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2026/05/lima-duarte-gera-protestos-ao-dizer-que-recusou-ir-a-rua-de-prostituicao-por-so-ter-mulheres-pretas.shtml

    “Until the philosophy
    Which hold one race superior
    And another inferior
    Is finally and permanently
    Discredited and abandoned
    Everywhere is war
    Me say war

    That until there are no longer
    First class and second class citizens of any nation
    Until the color of a man’s skin
    Is of no more significance than the color of his eyes
    Me say war”

    Bob Marley, War.

  2. Clydes

    6 de maio de 2026 9:07 am

    Infelizmente o Brasil nunca foi mesmo o país das figuras de linguagem. O público, sua excelência o público, nunca esteve ao par do bom texto. Por isso nossos escritores estão muito acima da média intelectual dos jornalistas: fenômeno sociológico. Quando surge um, acima da média como Nassif, sofre. E agora estamos sim, em um terraplanismo sem limite, de terras áridas e num deserto de ideias. Do lado da imprensa corporativa, diga-se.

  3. Antonio Uchoa Neto

    6 de maio de 2026 9:31 am

    A ironia é uma filha bastarda da inteligência e da capacidade de raciocínio crítico. Como todo bastardo, pode ter lá sua utilidade – a subtração do sobrenome ao candidato Flávio, por algum tempo, e por parte da grande mídia, é um sinal de bastardia útil – para aqueles que dela se valem com a certeza de que não serão percebidos como tais. Por outro lado, a percepção da ironia nem sempre é consequência da ação de leitura de uma mente atilada e crítica – às vezes, é confundida com sua matriz, a realidade, e tomada como uma disfunção desta. Mas, como se vê, é sofisticação demasiada para as mentes raivosas, e algo sequer perceptível para as almas simples. Paciência. Freud estigmatizou as mulheres, como seres “pouco capazes de perceber ironia”; não creio estar estigmatizando ninguém, por achar que o ‘povo’, essa enigmática, indecifrável, e imprevisível entidade, igualmente não é capaz de perceber ironia. Eu não a percebo, às vezes – e não sou melhor nem pior que ninguém. Mas, quando também a realidade se torna algo de difícil apreensão, por uns e outros, creio que temos, aí, algo com que nos preocupar.
    OS: – Alexandre de Morais não é uma mente raivosa, nem um simplório. Mas não é uma personalidade complexa, na minha visão. Dele eu já disse, aqui mesmo no GGN, que, “indicado por Temer, com todos os predicados e dados biográficos característicos de gente dessa laia, sempre me pareceu um herói de ocasião”, um Macunaíma. É um oportunista, até agora, bem-sucedido.
    Creio tratar-se de um personagem frequente, majoritário mesmo, da vida política à brasileira, ou seja, um agente público para quem (mesmo pertencendo à esfera judiciária da república) a política não é um fim, mas um meio. E, quando tudo se resume a isso – alcançar objetivos, seja lá quais forem – dispensa-se a capacidade crítica, a sutileza, a complexidade de raciocínio necessária à compreensão do mundo e das pessoas, não importando se, para isso, sacrifique-se coisas e pessoas por perto. Não creio – não quero crer – que mentalidades progressistas possam, de fato, compartilhar dessas atitudes. Logo, Alexandre de Moraes não é um companheiro de jornada.

  4. Alexis

    6 de maio de 2026 10:06 am

    Excelente, Luís Nassif. Que possamos compreender. As complexidades, as nuances…

  5. ERNESTO

    6 de maio de 2026 10:37 am

    Desfecho bíblico bem comum nesses dias de poucas sutilezas: pérolas pra porcos.

  6. emerson57

    6 de maio de 2026 10:38 am

    Palpite “herrado”:
    Quando fizer ironia, se criticado por ignorantes e incultos, simplesmente dobre a aposta.
    Aonde se disse que tinha doze fontes, corrija para 22 mil fontes.
    Se ainda assim a boca do idiota vier armada de mil canhões, não explique.
    Faça a única coisa que destroi o interlocutor:
    Não explique nada, o individuo já provou que não tem capacidade intelectual para entender.
    Ao contrário, da forma mais polida possivel peça milhões de desculpas. Diga que se equivocou e lamenta ter tomado o tempo dele.
    Se ainda assim ele insistir na crítica, simplesmente renove o seu pedido de desculpas.
    Mais não faça. (a não ser bloquear o telefone do indigente mental).

