Perfil de Aldyr Garcia Schlee (1934–2018), o escritor que o país conheceu pela camisa errada, a partir de uma dica que surgiu em um grupo de WhatsApp da extinta revista Veja. Texto de uma IA.
Há uma ironia que persegue a memória de Aldyr Garcia Schlee, e ele a carregou com elegância pela vida inteira: o Brasil o conheceu pelo que fez aos dezoito anos, e quase ignorou tudo o que veio depois. Schlee — pronuncia-se “Chilê”, à maneira aportuguesada — foi o desenhista que, ainda estudante, venceu o concurso que deu à seleção brasileira a camisa amarela de gola verde. Foi também, e sobretudo, um dos mais finos contistas que o Rio Grande do Sul produziu, tradutor, jornalista premiado, professor de Direito Internacional por três décadas e o intérprete literário mais perspicaz de um território que o resto do país mal sabe nomear: a fronteira.
Morreu em Pelotas em 15 de novembro de 2018, vítima de um câncer de pele diagnosticado em 2012, a uma semana de completar 84 anos. A prefeitura decretou luto oficial. Os obituários, quase todos, abriram pela camisa. Ele teria sorrido — e corrigido.
Jaguarão, ou a pátria que não cabe num mapa
Nasceu em 22 de novembro de 1934 em Jaguarão, cidade gaúcha colada à uruguaia Rio Branco, separadas apenas pela ponte Mauá sobre o rio Jaguarão. É um detalhe que parece geográfico e é, na verdade, a chave de toda a sua obra. Para Schlee, a fronteira não era uma linha que divide, mas um lugar em si — culturalmente autônomo, com identidade própria, onde a semelhança entre as duas cidades irmãs é maior do que entre Jaguarão e qualquer metrópole brasileira.
Dessa condição nasceu o escritor bilíngue. Schlee escrevia e publicava tanto em português quanto em espanhol, com fluência literária plena nas duas línguas — vários de seus livros saíram primeiro no Uruguai, em espanhol. Não era virtuosismo: era fidelidade a um mundo em que as línguas se misturam na boca das pessoas, e em que pertencer a um país ou a outro é menos uma certeza do que uma negociação cotidiana. A crítica que estudou seu conto “Empate” falou de uma “identidade provisória” — talvez a definição mais precisa do território humano que ele passou a vida mapeando.
A origem familiar era aristocrática; a família enriquecera com a construção da ponte que liga os dois países. Mas Schlee fez o caminho inverso da própria classe: retratou sempre os excluídos, os perdedores, os homens comuns da fronteira. Ativista de esquerda, foi preso durante a ditadura militar por suas posições políticas. A coerência entre a vida e a página foi uma de suas marcas.
A camisa, contada por quem a desenhou
A história é conhecida pela metade. Vale recontá-la inteira, porque o próprio Schlee fazia questão de desinflá-la.
Depois do Maracanazo — a derrota para o Uruguai na final da Copa de 1950, dentro do Maracanã —, o uniforme branco da seleção tornou-se símbolo de luto nacional. O jornal carioca Correio da Manhã abriu, em 1953, um concurso para um novo desenho, com a única exigência de que empregasse as quatro cores da bandeira. Schlee, então com dezoito ou dezenove anos, fez mais de cem esboços. Chegou a três finalistas e a um vencedor: camisa amarela, gola e mangas verdes, calção azul, meias brancas.
A inspiração, ele nunca escondeu, vinha do sul: das cores do Esporte Clube Pelotas e da própria celeste uruguaia que aprendera a admirar do outro lado do rio. O criador do maior símbolo do futebol brasileiro era um fronteiriço que tinha sonhado, em menino, ser jogador profissional — e que treinara, adolescente, nas divisões de base do Peñarol, em Montevidéu.
O prêmio foram quarenta mil cruzeiros — o equivalente, dizia ele, a um carro pequeno — que entregou inteiros ao pai, e um estágio de ilustração no Correio da Manhã, que o levou ao Rio. A camisa estreou em 1954 e atravessou as décadas seguintes para se tornar a vestimenta esportiva mais reconhecível do planeta.
