Um surto de catapora tem se espalhado pelos acampamentos de deslocados na Faixa de Gaza, agravando a já delicada situação humanitária enfrentada pela população. A doença, altamente contagiosa, afeta principalmente crianças e se dissemina em áreas onde milhares de pessoas vivem em barracas improvisadas, sem acesso adequado à água potável, saneamento básico e condições de higiene.
Entre os casos está o da menina Ruba Saadeh, de oito anos, que permanece confinada na barraca onde vive com a família, em Khan Yunis, no sul de Gaza. Coberta por bolhas provocadas pela doença, ela recebeu orientação médica para permanecer isolada por cerca de 20 dias — uma recomendação considerada impraticável diante da superlotação dos abrigos.
Segundo familiares, até 20 pessoas podem dividir uma única barraca, tornando impossível separar os doentes dos demais moradores. Além da falta de espaço, o abastecimento irregular de água e a escassez de produtos de higiene dificultam o controle da transmissão.
Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) apontam que mais de 9,3 mil casos suspeitos de catapora foram registrados no início de julho, concentrados principalmente em Khan Yunis, considerada uma das áreas mais densamente povoadas do território.
Especialistas alertam que a doença se transmite pelo ar e exige isolamento dos pacientes para evitar novos contágios. No entanto, médicos que atuam na região afirmam que essa medida é praticamente inviável nas atuais condições dos campos de deslocados.
Além da catapora, profissionais de saúde relatam aumento de outras enfermidades associadas às precárias condições sanitárias, como infecções respiratórias, diarreia, doenças de pele, sarna, piolhos e infestações por pulgas.
Imagens registradas na região mostram água parada, acúmulo de lixo e crianças caminhando descalças entre as barracas. Moradores afirmam que recebem água apenas uma vez por semana e que, muitas vezes, ela é salobra e inadequada para higiene.
Para muitas famílias, até cuidados básicos se tornaram inacessíveis. Sem renda e diante da escassez de produtos essenciais, moradores relatam dificuldades para adquirir sabão, xampu e materiais de limpeza. Crianças também convivem com a presença constante de ratos e outros animais nos acampamentos improvisados.
Organizações humanitárias alertam que o surto de catapora reflete o agravamento da crise de saúde pública em Gaza. O sistema de saúde local, fortemente afetado pelos quase dois anos de conflito entre Israel e o Hamas, enfrenta falta de medicamentos, equipamentos e capacidade para atender ao aumento da demanda.
Representantes da ONU defendem a ampliação da entrada de ajuda humanitária e de insumos médicos, além da criação de condições que permitam reduzir a superlotação dos acampamentos. Segundo as entidades, enquanto persistirem a falta de infraestrutura, saneamento e moradia adequada, surtos de doenças contagiosas continuarão representando uma ameaça à população deslocada.
*Com informações da AFP.
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