O corpo que trabalha também sofre: a NR-1 e o cuidado negroindígena no chão da fábrica
por Keâ Costa
A nova abordagem da NR-1 exige olhar para além do ambiente laboral, reconhecendo que sofrimento, racismo e desigualdade estruturam a experiência de quem sustenta o trabalho no Brasil.
Trago aqui uma cena que é, ao mesmo tempo, narrativa e método. Uma escrevivência no sentido proposto por Conceição Evaristo, onde a experiência vivida se torna fundamento de produção de conhecimento e afirmação de um tipo de cognição negroindigena.
Minha tia Cidinha me contou que, quando ainda era uma jovem adulta, após sofrer violência de seu companheiro, passou a noite em claro. Ainda assim, no dia seguinte, seguiu para o trabalho. No chão da fábrica, seu corpo denunciava o que a linguagem ainda não dava conta: o cansaço extremo, a atenção fragilizada, o risco iminente. Ao reconhecer isso, pediu para ser deslocada para uma máquina menos perigosa.
A gestão acolheu o pedido. Mas o corpo continuava a falar. Suas pernas bambearam. Foi então que sua chefe, ao perceber sua condição, a orientou a ir ao banheiro descansar, dormir um pouco, e só depois retornar.
Essa cena revela aquilo que a saúde do trabalhador já vem apontando: o trabalho não pode ser analisado de forma dissociada da vida. O sofrimento psíquico e as violências vividas fora do ambiente laboral atravessam o corpo e se manifestam durante a jornada de trabalho, impactando diretamente a segurança e a saúde.
A implementação da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), ao instituir o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), amplia a compreensão dos riscos ocupacionais ao incluir os fatores psicossociais como elementos centrais na produção de saúde e adoecimento no trabalho (BRASIL, 2020). No entanto, para que essa diretriz se efetive no contexto brasileiro, é fundamental reconhecer quem são os sujeitos que sustentam o trabalho, majoritariamente pessoas negroindígenas, historicamente atravessadas por processos de exploração, desvalorização e violência estrutural. Essa realidade está bem fundamentada nas obras de intelectualidades brasileiras consagradas como Lélia Gonzales e Clóvis Moura.
A população historicamente desterrada e empurrada às margens da sociedade brasileira é a população negroindígena, a mesma que, ainda hoje, ocupa majoritariamente o chão da fábrica capitalista, sustentando com seus corpos a engrenagem da produção.
No entanto, ao olharmos para a realidade da população negroindígena, é necessário aprofundar essa análise. Como nos aponta Neusa Santos Souza (1983), a experiência negra no Brasil é marcada por um processo contínuo de violência simbólica e material que afeta a constituição subjetiva. Lélia Gonzalez (1988), por sua vez, evidencia como o racismo e o sexismo estruturam as condições de vida, especialmente das mulheres negras, que ocupam, em sua maioria, posições precarizadas no mundo do trabalho.
Nesse sentido, a experiência de Cidinha não é um caso isolado, mas expressão de uma condição coletiva. Seu corpo carrega não apenas o cansaço de uma noite sem dormir, mas também as marcas de uma história social que incide diretamente sobre sua saúde.
Como nos ensina Antônio Bispo dos Santos, a favela pode ser compreendida como quilombo, e o quilombo como espaço de confluência entre matrizes africanas e pindorâmicas. Trata-se de territórios onde, apesar das violências estruturais, a vida se reorganiza a partir de saberes ancestrais, produzindo modos próprios de existir, resistir e reexistir.
Há um encontro profundo entre saberes e modos de ser dos povos africanos e dos povos originários de Pindorama. Esse encontro, que compreendemos como confluência, dá origem a um outro tipo de pessoa, a uma outra forma de cognição, que se manifesta no cotidiano da vida brasileira: nos modos de comer, beber, celebrar, sofrer, amar e até mesmo nos conflitos que atravessam a existência.
Essa sabedoria, que transborda e se mantém viva na experiência negroindígena, segue sendo tensionada e, muitas vezes, bloqueada pelas estruturas da branquitude.
Nesse sentido, torna-se urgente afirmar um outro caminho de cuidado: um cuidado capaz de ativar essa força ancestral e reconhecer a ciência afroindígena como fundamento legítimo para a promoção da saúde integral e coletiva de nossa gente brasileira. Trata-se de sustentar a vida a partir das sabedorias que constituem o próprio povo brasileiro, forjado na confluência das epistemologias afropindorâmicas.
É nesse ponto que a psicologia, a partir de uma perspectiva afropindorâmica, propõe um deslocamento epistemológico. Ao articular conceitos como ancestralidade, território e espiritualidade, aproxima-se da noção de Muntu, compreendida como o ser-pessoa em movimento espiralar.
A noção de Muntu tem sido desenvolvida por pensadores como Kimbwandende Kia Bunseki Fu-Kiau, em território africano. No Brasil, encontra ressonância nas formulações de Basilele Malolo e Abrahão Oliveira Santos, que compreendem a pessoa como um ser constituído nas e pelas relações com a comunidade, com a natureza e com a história.
Nessa direção, o sofrimento deixa de ser individualizado e passa a ser entendido como expressão de uma rede viva de relações, tensionada por forças históricas, territoriais e cosmológicas.
A escuta aterrada, nesse contexto, emerge como uma prática metodológica fundamental. Trata-se de uma escuta que reconhece o trabalhador em sua totalidade, considerando não apenas sua função produtiva, mas também suas condições de existência.
Essa perspectiva dialoga com o campo da saúde do trabalhador ao tensionar a lógica produtivista e propor uma abordagem centrada na vida daqueles que estão no chão das fábricas.
A cena de Cidinha também nos permite compreender que, para além de iniciativas individuais, é necessário que as organizações desenvolvam estruturas institucionais de cuidado. A NR-1, ao prever a gestão de riscos psicossociais, oferece um caminho possível, mas que precisa ser ampliado a partir de uma leitura crítica da realidade brasileira, compreendendo as cosmopercepções que permanecem historicamente bloqueadas na vida negroindígena brasileira.
Incorporar metodologias de cuidado afropindorâmicas à gestão do trabalho implica em reconhecer o racismo como fator de risco psicossocial; criar espaços de acolhimento e escuta no ambiente laboral; valorizar saberes ancestrais como tecnologias de cuidado; compreender o corpo como território de memória e expressão do sofrimento.
Assim, a promoção de saúde no trabalho deixa de ser apenas uma exigência normativa e passa a ser um compromisso ético-político com a vida daqueles que sustentam a produção. O corpo não se divide entre vida e trabalho. Ele atravessa ambos, carregando histórias que precisam ser escutadas.
Keâ Costa — pessoa negroindígena, psicólogo e doutorando em Psicologia pela UFF, mestre em Serviço Social pela PUC-Rio e especialista em Saúde Mental pelo IPUB/UFRJ. Possui dez anos de atuação na APS e na RAPS no Rio de Janeiro. Desenvolve pesquisas e práticas em saúde mental afroindígena, articulando saberes científicos, ancestrais e comunitários, e integra o Kitembo (UFF). Criador da proposta de Interação Terapêutica Afropindorâmica, foi premiado pelo CFP (2024). Colaborador da Rede BrCidades.
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