22 de junho de 2026

Por que a economia brasileira tem voo de galinha?, por Luís Nassif

O custo do dinheiro e o Brasil que poderia ter sido

O spread bancário no Brasil é cerca de 27 pontos percentuais maior que na França, onerando crédito e economia.
Com spread francês, lucro bancário cairia 60%-75%, mas crédito e investimento industrial cresceriam significativamente.
Redução do spread poderia aumentar PIB em até 35% em 10 anos, com ganhos em consumo, indústria e mercado de capitais.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

O ponto de partida: a diferença de spread

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O spread médio brasileiro em crédito livre para pessoas físicas e empresas ficou, nos últimos anos, frequentemente entre 25 e 35 pontos percentuais. Na França, o spread típico ficou perto de 2 a 4 pontos. A diferença estrutural é de aproximadamente 27 pontos percentuais — não é um pedágio, é um tributo imperial sobre toda atividade econômica.

O que vamos fazer é imaginar o que o Brasil poderia ter sido se o sistema bancário brasileiro tivesse um spread francês.

Peça 1 — Sistema bancário

Os cinco maiores bancos brasileiros somaram cerca de R$ 150 bilhões de lucro líquido em 2023–2024. Seus ROEs ficam entre 16% e 25%, bem acima dos europeus, que operam entre 6% e 12%. Em relação ao PIB, o lucro do sistema bancário brasileiro representa 1,3% a 1,7% — contra 0,3% a 0,6% na França.

Se operassem com spread francês e mesmo volume de crédito, o lucro cairia para R$ 35–60 bilhões — redução de 60% a 75%. O que os bancos recusam considerar é o ganho de escala: com spread menor, o volume de crédito cresceria substancialmente, moderando a queda para um intervalo de R$ 80–110 bilhões.

Peça 2 — Indústria

O estoque de crédito para a indústria oscilou entre R$ 600 bilhões e R$ 1,5 trilhão na última década. O spread industrial brasileiro ficou entre 8% e 15%; o francês, entre 1% e 3%. A diferença estrutural média é de 8 a 10 pontos percentuais.

O excesso de spread drenou da indústria aproximadamente R$ 90 bilhões por ano. Em dez anos, R$ 900 bilhões a R$ 1,2 trilhão. Para efeito de comparação: o investimento industrial total no período foi de aproximadamente R$ 1,7 trilhão. Ou seja, para cada R$ 10 investidos pela indústria, entre R$ 5 e R$ 7 foram drenados em custo financeiro extraordinário.

Se esse excedente tivesse virado investimento produtivo:

ItemValor em 10 anos
Investimento industrial efetivo~R$ 1,7 trilhão
Excesso de spread capturado pelos bancos~R$ 0,9 a R$ 1,2 trilhão
Investimento industrial hipotético~R$ 2,6 a R$ 2,9 trilhões

O investimento industrial teria sido 50% a 70% maior. A indústria de transformação, que chegou a 27% do PIB nos anos 1980 e hoje gira em torno de 10%, poderia estar 20% a 30% maior do que está.

Peça 3 — Mercado de capitais

A capitalização via mercado de ações depende diretamente do custo do dinheiro. Quando a Selic despencou no período Dilma, os fundos de pensão montaram mesas específicas para renda variável. Com o retorno às taxas estratosféricas após 2016, o capital estrangeiro voltou a se concentrar em títulos públicos — que praticamente dobraram de US$ 105,7 bilhões para US$ 234,9 bilhões entre 2015 e 2024 — enquanto a posição em ações estagnou entre US$ 62 e US$ 88 bilhões. A razão ações/títulos caiu de 55% para 27% em dez anos: o capital especulativo prefere a renda garantida da Selic ao risco produtivo.

Peça 4 — Comércio e consumo

Com spread francês no crédito ao consumidor, o alívio anual de juros seria de R$ 250 a R$ 450 bilhões. Aplicando a propensão a consumir de 65% a 80%, a injeção anual no varejo seria de R$ 160 a R$ 360 bilhões — o equivalente a um aumento de vendas de 6% a 8% ao ano sobre uma base de R$ 3,5 a R$ 4,5 trilhões de receita do varejo ampliado.

Em dez anos, o varejo poderia ter sido 50% a 80% maior no cenário central.

Peça 5 — O impacto no PIB

Conta estática — somando os ganhos setoriais com ajuste por importações, poupança e vazamentos (eficiência líquida de 50% a 80%):

CanalGanho anual estimado
Menos juros ao consumidorR$ 250 bi a R$ 450 bi
Menos custo financeiro da indústriaR$ 90 bi a R$ 120 bi
PIB adicional anual (líquido)R$ 170 bi a R$ 450 bi
CenárioPIB adicional acumulado em 10 anosEfeito no nível do PIB
ConservadorR$ 1,7 trilhão+8% a +10%
CentralR$ 3,0 a R$ 3,5 trilhões+15% a +20%
AltoR$ 4,5 trilhões+25% ou mais

Conta dinâmica — o dinheiro não entra uma vez; ele gira. Consumidor paga menos juros → sobra renda → comércio vende mais → indústria produz e investe mais → emprego e salários sobem → arrecadação cresce sem elevação de alíquota. Cinco rodadas de multiplicação:

CenárioPIB adicional em 10 anos
Conservador+15%
Central+25% a +35%
Forte+40% ou mais

Em valores atuais, com PIB de R$ 12 trilhões, o cenário central representa R$ 3 a R$ 4,2 trilhões a mais de produto anual ao fim do período.

