5 de junho de 2026

Onde há gás, há caos, por Bianca Dieile da Silva

O maior número de mortes causadas por intoxicação acidental de gases e vapores está no Sudeste, com especial atenção para São Paulo.
Reprodução

Explosão em São Paulo evidencia riscos das redes de gás natural, que causam mortes e danos em áreas urbanas.
Gás natural é fóssil, poluente e potente gás de efeito estufa, responsável por 30% do aquecimento global atual.
Brasil planeja aumentar 95% a produção de gás natural até 2035, ampliando riscos e impactos ambientais e urbanos.

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Onde há gás, há caos

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por Bianca Dieile da Silva

Poucos sabem, mas gás vem da palavra caos. A explosão em São Paulo, que destruiu muitas casas, feriu e matou pessoas, nos lembra da existência de uma rede de gás inflamável que invadiu nosso subterrâneo. Um gás que pode explodir passando por baixo de cidades e casas nunca me pareceu uma boa ideia. Isso é uma consequência da expansão das redes de combustíveis fósseis — sim, o gás, embora seja chamado de natural, é fóssil, poluente e perigoso. Esse gás nunca estaria tão próximo de nós se não o tivéssemos retirado do solo e distribuído por aí, em sistemas de tubulações e bombas que sempre vazam e, por vezes, explodem.”

Eu vivi muito tempo no Rio de Janeiro, e era comum o cheiro de gás na entrada dos prédios. Houve um tempo em que eram comuns na cidade até mesmo explosões de bueiros, comprovando sua invisível capacidade de nos colocar em risco de morte, seja pelas explosões, seja pelo subproduto da sua queima: o venenoso monóxido de carbono. Um produto que às vezes mata rápido, por vezes lentamente, mas que é sempre venenoso 

O número de mortes associadas tanto às explosões quanto aos envenenamentos por monóxido de carbono acompanha a expansão das redes de distribuição de gás natural. No Brasil, o maior número de mortes causadas por intoxicação acidental de gases e vapores está no Sudeste, com especial atenção para São Paulo, onde temos sua maior circulação.

Outra questão é a sua capacidade de piorar o cenário climático. Sim, o gás natural, mesmo emitindo menos dióxido de carbono na sua queima quando comparado ao petróleo, já é considerado um vilão. O metano, principal componente do gás natural, é um potente gás de efeito estufa e já é responsável por pelo menos 30% das alterações sentidas até agora na temperatura global, com poder de aquecimento mais de 80 vezes superior ao dióxido de carbono em um horizonte de 20 anos. Em um momento como este, em que discutimos como evitar um cenário mais crítico das mudanças climáticas, muitos ainda relutam em admitir que ele é fóssil e perigoso.

No Brasil, continuamos fomentando, com muitos subsídios e dinheiro público, a expansão das estruturas de gás natural, desde a sua extração até a sua queima nas termelétricas. A ampliação anda a todo vapor. Segundo o Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, haverá um aumento de 95% no volume da produção líquida de gás natural. Isso nos levará a uma sobra na produção de gás. Vale lembrar que hoje já queimamos ou reintroduzimos enormes quantidades de gás natural nos campos do pré-sal. E há muita incerteza; eu me arrisco a dizer que ninguém sabe realmente se este gás fica no subsolo para sempre, nestas chamadas reinjeções. Assim, uma vez que extraímos este gás, não temos muito como voltar atrás. E ele vai parar embaixo das nossas cidades, onde o planejamento urbano pouco reflete sobre estes riscos escondidos.

Assim se criam os acidentes fatais. Vimos um deles acontecer em São Paulo esta semana, mas eles ocorrem com uma frequência aterrorizante nos postos de abastecimento de veículos, nos gasodutos e até nos fogões que esquecemos ligados pelo país. Parece que o erro é sempre das pessoas: das que perfuram onde não deviam ou das que não operam seus aquecedores e fogões da maneira devida.

Eu me questiono se não podemos dividir esta responsabilidade com aqueles que continuam nos impondo uma forma de energia já ultrapassada e perigosa — vendida como combustível-ponte — e também com os responsáveis pelo planejamento urbano. Não me convenço de que o gás seja uma boa opção só porque ele emite menos poluentes na sua queima, quando comparado ao petróleo, sem contabilizar as emissões fugitivas e os acidentes cada vez mais frequentes.

Gostaria de ver cidades mais seguras e de uma transição energética real que não mantivesse esse inebriante cheiro de gás.

Bianca Dieile da Silva é Pesquisadora em Saúde Pública – Fiocruz e colaboradora da Rede BrCidades.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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