Casos de agressão entre alunos, conflitos com professores, bullying e ameaças crescem em diferentes países. Para debater respostas baseadas em evidências e políticas públicas eficazes, pesquisadores de oito nações reuniram-se no 1º Seminário Internacional do Centro de Ciência para o Desenvolvimento da Educação Básica, Aprendizagens e Convivência Escolar (CCDEB), realizado em 18 e 19 de maio.
Na abertura, a diretora do CCDEB, Marilene Proença Rebello de Souza, ressaltou que o grupo existe para produzir conhecimento científico capaz de orientar políticas voltadas à aprendizagem, à convivência e ao enfrentamento da evasão, da medicalização e da violência. “Não existe aprendizagem sem um ambiente acolhedor e livre de violência. Muitas políticas bem desenhadas falham na implementação e na avaliação. É preciso acompanhar os resultados e saber o que precisa ser ajustado.”, completou a vice-diretora Daniele Quirino.
Sintoma estrutural
O destaque do primeiro dia foi a palestra de Alonso Bezerra de Carvalho, professor da Unesp e pesquisador principal do CCDEB. Ele apresentou levantamento divulgado em maio pelo sindicato Apeoesp mostrando que 97% dos servidores da educação paulista associam seu sofrimento emocional ao trabalho, com ansiedade, síndrome do pânico, depressão e distúrbios do sono como principais queixas.
Para Carvalho, esse adoecimento não é fraqueza individual. É sintoma de um colapso estrutural que “transforma docentes em meros cumpridores de metas e coloniza sua subjetividade”. A lógica vigente, segundo ele, desvaloriza saberes populares, indígenas e afro-brasileiros e reprime emoções, tanto dos alunos quanto dos professores.
“O aluno que se agita é hiperativo, o que se entristece é depressivo. O professor que se indigna é descompensado”, afirmou. “A escola desconfia das emoções e se transforma em espaço de controle. A alegria de aprender é substituída pela obrigação de produzir resultados.”
Esse ambiente, onde a competitividade substitui a solidariedade, gera terreno fértil para violência, bullying e ataques extremos.
Cidadania mutilada
Carvalho também criticou o modelo de formação cidadã produzido por essa escola. “Ensina-se o respeito à lei, mas não a indignação diante da injustiça. Promove-se a tolerância passiva, mas não a solidariedade ativa. O resultado é uma formação que prepara espectadores, não protagonistas da vida democrática.”
Como alternativa, o pesquisador propõe uma educação decolonial das paixões, que reconheça raiva, tristeza, alegria e indignação como forças políticas e pedagógicas, canalizando-as para a ação coletiva em vez de silenciá-las com punições administrativas. Conflitos de racismo, por exemplo, deveriam ser trazidos ao centro do debate: “É ouvir a dor da vítima, a confusão do agressor e o silêncio da plateia, transformando a paixão triste em ação política alegre e consciente.”
Ciência
O CCDEB funciona como rede colaborativa entre pesquisa acadêmica e gestão pública, reunindo 240 pesquisadores do Brasil e de Angola, Cuba, República Dominicana, Argentina, México, Costa Rica, Portugal e França. O centro é fruto de parceria entre USP, Unesp, Fundação Carlos Chagas e a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.
Marco Antonio Zago, presidente da FAPESP, lembrou que os Centros de Ciência para o Desenvolvimento nascem do diálogo entre a Fundação e gestores públicos para enfrentar problemas reais com base científica. São 83 centros ao todo, com investimento direto de R$ 571 milhões e contrapartidas que chegam a quase R$ 1 bilhão ,”o maior programa de políticas públicas do país”, segundo Zago. Na área da educação, cinco CCDs já foram aprovados, com aporte de R$ 27 milhões da FAPESP.
*Com informações da Agência Fapesp.
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