4 de junho de 2026

Tabata Amaral, entre o orgulho e a vergonha do ser judeu, por Armando Coelho

O filósofo e historiador israelense Yuval Noah Harari, mesmo se declarando sionista, critica abertamente Netanyahu. E o que faz Tabata?
Banksy em Gaza.

Bernie Sanders e Yuval Harari criticam o governo Netanyahu, defendendo críticas sem associá-las ao antissemitismo.
O ex-diretor do Mossad, Tamir Pardo, denuncia o apartheid em Israel e expressa vergonha pela atual política do país.
Tabata Amaral propôs projeto para blindar Netanyahu e Israel contra acusações de antissemitismo, enfrentando críticas judiciais.

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Tabata Amaral, entre o orgulho e a vergonha do ser judeu

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por Armando Rodrigues Coelho Neto

O fato de um gato nascer dentro de um forno não significa que ele nasceu pão. Esse é um ditado comum entre nacionais de cultura arraigada, que preservam sua nacionalidade independentemente do país em que venham a nascer. Bernie Sanders, por exemplo, nasceu no Brooklyn, Nova York, mas, como filho de imigrantes judeus, fruto da identidade etnorreligiosa, é considerado como tal.

Em que pese dizer reiteradamente ter orgulho de sua identidade judaica, Sanders é, sem dúvida, um dos críticos mais ferozes das ações militares de Israel em Gaza. Ele está entre judeus que têm a memória viva do Holocausto, tragédia da qual parte da família de seu pai foi vítima. Para ele, criticar o governo de Benjamin Netanyahu não é antissemitismo, e a história exige que o mundo impeça outros holocaustos.

Já o filósofo e historiador israelense Yuval Noah Harari, mesmo se declarando sionista, critica abertamente Benjamin Netanyahu, a quem trata como um incompetente que, para se manter no poder, pode destruir a democracia de Israel. No mais, diz que judeus e palestinos têm conexões históricas legítimas com a terra. A paz só será possível sem a “fantasia” de que o outro lado desaparecerá.

Defensor de dois Estados como saída real para a paz, Harari sente orgulho de ser israelense, mas as visões extremistas colocam o judaísmo em risco, já que toda uma cultura precisa ser protegida de uma “catástrofe espiritual”. O judaísmo, diz ele, corre o risco de ser transformado em uma ideologia de supremacia e violência sob governos de extrema direita, o que seria traição aos valores judaicos históricos.

Entre orgulho e vergonha, a regra é respeitar a identidade judaica, sem apoio acrítico ao Estado de Israel. Omer Bartov, historiador israelense radicado nos EUA e especialista em estudos do Holocausto, defende esse equilíbrio. E é taxativo: as ações em Gaza têm características de genocídio. No fundo, o governo israelense tenta “instrumentalizar” o Holocausto e a identidade judaica para silenciar críticas.

Quem também vê instrumentalização do Holocausto no governo israelense é a escritora judia Naomi Klein (Canadá). Na obra “Doppelgänger”, ela é contundente ao dizer que o governo israelense manipula o trauma dos ataques de 7 de outubro para desumanizar os palestinos e silenciar críticas internas e externas. “O sionismo político é um ‘falso ídolo’ que deturpa os valores judaicos de libertação e justiça”.

Figuras exponenciais do mundo judaico têm feito críticas ao governo de Israel, sempre com cautela. É essencial não confundir os judeus com o sadismo de Benjamin Netanyahu. Mas o filho de uma vítima do Holocausto abandonou protocolos e etiquetas e aumentou o tom. Trata-se de Tamir Pardo, 11.º diretor do Mossad, entre 2011 e 2016, nomeado, pasmem, pelo atual governo israelense.

Durante entrevista ao The Guardian, em 2023, Pardo disse que Israel impõe um sistema de “apartheid” contra os palestinos na Cisjordânia. Em abril deste ano, para o Canal 13 israelense, foi contundente: “Tenho vergonha de ser judeu”. Ao testemunhar a violência de colonos israelenses contra palestinos, comparou a situação aos históricos episódios de perseguição do século passado.

Entre as críticas de Pardo contra seu “ex-chefe” estão: a estratégia de guerra do governo Netanyahu soa “inútil” e sem um objetivo final claro; a real maior ameaça à existência de Israel não vem de inimigos externos, mas sim da desintegração interna e da falta de uma estratégia diplomática; e a violência descontrolada e as políticas atuais na Cisjordânia estão “plantando as sementes para o próximo 7 de outubro”.

Hoje, Israel está sentindo um cheiro de Gaza em seu quintal. Entre o orgulho e a vergonha, talvez temperança, o país vive seu pior momento histórico. É demonstrável a deterioração da percepção internacional desse lado cruel israelense, que até então o mundo não conhecia. Sobre apoio popular, o Morning Consult diz que Israel caiu em 42 dos 43 países pesquisados após o início do conflito em Gaza em 2023.

O Índice de Percepção da Democracia de 2025 classificou Israel como o país mais mal visto do mundo em diversos territórios. Pois bem, leitores, sem sequer ter nascido no forno, distante do instrumentalismo de Bibi denunciado por judeus sérios e de renome, surge a sonsa parlamentar Tabata Amaral, a musa da “Faria Limers”. Ela apresentou um projeto “antissemitismo” para blindar Bibi e Israel.

O projeto de Tabata dificilmente receberia o endosso dos judeus citados neste ensaio logorréico sobre a maior tragédia do século.

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo

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Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo.

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1 Comentário
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  1. grevista

    6 de maio de 2026 12:29 pm

    Acrescente Chomsky nessa lista. Proibido de entrar em Israel.

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