    1. fernando

      6 de maio de 2026 2:02 pm

      Perfeito Emerson.

      1. AMBAR

        6 de maio de 2026 10:45 pm

        Emerson.

  7. Paulo Dantas

    6 de maio de 2026 12:53 pm

    O LF Verrssimo dizia que faltava um ponto de ironia , asim como de exclamação ou interrogação na língua.

    Eu brincava as vezes com as tags HTML texto

  8. José de Almeida Bispo

    6 de maio de 2026 1:22 pm

    Hehehe.
    É brabo!
    Há dez anos tive que engrossar com um “petista” raiz, um garotão que se dizia de 27 anos e uns 27 diplomas, por me dizer petista e comentar sobre a natural pouco habilidade da ainda então presidente, Dilma Rousseff.
    Acusou-me de falso petista; de ser pena comprada, um quinta-coluna, de não conhecer o partido.
    Tive de esfregar-lhe nas fuças a ata de fundação do diretório do partido em minha cidade, comigo eleito presidente… e minha assinatura, óbvio. Agosto de 1981. Ele, nem se imaginava nascer.
    Cheguei a ser grosseiro e parafrasear o Vinícius, com a frase, “E chego a achar Stalin natural.
    Sobre Millôr, fui advertido pelo grande Faoro, há muito tempo atrás nesse mesmo sentido.
    Rsrsrsrsrsrsrs

  9. José Carlos

    6 de maio de 2026 2:08 pm

    DESENROLA 2.0, programa do governo: spoiler:

    Está acontecendo um BANCO MASTER II, o programa desenrola lançado pelo governo.

    O programa troca dívidas velhas (créditos podres não recebíveis) por dívidas novas (garantidas pelo fundo).

    Seria assim, em 1 milhão de reais de dívidas velhas. 1m -> divida nova 1,2 milhão. A juros de 1,99% ao mês, garantidos pelo governo.

    Ou seja, o mercado tem um milhão de NÃO RECEBÍVEIS, refaz a dívida
    em 1,2 milhão (1,99% ao mês a tabela price) e esse novo valor é
    garantido pelo fundo público. Se o devedor não pagar o mercado
    agora vai receber do fundo público.

    Eis a pergunta: É um desenrola para o povo ou para o mercado?
    para o mercado, né, sem esperança de receber dívida, agora vai
    receber de qualquer jeito.

    É uma espécie de banco Master II, remodelado, só que agora não
    é com investimento a receber (CDBs), é endividamento do povo,
    e essas dívidas continuam com povo. Mas os banqueiros tem a
    garantia de receber TUDO.

    Diferente do Master, tudo continua com povo. Pois se fosse assim,
    se o fundo pagar a dívida para o banco, ele recebe mas o devedor
    o povo TERÁ LIQUIDADO A DÍVIDA? Isso a medida provisória não
    informa, então a dívida deve continuar. Banqueiro contando dinheiro
    de um lado, cidadão endividado do outro.

    1. AMBAR

      6 de maio de 2026 3:38 pm

      Banco nosso de cada dia, perdoai as nossas dívidas assim como nós perdoamos os nossos devedores?
      Banco faz nascer dinheiro do nada, “apenasmente” com a fé dos depositantes nas promessas de lucro ( o aluguel do dinheiro a si confiado, o retorno remunerado). Representante do Deus Dinheiro, o banco faz seus milagres e os fiéis divididos, ou recebem as bênçãos ou pagam as promessas (juros).
      Mas, vamos responder a pergunta do “desenrola”
      “Eis a pergunta: É um desenrola para o povo ou para o mercado?”
      A resposta que nos ocorre:
      O desenrola é para o povo, para o mercado e para o governo.
      O povo respira com a ilusão de que suas dívidas foram “perdoadas” um mínimo suficiente para que ele volte a se endividar.
      O mercado troca o não recebível por um recebível garantido e um endividamento perpétuo do seu cliente hospedeiro
      O governo ganha a simpatia do povo por tira-lo do aperto financeiro.
      Assim caminha o capitalismo.

