Marcelo e Otávio: sementes de luta no cerrado palmense
por Giovanna Ferreira Lima
Convidamos o caro leitor e a cara leitora a fazer uma viagem imaginária à cidade de Palmas, no Tocantins, em seu momento anterior à urbanização: para visualizar o cenário, coloque diante de si uma cidade incutida entre uma serra e um lago, localizados no centro do estado. Palmas era cerrado puro — pequizeiros, pés de baru, murici, enfim, vegetação nativa e resistente, como todo fruto do cerrado o é.
Em 1989, o cenário imaginado inicia o processo de instalação do que foi delimitado para si. Para viabilizar o projeto, áreas e mais áreas foram cedidas à iniciativa privada. Nessa dinâmica, os moradores da região se fazem trabalhadores na construção dessa empreitada e, como gratificação, recebem a expulsão. Seus novos lares passam a ser as margens da cidade. Desde então, as roupagens foram mudando, mas o cenário de desigualdade social profunda persiste. Um exemplo atual e claro é o Morro do Água Fria.
Agora, precisamos retornar ao exercício de visualização: na parte oeste da cidade, fica o lago; quando vamos a noroeste, temos acesso a uma região de alta especulação imobiliária, tendo em vista que, além do acesso ao lago, essa porção norte está mais aproximada do centro. Nessa localidade, nas proximidades do setor Água Fria, até o final dos anos 1990 funcionou um aterro sanitário em uma área de morro. Por volta de 2019, no contexto da pandemia de Covid-19, estabelece-se uma ocupação nesse morro, formada por trabalhadores que também se viram expulsos pela lógica neoliberal de Palmas — a única cidade do Brasil em que mais de 40% da população mora de aluguel, alcançando 43% em 2022, segundo dados do IBGE.
Apesar da proximidade com o centro da cidade, o Morro não recebe o mínimo de infraestrutura básica, como água encanada ou energia regular. De fato, conforme os dizeres de Ermínia Maricato, seus moradores vivem em uma Palmas ilegal. Porém, mesmo nesse contexto, como firmes aroeiras — aqui pelo Toca, quando queremos dizer que alguém é forte, o chamamos de aroeira —, as lideranças comunitárias fazem um papel essencial de organicidade e de questionamento das estruturas impostas.
Convidamo-vos a conhecer Marcelo Rodrigues e Otávio da Silva. Eles se apresentam da seguinte forma:
Marcelo:
Meu nome é Marcelo Rodrigues. Sou formado em jornalismo pela Universidade Federal do Tocantins. Atualmente, estou como presidente da Associação de Moradores da Chácara 13. Também atuo como conselheiro deliberativo do Conselho das Associações Comunitárias e Entidades de Palmas (COMAM) e como membro do Conselho de Segurança da região norte de Palmas (CONSEG). Hoje, com 25 anos, sou considerado um dos presidentes de associação mais novos de Palmas.
Otávio:
Meu nome é Otávio da Silva. Tem 6, 7 anos que moro aqui na comunidade, e a gente criou um projeto chamado Pai Aço e os Filhos do Morro. Esse projeto surgiu porque eu sempre vi que na comunidade faltavam muitas coisas. Primeiro, porque aqui a gente não tem infraestrutura, saneamento básico, nada de utilidade pública, nem qualquer tipo de lazer para as crianças e para os jovens.
Por eu ter meu menino, e minha casa sempre ter sido frequentada por crianças, eu via essa necessidade de poder fazer algo por elas. Lá no início, antes mesmo de ter o projeto, eu ensinava as crianças a ler, sabe? Depois as coisas foram melhorando, principalmente com a chegada dos profissionais — professores voluntários que vêm dar aulinha de capoeira e de jiu-jitsu toda semana.
Quando questionado sobre como as articulações de Marcelo impactam a vida de quem habita o morro, Otávio é direto: “Se não tiver aqui uma associação igual à que o Marcelo toca pra representar a gente, a comunidade fica sem voz. É super importante ter alguém assim, correndo atrás desses detalhes de suma importância, porque sem regularização de energia, de água, da comunidade em si, as coisas não fluem, entendeu?”
Já Marcelo, ao comentar sobre a movimentação cultural promovida por Otávio e seus impactos na vida de quem habita o morro, destaca: “O Otávio desempenha um fator social muito grande aqui no setor. Ele teve essa iniciativa mesmo de cadeira de rodas, mesmo com todas as limitações, mas foi ele quem criou o projeto e sempre continuou. Ele vem mostrando o acolhimento por meio do esporte e também da educação. Tem uma biblioteca aqui, onde as crianças podem ler, e eu já vi crianças participando de campeonatos estaduais.
Ele também tem essa preocupação com a alimentação. Todas as vezes que tem atividade, é ele quem garante o que comer para as crianças. Ele tá salvando toda uma geração, né? É um trabalho muito lindo, porque essas crianças talvez tivessem um futuro mais triste, mais cruel — e ele dá a elas a oportunidade de sonhar.”
Os desafios impostos aos dois são muitos, pois os interesses especulativos que circundam a região afogam os moradores do Morro em um rio de inseguranças e preocupações, sejam mediatas (quando finalmente teremos a regularização?) ou imediatas (será que eu e meu filho teremos água em casa amanhã?).
O capital extrai da classe trabalhadora periferizada todo o seu vigor e se apropria dos elementos que constituem uma vida minimamente sadia e tranquila. Para tanto, o direito atua como um mecanismo de manutenção de desigualdades; é preciso ter essa compreensão para que a insurgência popular mantenha uma incidência sólida.
Assim eles têm feito: nos limites do capital, Marcelo e Otávio se mobilizam insistentemente para que as mulheres, os homens e as crianças do Morro tenham possibilidades e acessos, de modo que o território passe a representar menos um local de insegurança e mais um lugar que remonta a lutas (plantio), partilhas (germinação) e conquistas (colheitas).
A eles — e a todas as lideranças comunitárias do Brasil —, nosso reconhecimento: sementes de luta que seguem germinando nas margens das cidades.
Giovanna Ferreira Lima é graduada em Direito pela Universidade Federal do Tocantins e mestranda em Desenvolvimento Regional na mesma instituição, com pesquisa focada em direito insurgente e resistências no contexto urbano de Palmas (TO). Na rede BR Cidades, coordena o núcleo Tocantins e compõe o Conselho Nacional. Faz parte, também, da Secretaria Nacional do Instituto de Pesquisa, Direitos e Movimentos Sociais (IPDMS).
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
AMBAR
28 de abril de 2026 1:14 pmCerrado é pré deserto. Desmatou, já era, o que não quer dizer que o seu subsolo não encerre grandiosas riquezas.
Sendo assim, Palmas para o capital. O Capital faz a sua “reforma agrária” tomando tudo o que acha que é seu, derrubando animais, plantas e pessoas para a passagem do “progresso”. Rigorosamente bíblica essa filosofia segue os preceitos de que “àquele tem, mais será dado, daquele que não tem, do pouco que tiver lhe será tirado”, se assim não fosse Jesus não afirmaria que “os pobres, vós sempre os tereis convosco.” E, que bom que pobre odeia o comunismo, inveja e admira os ricos e contribui para a grandeza dos parasitas