4 de junho de 2026

Um caminho para sair do mal-estar, por João Furtado

As conquistas sociais desde 1988 e, sobretudo, desde 2003, não existem para a memória e a visão de mundo da maioria dos brasileiros.
Acervo Agência Brasil

Presidente Lula destaca consumo como parte da vida, associando-o a símbolos como picanha, cerveja e carro.
Governos Lula e Dilma ampliaram acesso ao mercado, elevando renda e reduzindo fome por meio de auxílios monetários.
Autor defende foco na qualidade de vida, além do consumo, incluindo educação, segurança e transporte de qualidade.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Consumo, endividamento e desenrolas X Qualidade de vida: um caminho para sair do mal-estar

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por João Furtado

Entre as qualidades reconhecidas do presidente Lula está a sua fortíssima conexão ao povo brasileiro. Ele possui uma capacidade invejável de dialogar com o povo, seja no plano concreto, seja no imaginário. Esse trunfo de Lula ajuda a explicar muitas coisas, incluindo as imagens icônicas de energia vibrante entre pessoas comuns, rostos anônimos que se iluminam na sua presença. Ajuda também a explicar os seus sucessos eleitorais.

Um amigo atento me disse que Lula está sempre certo quando se trata de pensar o que povo quer. Os intelectuais do Fome Zero não queriam o Bolsa Família. Muita gente não queria o FIES ou o PROUNI. São sucessos que ninguém pode subestimar. Na dúvida, disse essa pessoa, as intuições de Lula são melhores do que as nossas ideias, às vezes são melhores do que os nossos argumentos mais bem fundados.

Uma das imagens que Lula evoca com frequência é a da picanha e cervejinha, associadas ora ao consumo ora ao desejo de consumo. Em outras oportunidades, Lula fala também do carro. Em ambos os casos, é o consumo que Lula está valorizando.

O consumo é uma dimensão importante da vida. E só as pessoas que consomem (quase) ilimitadamente ou com restrições muito moderadas têm a pachorra de minimizar essa dimensão. Porque as pessoas que comem arroz, feijão e ovo frito diariamente aspiram a provar picanha de vez em quando, como as pessoas que estão empilhadas no ônibus ou espremidas na estação de metrô podem desejar um carro como solução para problemas sérios das suas vidas.

O consumo tornou-se uma dimensão fundamental da vida das pessoas. Alguém diria, em uma linguagem que pode parecer antiquada (mas nunca foi tão verdadeira), que o comércio, o dinheiro, as relações envolvendo estão cada vez mais entranhadas na vida cotidiana de todas as pessoas. As pessoas passeiam no shopping, não descansam na grama do parque.

Os governos do presidente Lula e da presidente Dilma contribuíram para isso. Trouxeram para o mercado pessoas que tinham acesso muito mais limitado e precário do que tinham no passado. A fome não acabou por meio de autoprodução para consumo ou pela distribuição em cooperativas de consumo popular, mas por auxílios monetários que se transformam naquilo que os beneficiários bem quiserem. O salário mínimo cresceu e os rendimentos das famílias aumentaram também por força de outros rendimentos – de bicos (mais bem remunerados) a vínculos com plataformas passando por formas de empreendimento pessoal de todos os tipos e naturezas. Os dados sobre o Brasil neste século são positivos, em muitos aspectos relevantes. Muitas das realidades mais dramáticas das pessoas e das famílias melhoraram. São avanços muito importantes, sem qualquer dúvida. 

Se isso é correto – e é correto, como provam os dados – por que o mal-estar? Por que não está em altura correspondente a aprovação do governo nas pesquisas? Há muitas respostas a esta questão, possivelmente melhores e mais robustas do que a que apresento aqui. Mas acho que vale a pena ainda formular esta hipótese e convidar os amigos a uma reflexão.

Quem, entre nós, lembra da série de reportagens do Jornal da Nacional da Globo sobre a fome que assolava muitas regiões do Brasil – e do Nordeste em especial? Mais de metade da população brasileira atual não tinha nascido ou não tinha idade e discernimento para acompanhar o que era então o noticiário mais importante do Brasil. Metade da população brasileira não sabe que a fome era um flagelo de dimensões aterrorizantes.  Este é apenas um exemplo. Há muitos outros. A esmagadora maioria dos brasileiros não sabe o que era o Brasil sem saúde pública universal. Ou trabalho infantil. A maioria das conquistas sociais do Brasil desde 1988 e, sobretudo, desde 2003, simplesmente não existem para a memória e a visão de mundo da maioria dos brasileiros. Elas são um dado. O mundo, para elas, é assim. Ele já estava assim quando essas pessoas chegaram à vida adulta e à idade do discernimento. Elas não sabem, não viveram e não conheceram, o Brasil antes da Constituição de 1988 e dos governos que tornaram o social a prioridade.

