23 de junho de 2026

Auditoria da Cedae aponta que Banco Master era inelegível para receber investimento

Relatório interno revela reuniões anteriores à data informada à CVM, negociações mantidas em sigilo e prejuízo superior a R$ 222 milhões para a estatal
Fachada do Banco Master, em São Paulo. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Auditoria da Cedae aponta que Banco Master não atendia critérios para investimento de R$ 200 milhões em 2023.
Regras de investimento foram alteradas para aceitar perfil do Banco Master, e negociações ocorreram em sigilo.
Prejuízo de R$ 222 milhões ocorreu após calote e liquidação extrajudicial do Banco Master em novembro de 2025.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

O Banco Master não atendia aos critérios exigidos pela política de investimentos da Cedae quando as negociações para um aporte de R$ 200 milhões tiveram início. A conclusão é de uma auditoria interna da companhia, que aponta ainda que as regras foram alteradas meses depois para permitir exatamente o perfil da instituição financeira, e que as tratativas foram conduzidas em sigilo pela diretoria financeira.

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O documento foi encaminhado pelo presidente da Cedae, Rafael Rolim, à diretoria da estatal com recomendação de envio aos órgãos de controle, como o Tribunal de Contas do Estado (TCE) e o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). A auditoria foi aberta pela atual gestão após a perda dos recursos investidos no banco, que gerou prejuízo superior a R$ 222 milhões.

Segundo o relatório, em julho de 2023 a diretoria financeira da Cedae recebeu do Banco Master suas demonstrações financeiras e um relatório de risco emitido pela agência Fitch com nota “BBB-“, datado de novembro de 2021. À época, a política de investimentos da estatal, aprovada em março de 2023, exigia classificação mínima de “A-” e avaliações de pelo menos duas agências independentes.

Para os auditores, os próprios documentos enviados pelo banco já demonstravam de imediato que a instituição não preenchia os requisitos. “O procedimento padrão de governança exigiria a desqualificação imediata da instituição”, registra o relatório.

Em vez de encerrar o processo, a diretoria financeira conduziu mudanças nas regras. Em agosto de 2023 foi aberto o processo para elaboração de uma nova versão da política de investimentos. Em setembro, a versão revisada foi aprovada, com redução das exigências sobre agências de rating e a criação de uma faixa de risco que passou a aceitar instituições classificadas entre “BBB+” e “BBB-“, perfil exato do Banco Master.

“Apenas dois meses antes, os mesmos documentos atestavam a inelegibilidade do Banco Master frente à política vigente”, conclui o relatório.

CVM

A investigação também questiona a cronologia oficial apresentada pela Cedae ao mercado. Por meio dos registros do sistema de catracas da sede da companhia, os auditores identificaram uma reunião realizada em 17 de maio de 2023 entre representantes do Banco Master e integrantes da Diretoria Financeira e de Relação com Investidores, mais de um mês antes do contato que havia sido comunicado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) como sendo o primeiro encontro formal entre as partes.

A versão enviada ao órgão regulador indicava que o contato inicial ocorreu em 27 de junho de 2023, quando uma representante do banco enviou um e-mail solicitando orientações para cadastramento junto à Cedae. Os registros de acesso contradizem essa versão.

Os auditores também identificaram uma viagem do então diretor financeiro Antonio Carlos dos Santos a São Paulo, em junho de 2023, para reunião com Maurício Quadrado, então co-CEO do Banco Master, com pauta de produtos financeiros e oportunidades de investimento.

Negociações

Ao longo de mais de 20 páginas, o relatório sustenta que todo o processo foi conduzido de forma fechada. As negociações tiveram início com reuniões presenciais em maio de 2023, avançaram com encontros em junho e julho e culminaram na alteração das regras em setembro, sem que outros setores da companhia fossem adequadamente informados.

“Toda esta negociação levada a cabo pela Diretoria Financeira e de Relação com Investidores permaneceu em sigilo”, afirma o documento. Segundo os auditores, foi apenas quando outras áreas tomaram conhecimento da operação que começaram a surgir alertas sobre o risco reputacional do banco e a exposição da estatal. O Conselho de Administração e o Comitê de Auditoria receberam a proposta de alteração das regras sob a justificativa de diversificação da carteira e aumento de rentabilidade, sem elementos para prever que as mudanças serviriam para viabilizar uma operação específica.

Calote

A segunda parte da auditoria analisa a condução do investimento após a aplicação dos recursos. A partir de 2025, diferentes áreas da Cedae passaram a emitir alertas sobre a situação financeira do Banco Master e recomendar a redução da exposição da estatal.

Segundo o relatório, a diretoria financeira demorou a reagir.
Quando a Cedae decidiu buscar a recuperação integral dos recursos, em setembro de 2025, o banco já enfrentava problemas de liquidez e passou a propor pagamentos parcelados.

Em novembro, o então diretor financeiro chegou a se reunir pessoalmente com o banqueiro Daniel Vorcaro em busca de garantias, sem sucesso. No dia 17 daquele mês, uma parcela prevista para devolução não foi paga. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. Foi nesse momento, segundo os investigadores, que o prejuízo da Cedae se materializou.

Jantar em Nova York

A primeira reunião identificada pela auditoria entre o Banco Master e a diretoria financeira da Cedae ocorreu em 17 de maio de 2023, seis dias após um jantar oferecido pelo banqueiro Daniel Vorcaro ao então governador do Rio, Cláudio Castro, em Nova York. O episódio, revelado em investigação da Polícia Federal e que tramita no STF, envolveu um jantar no restaurante Nusr-Et Steakhouse, custeado por Vorcaro para Castro e sua comitiva.

A auditoria da Cedae não estabelece qualquer relação entre o jantar e as negociações. As datas, porém, mostram que a primeira reunião identificada pelos auditores ocorreu menos de uma semana depois do encontro nos Estados Unidos.

O ex-diretor financeiro Antonio Carlos dos Santos negou as acusações em nota, afirmando que “repudia de forma veemente todas as falsas alegações de omissão de dados”. Ele destacou que o atual presidente da Cedae, Rafael Rolim, e seu chefe de gabinete integravam o conselho de administração durante as etapas de aprovação e que todos os conselheiros recebiam relatórios mensais sobre as aplicações financeiras. “Toda a minha vida profissional sempre foi pautada pela seriedade, ética e estrita responsabilidade técnica”, afirmou.

A Cedae, por sua vez, confirmou que o relatório está nas mãos do governador em exercício e reiterou que a auditoria “comprova que toda a negociação e execução dos investimentos foi conduzida pela Diretoria Financeira da Cedae, sem o compartilhamento das informações com as demais diretorias e órgãos da empresa”. A estatal informou ter recomendado o envio do documento à Procuradoria-Geral do Estado, ao TCE, ao Ministério Público e à CVM.

*Com informações do g1.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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