    2. Victor Lima

      6 de maio de 2026 6:24 pm

      O nome do programa deveria ser mudado para “Me Enrola 2.0”.

    3. WRamos

      6 de maio de 2026 6:35 pm

      Errado. Para usar o programa os bancos tem que conceder desconto no saldo devedor, que pode chegar a 90%. E não fazem favor algum. Se justificam os altos spreads com o risco de inadimplência, com o programa o risco do empréstimo inicial desaparece e o desconto representa a devolução dos spreads acumulados na dívida que perdem a justificativa da inadimplência. Seria um Master II se fosse possível oferecer crédito novo contando incluir no programa, mas só é possível incluir dívidas existentes e inadimplentes.

  10. AMBAR

    6 de maio de 2026 4:14 pm

    Nassif inspirado e filosófico. Mas, havemos que compreender que a ironia faz parte do senso de humor, sentido que uma grande parte das pessoas geneticamente não partilham.

    1. Francisco E. D. Pessanha

      7 de maio de 2026 10:52 am

      Bem esclarecido, WRamos!

  11. fabriciio coyote

    6 de maio de 2026 8:31 pm

    o brasil é tudo isso por que os jornalistas são mais sagazes de que os leitores, os gênios da raça, como dizia Otto Lara Resende, conhecem os três primeiros assuntos de qualquer assunto. e tem otário que ainda faz contribuição para ser insultado. e tem o moraes que conseguiu o celular de marcela temer, que processou o estelionatário com pena de reclusão ao arrepio das normas de execução pensl e foi capinar maconha no Paraguai. kaos! como diz Iggy Pop, o futuro é o Paraguay. fora da ideia de uma Constituinte só nos restará o boçal, uma vez que o jornalismo é avatar de interesses e não de fatos.

  12. Edson Seffrin

    6 de maio de 2026 11:52 pm

    Foi na veia!! por isso que o bolsonarismo teve sucesso, ele é simplório. Não tem projeto de estado, só tem projeto de poder pessoal, e entrega o poder real a maioria do congresso, ou seja , o centrão.

  13. fabricio coyote

    7 de maio de 2026 7:52 am

    vamos demonstrar pq a propaganda de Lula no 1º de Maio é eleitoreira: corre ao Senado https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/124067

    porque no 1º de Maio não disse que advogaria essa PEC, ao invés de propor uma nova que diminui para 40 horas semanais a jornada? por que está envolto com o sistema capitalista. e os jornalistas, ixpertos, sequer sabem dessa proposta.

  14. wagner moreno aguilar

    7 de maio de 2026 9:00 am

    Há tempos, fiz um comentário irônico aqui, que foi interpretado ao pé da letra. Nunca esqueci desse fato apesar de não lembrar mais do comentário.

  15. emerson57

    7 de maio de 2026 2:01 pm

    Falando nisso, que fim levou o “Tesouro Reserva”?
    Terá o governo cedido ao lobby dos bancos comerciais?

  16. fabricio coyote

    7 de maio de 2026 2:07 pm

    o pronunciamento de 1º de Maio do Lula propositivo a uma PEC que reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. e porque não advoga o andamento da https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/124067? o motivo, talvez tenha passado ao largo do jornalismo progressista, é a capitulação do governo ao sistema financeiro.

  17. fabricio coyote

    9 de maio de 2026 7:59 am

    uma vírgula, temos de começar pelo conceito de ironia de Kierkegaar sobre a gregariedade.

    ainda fico com a acidaridez lírica de João Cabral de Melo Neto

    Viva Virgulino Ferreira da Silva!
    Viva Bezerra da Silva!

    abaixo a impotência de imaginação da folha são paulo!

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