Aí podemos voltar ao tema do consumo. Ou do poder de compra. As pessoas aspiram a mais e a melhor – é legítimo, é assim. Mas quando o consumo, representado por esses itens simbólicos, é colocado no centro das atenções, só o mais entra no campo de visão, e coloca de lado o melhor. É assim que os governos e as políticas que priorizam o social começam a perder o jogo. Porque os rendimentos das pessoas e das famílias crescem lentamente, muito lentamente. Quando o país crescia muito, a renda média dobrava a cada geração. Crescendo pouco, as mudanças no consumo material são módicas e rapidamente se veem anuladas pelo desejo de consumo, pelas aspirações materiais. Os ganhos materiais crescem a taxas objetivas modestas, os desejos materiais que vão sendo alimentados por uma infinidade de fatores crescem a taxas subjetivas e ilimitadas. Por isso, o consumo não deveria ser a bússola do nosso campo. A valorização em excesso do consumo material que não se vincula diretamente à qualidade de vida é a fonte de muitos dos problemas que temos hoje para resolver, incluindo o vício das apostas e o endividamento excessivo, que depois minam o próprio consumo, em uma espécie de ciclo vicioso.

A pessoa mora em um bairro com muitas carências, onde por vezes continuar a viver custa muito caro em termos de dignidade. Como se compara o televisor comprado em prestações com o medo de chegar em casa e sofrer abordagens indesejadas ou a revolta de ter sido roubado? A mesa tem comida mais farta e mais variada, mas a Escola das crianças está mesmo contribuindo para que tenham trabalhos e vidas melhores?

Quando o consumo (e o rendimento pessoal e familiar) é o centro de tudo, é a régua do mundo, inclusive o das realizações pessoais e familiares, até mesmo o diploma do jovem, que era inacessível para os pais, perde valor. Porque o jovem que ascendeu às vagas criadas ou reservadas para as novas demografias do ensino superior raramente terá no mercado de trabalho as chances (e a remuneração) da clientela tradicional das melhores universidades. E nesse mundo da régua única, o que vale mais – o diploma, a qualificação e o novo emprego ou a frustração de um salário que está muito aquém do que era a expectativa e existe apenas para aquele público mais tradicional da universidade?

Dario Durigan disse, no Roda Viva (TV Cultura, 4 de maio) ter aprendido com o Presidente Lula que não se deve brigar com a opinião do povo, que se deve compreendê-la. O pragmatismo realista do presidente é valioso: há realidades objetivas e a percepção das pessoas é um dado da realidade. Mas é fato também que a opinião do povo não é um dado constante e imutável. A fome era um problema real apavorante e gigantesco. Não é mais. É um problema aflitivo. A Escola não levava as pessoas longe, mas o público dos museus e dos cinemas tem uma diversidade que nunca teve. É com estas mudanças que precisamos dialogar.

O nosso campo de luta deveria ser o da qualidade de vida, da qual o consumo material é apenas uma parte e – penso – uma parte modesta. Nós precisamos pensar o Brasil a partir dos valores que são o fundamento do nosso campo. Não é o do consumo material, é o da qualidade da vida. É a Escola de qualidade para todos. O da merenda nutritiva. Das crianças sendo preparadas para os empregos de qualidade que os nossos investimentos e as nossas políticas vão criar. É o transporte de qualidade que permite aproveitar para si e a família algumas horas do dia. É a segurança oferecida por polícias equipadas e muito qualificadas em termos de técnica e valores humanos. É a justiça célere e justa. É a jornada de 5 dias de trabalho que permite descanso, vida familiar, convívio social, prática de esporte, consumo de cultura. O nosso campo é o das qualidades, porque no campo das quantidades podemos oferecer mais que tudo frustrações reais ou subjetivas.

A chance de estas ideias prosperarem depois de tantos anos de idolatria do consumo é remota, sei bem. Mas não nem mesmo uma pequena fresta para pensar esta outra perspectiva?

João Furtado, economista, especialista em temas ligados à indústria e às políticas para o desenvolvimento. Casado, tem 3 filhos.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Joao Furtado

João Furtado, economista, especialista em temas ligados à indústria e às políticas para o desenvolvimento. Casado, tem 3 filhos.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados