23 de junho de 2026

A universidade em greve: quem sustenta o saber quando o silêncio se rompe?, por André Oliveira

Na USP, onde se produz conhecimento de ponta, também se reproduzem formas sofisticadas de exploração. O contraste é gritante.
USP - Divulgação

A greve na USP expõe precarização do trabalho e desigualdades entre docentes, técnicos e terceirizados na universidade.
Bolsistas de pós-graduação não têm direitos trabalhistas, enquanto técnicos-administrativos lutam por valorização e salários justos.
Estudantes apoiam greves, rompendo isolamento e defendendo uma universidade pública com justiça social e trabalho coletivo.

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A universidade em greve: quem sustenta o saber quando o silêncio se rompe?

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por André Augusto Araújo Oliveira

A greve nas instituições de ensino superior não é apenas uma interrupção de calendário; é, antes de tudo, uma fissura que revela o que a rotina acadêmica insiste em esconder: a precarização do trabalho, a hierarquização dos saberes e a naturalização de desigualdades que atravessam corpos e trajetórias. Quando docentes, técnicos e trabalhadores terceirizados cruzam os braços, não se suspende apenas o funcionamento da universidade, suspende-se a ilusão de que ela é um espaço neutro, imune às contradições do mundo do trabalho. A universidade, nesse momento, deixa de ser vitrine de excelência e se expõe como território em disputa.

Na Universidade de São Paulo, uma das maiores e mais prestigiadas instituições da América Latina, essa tensão ganha contornos ainda mais emblemáticos. Ali, onde se produz conhecimento de ponta, também se reproduzem formas sofisticadas de exploração. O contraste é gritante: enquanto a universidade projeta inovação, muitos dos que a sustentam, do trabalhador terceirizado ao pesquisador em formação, vivem sob condições instáveis, invisibilizadas e, muitas vezes, naturalizadas como parte do “caminho acadêmico”.

É nesse cenário que a pergunta “quanto vale o trabalho sob regime CLT?” se torna menos jurídica e mais política. A Consolidação das Leis do Trabalho, frequentemente tratada como um piso mínimo de direitos, passa a ser, paradoxalmente, um horizonte inalcançável para muitos dentro da universidade. Bolsistas de pós-graduação, por exemplo, não são reconhecidos como trabalhadores, apesar de cumprirem jornadas intensas, produzirem conhecimento e sustentarem boa parte da pesquisa nacional. Não têm férias, 13º salário, previdência ou estabilidade. São, em essência, trabalhadores sem direitos, capturados por uma lógica que romantiza a precariedade como vocação.

Mas é impossível falar de universidade sem nomear aqueles que garantem sua materialidade cotidiana: os profissionais técnico-administrativos. São eles que sustentam o funcionamento invisível das engrenagens institucionais: bibliotecas, laboratórios, secretarias, sistemas acadêmicos. O pleito por um plano digno de cargos e salários não é uma reivindicação corporativa isolada; é uma exigência estrutural por reconhecimento, valorização e justiça. Quando esses trabalhadores reivindicam melhores condições, não estão apenas lutando por si; estão defendendo a própria possibilidade de uma universidade pública que funcione com qualidade, continuidade e respeito.

Ignorar essa pauta é perpetuar uma lógica perversa em que o conhecimento é celebrado, mas o trabalho que o sustenta é desvalorizado. A ausência de políticas salariais justas, a defasagem de carreiras e a sobrecarga silenciosa corroem não apenas os corpos desses trabalhadores, mas a própria capacidade institucional de responder às demandas sociais. A universidade que não valoriza seus técnicos-administrativos compromete sua missão pública.

Nesse contexto, o papel do corpo discente, tanto da graduação quanto da pós-graduação, torna-se central. Não como espectadores passivos de um conflito alheio, mas como sujeitos políticos implicados. Apoiar as greves dos servidores técnico-administrativos e, quando oportuno, dos docentes, é reconhecer que a formação acadêmica não se dá apenas em sala de aula, mas também na construção de uma consciência crítica sobre o trabalho, os direitos e as estruturas que sustentam o saber.

A universidade ensina, muitas vezes de forma silenciosa, que o mérito se constrói na exaustão e que a precariedade é um rito de passagem. Mas a greve rompe esse ciclo ao reintroduzir o coletivo onde antes havia fragmentação. Ao se somarem às mobilizações, estudantes tensionam essa lógica individualizante e afirmam que o conhecimento não pode ser produzido à custa da exploração.

A pós-graduação, por sua vez, opera como um dispositivo ambíguo. Ao mesmo tempo em que se apresenta como espaço de aprofundamento crítico, também atua como agente individualizador. A lógica produtivista pautada em métricas, publicações e desempenho individual, fragmenta coletividades e enfraquece a capacidade de organização política. Cada pesquisador se torna uma ilha, disputando editais, bolsas e reconhecimento. E, nesse cenário, o apoio às greves se torna ainda mais desafiador e, por isso mesmo, mais necessário.

Quando estudantes de graduação e pós-graduação se posicionam ao lado dos trabalhadores da universidade, algo se desloca. A solidariedade rompe o isolamento, a política atravessa os corredores e a universidade se reconecta com sua dimensão pública. Apoiar a greve é, portanto, um ato pedagógico e político: é aprender, na prática, que direitos não são concedidos;  são conquistados coletivamente.

Falar de greve na universidade é, portanto, falar de projeto de país. É questionar se queremos uma educação superior sustentada pela precarização ou comprometida com justiça social. É perguntar se o conhecimento deve servir à reprodução de desigualdades ou à sua superação. E, sobretudo, é afirmar que não há excelência possível quando aqueles que produzem e sustentam o saber são tratados como invisíveis.

No fim, a greve não é o problema. Ela é o sintoma e também o anúncio de que algo precisa mudar. E talvez, mais do que nunca, seja também um chamado: para que a universidade deixe de ser apenas um espaço de formação individual e se torne, de fato, um território de construção coletiva.

André Augusto Araújo Oliveira é assistente social, doutorando em Arquitetura e Urbanismo pela USP, mestre em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Social pela UCSal, integrante e coordenador da Rede BrCidades e coordenador do MTST na Bahia.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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