Síntese

O spread alto é uma trava dupla: reduz a demanda hoje e impede o investimento que aumentaria a oferta amanhã. Os dois movimentos — bancos entre os mais rentáveis do mundo e indústria com participação no PIB pela metade em quarenta anos — não são coincidência estatística. São dois lados da mesma transferência estrutural de renda.

Com spread francês, o Brasil não teria apenas consumido mais. Teria reconstruído parte de sua base produtiva.

Nos próximos dias, vamos mostrar as razões que levaram a Selic a se amarrar ao câmbio e os spreads bancários baterem todos os recordes mundiais. E qual o caminho para romper com essa amarra.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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9 Comentários
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  1. fabricio coyote

    12 de maio de 2026 8:04 am

    concentração de renda. 60% das famílias endividadas. arrocho salarial de.servidores. propagandas de casas de apostas em horário nobre. não há planilha que transponha esse kaos.

  2. Jose Carlos

    12 de maio de 2026 11:14 am

    Sendo presidente da República Nassif, a primeira coisa que faria era baixar uma Medidia Provisória
    proibindo a cobrança de *Juros Compostos* em toda economia do país. Pedia ao Congresso uma
    mudança no código penal, atribuindo a cobrança de juros compostos crime contra a economia popular
    com penalidades de prisão. Cobrança, só multa no máximo a 2% e juros simples. Como já é estabelecido.
    Dentro dessa MP destinava diretamente proibição a “faturamento” de Cartão de Crédito, “fatura” de
    Cartão de crédito como a conhecemos, com fechamento do valor e cobrança de juros compostos seria
    proibida.

    A segunda coisa é lançar de vez o PIX, pré-datado. Com todos os instrumentos jurídicos para controle e
    otimização. Como registro em cartório, proteção de crédito, negociação em mercado como título e fundo de garantia
    para o comércio. Tipo os que as instituições já fazem, como o FGC do assalto ao Banco Central pelo
    banco Master e agora o uso de fundo pelo “Desenrola Brasil”. O pix pré-datado seria a libertação dos lojistas
    do país, e dos consumidores, com crédito barato. Não pagou o pix, tem o pix bloqueado, cobrança de multa
    de 2% e JUROS SIMPLES. O lojista recebe o valor através do fundo. Que poderia ser alimentado com a cobrança
    de 2% nessa modalidade. A própria operação já se financiava. 2% ou o percentual de inadimplência. Se a
    venda do pix-predatado tiver inadimplência de 5%, será 5% a taxação para o fundo.

    Só um Congresso Nacional e uma esquerda consciente e pensante poderia fazer as transformações que o Brasil
    precisa para sair dessa atoleiro que o neoliberalismo mantém a gente.

    1. WRamos

      12 de maio de 2026 1:29 pm

      Só não esqueça de um detalhe. Com a aplicação de juros simples, sua poupança e seus fundos previdenciários perderiam boa parte do seu valor real. Sem juro composto, não é possível recompor o poder de compra de um investimento. Alguém já dizia que para todo problema complexo existe sempre uma solução muito simples e totalmente errada.

  3. Gleisson

    12 de maio de 2026 11:15 am

    É muito difícil acreditar num governo que mente pra si mesmo e para o povo.Na gestão Campos Neto Lula fazia muitas críticas a taxa selic e parece que teve até pesquisa onde o povo apoiava essa critica.Depois que Lula indicou Galipolo a taxa está em 14%. Não tem como defender.De um lado uma taxa de juros que gera bilhões para os mais ricos.E o próprio governo acabou com a política de valorização do salário mínimo,reduziu a concessão do BPC,cortou milhões de trabalhadores do abono salarial, não cumpriu a promessa de campanha de rever a reforma trabalhista do golpista Temer. É muito difícil pra gente que tem memória apoiar mais um mandato desse governo.

  4. Paulo Dantas

    12 de maio de 2026 12:44 pm

    Foi lançada uma app para aplicação no Tesouro.

    Mais Dependência Química do Estado Brasileiro.

    Depois cumpal só o BC, não que eles sejam inocentes …

    🙂

  5. WRamos

    12 de maio de 2026 1:35 pm

    As análises do custo financeiro esquecem sempre uma jabuticaba muito apreciada por aqui. Os setores produtivos não arcam com o custo financeiro da mesma forma que não arcam com os tributos, eles os repassam para seus preços aos elos seguintes da cadeia, que também o fazem. Tudo acaba no preço cobrado do consumidor. É o que explica a necessidade de inflação mais alta e exigência de taxas elevadas para acomodar variações dentro da cadeia. Se considerado o efeito de aumento de custo de vida decorrente do custo financeiro contido nos preços, o efeito multiplicador da renda sobre a produção será muito maior do que o estimado no artigo.

  6. Anônimo

    13 de maio de 2026 7:52 am

    Com o fantástico desempenho atual, creio que Galipolo será disputado pela banca quando acabar seu mandato.
    Lula reeleito pode indicar o Nassif para o BC.Ou o Genoino,

  7. emerson57

    13 de maio de 2026 8:21 am

    Alguem sabe porque o “Tesouro Reserva” ainda não foi implantado?
    Terá o lobby dos bancos conseguido derrotar a proposta?

  8. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    18 de maio de 2026 7:21 am

    Sendo a nossa elite jurássica, a explicação possa ser atribuida a hipótese de que as galinhas sejam descendente dos dinossauros.

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