E aqui está o ponto que o define: Schlee se recusou a tratar isso como obra de sua vida. Dizia que sua relação com a seleção se resumia àquele concurso. Em 2016, em entrevista à Folha de S.Paulo, foi além e questionou o uso da “sua” camisa nas manifestações anticorrupção, apontando a CBF como uma entidade corrupta. O criador do canarinho recusava-se a ser refém do canarinho.
O contista que o país deveria ter lido
A obra literária — mais de quinze livros, na maioria contos — é o que Schlee considerava sua verdadeira biografia, e a crítica lhe deu razão. Venceu duas vezes a Bienal Nestlé de Literatura Brasileira e seis vezes o Prêmio Açorianos, entre eles o de narrativa longa, em 2011, pelo romance Don Frutos. Recebeu ainda o Prêmio Fato Literário e a Ordem do Mérito Cultural.
Seus títulos formam um mapa afetivo da fronteira: Contos de futebol, Linha Divisória, Uma terra só, Contos de verdades, Contos da vida difícil. Em 2014 reuniu seis volumes na caixa de título perfeitamente schleeano — Linguagem de Fronteira / Fronteiras da Linguagem. O futebol, em sua ficção, nunca é espetáculo: é pretexto para falar de memória, de pertencimento e dos pequenos desencaixes identitários de quem vive entre dois mundos. Em “Mr. Galloway”, o narrador relembra os treinos no Peñarol e a figura do treinador inglês cujo olhar atravessava “paredes e fronteiras” — a fronteira, sempre, como horizonte e como ferida.
Como tradutor, fez a ponte que sua biografia já desenhava: verteu para o português clássicos do Prata, como Dom Segundo Sombra, de Ricardo Güiraldes, e levou ao espanhol a obra do mestre regionalista João Simões Lopes Neto, a quem se sentia ligado por um cordão umbilical literário. Dizia que Blau Nunes, o vaqueano narrador de Simões, era “a tradição viva do gaúcho”.
O outro lado da assinatura
A folha de serviços, fora da ficção, é igualmente densa. Doutor em Ciências Humanas, lecionou Direito Internacional por trinta anos na Universidade Federal de Pelotas. Ajudou a fundar o curso de jornalismo da Universidade Católica de Pelotas. No jornalismo, foi um dos criadores do Última Hora e ganhou o Prêmio Esso, a mais alta distinção da imprensa brasileira da época.
Há um episódio de infância que ele citava como formador. Durante a Segunda Guerra, morando em Santa Cruz do Sul, viu agricultores teuto-brasileiros sendo conduzidos em fila pela cidade, presos por terem sido flagrados falando alemão — proibido sumariamente pelo Estado Novo de Vargas. A imagem daqueles homens punidos pela própria língua o marcou para sempre. Não é difícil ler ali a semente do escritor que faria da linguagem de fronteira o centro de tudo.
Sua companheira por 58 anos, Marlene Rosenthal Schlee, foi sua primeira leitora, sua crítica mais rigorosa, a manipuladora dos originais. Ele a sobreviveu por apenas 22 meses. Tiveram três filhos.
Uma terra só
No fim, talvez o melhor resumo de Aldyr Garcia Schlee esteja no título que ele deu a um de seus livros — e que a cidade de Jaguarão devolveu, batizando com ele uma de suas ruas: Uma terra só. Foi essa a sua tese de vida e de obra: que a fronteira não separa, une; que a língua não é muralha, é passagem; que o Brasil e o Uruguai, naquele pedaço de chão onde ele nasceu, são uma coisa só.
O país o homenageou pela camisa. Mas o legado verdadeiro do homem que vestiu o Brasil de amarelo está nos contos — nas histórias dos perdedores da fronteira, contadas nas duas línguas que ele se recusou a escolher entre.
Aldyr Garcia Schlee (Jaguarão, RS, 22 de novembro de 1934 — Pelotas, RS, 15 de novembro de 2018). Escritor, jornalista, tradutor, desenhista e professor.
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