E o cinema brasileiro?, por Izaías Almada
O atual sarilho envolvendo o cinema “brasileiro” com a co-produção de um filme que tem o título em inglês (Dark Horse), uma co-produção com os EUA, transforma parcialmente o cenário cultural e político brasileiro em uma briga de mafiosos.
Em inglês “Dark Horse” tem o significado do nosso azarão em português, ou seja, aquele tipo de cavalo de corrida que nunca venceu uma e já ninguém aposta nele até o dia que ele vence e faz milionários os que nele acreditaram. Que bela coincidência, não?
O trailer do filme mostrado em algumas das redes sociais deixa a impressão que a vitória das eleições presidenciais de 2018 foi vencida pelo azarão Jair Bolsonaro, cujo governo, de fato, fez inúmeros milionários no Brasil: um deles, inclusive, ajudou a financiar a produção do filme que, em reais, é de 134 milhões, ao redor de 24 milhões de dólares.
Essa maracutaia envergonha momentaneamente o cinema nacional, que tem um cenário de grandes filmes e orçamentos justos ou até aquém do necessário.
Os divertidos musicais da Atlântida, por exemplo, com Oscarito e Grande Otelo, os filmes de Mazaroppi em São Paulo. A força do Cinema Novo nos anos 1960 e 70, onde grandes talentos surgiram até chegarmos aos dias atuais.
Produções como “Aviso aos Navegantes”, “As Aventuras de Pedro Malasartes”, “Todas as Mulheres do Mundo”, “Que horas ela volta?”, “Dois Coelhos”, “Vidas Secas”, “O Ano em que Meus Pais saíram de Férias”, “O Auto da Compadecida”, “Cidade de Deus”, “Lavoura Arcaica”, “Central do Brasil”, “À Meia Noite Levarei sua Alma”, “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, “O Dragão da Maldade e o Santo Guerreiro”, “Ainda Estou Aqui”, “O Agente Secreto” formam um conjunto, ainda que modesto, de obras primas do cinema brasileiro.
Ao contrário de nos preocuparmos com o “azarão”, deveríamos apoiar cada vez mais a produção nacional de cinema onde, para dar apenas dois pequenos exemplos entre muitos outros, dois roteiros esperam há algum tempo para conseguir produtores e apoiadores: “A Volta de Zé do Caixão” (Maristela Filmes e “Carlos Gomes, um Gênio da Ópera”, ainda sem produtora.
Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.
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