Capitalismo sem povo, mobilidade social ascendente sem futuro
por Marcio Pochmann
A reportagem apresentada pelo jornal O Globo (7/6/2026) aborda um fenômeno que já se tornou uma das marcas mais profundas do Brasil contemporâneo. Pela primeira vez em muitas décadas, uma geração alcança níveis de escolaridade superiores aos de seus pais sem conseguir reproduzir o mesmo padrão de vida.
O que aparece como uma “estagnação entre gerações” não é um acidente histórico, tampouco resultado exclusivo de fatores tecnológicos ou demográficos. Trata-se da consequência direta de uma transformação estrutural iniciada nos anos 1990, quando o neoliberalismo passou a reconfigurar profundamente o capitalismo brasileiro.
O problema central não está na educação. A nova geração é, de fato, mais escolarizada. O problema encontra-se no modelo econômico que deixou de criar oportunidades compatíveis com a expansão educacional.
Em outras palavras, o Brasil passou a formar mais pessoas para ocupar menos espaços qualificados.
Da ascensão social ao bloqueio da mobilidade
Entre as décadas de 1930 e 1980, o país viveu uma experiência singular de combinação entre desenvolvimento nacional e capitalismo industrial. Sob importante coordenação estatal, foram criadas empresas públicas, ampliadas universidades, escolas técnicas, centros de pesquisa e uma complexa infraestrutura econômica.
A industrialização promoveu a expansão do chamado “circuito superior da economia”, conceito formulado por Milton Santos para designar as atividades de maior produtividade, tecnologia, salários e capacidade de acumulação. Foi nesse ambiente que milhões de brasileiros migraram do campo para as cidades, ingressaram na indústria, no setor público e nos serviços modernos, experimentando uma das maiores mobilidades sociais da história nacional e mundial.
A cada geração, os filhos tendiam a viver melhor que seus pais. A ampliação do ensino era acompanhada pela ampliação das oportunidades econômicas.
Essa trajetória foi interrompida com a ruptura neoliberal. A partir dos anos 1990, o país ingressou em uma nova fase marcada pela liberalização financeira, pelas privatizações, pela desindustrialização precoce, pela flexibilização do trabalho e pela crescente subordinação da política econômica aos interesses rentistas dos mercados financeiros.
O resultado foi uma profunda alteração na estrutura produtiva nacional. A indústria de transformação, que chegou a representar mais de um quarto do PIB, perdeu densidade tecnológica e capacidade de gerar empregos qualificados. Em seu lugar, expandiram-se atividades de baixa produtividade, terceirizações, informalidade e ocupações precárias.
A promessa era de que a abertura econômica e a modernização financeira produziriam eficiência e prosperidade. O que emergiu, contudo, foi uma economia cada vez mais especializada na exportação de commodities, na financeirização da riqueza e na concentração do poder, dos privilégios e da renda.
A mobilidade social deixou de ser uma consequência natural do crescimento econômico porque a própria especialização produtiva passou a gerar estagnação da renda per capita, acompanhada pela ampliação dos contingentes populacionais excedentes às necessidades imediatas de valorização do capital.
O que mais se destaca nesse processo é a erosão do circuito superior da economia, que havia se consolidado durante a formação da sociedade urbana e industrial. Milton Santos antecipou esse movimento ao descrever a expansão do “circuito inferior da economia urbana”, composto por atividades de sobrevivência, pequeno comércio, serviços precários, trabalho informal e ocupações de baixa renda.
Nas últimas décadas, esse circuito não apenas cresceu, como se tornou o principal absorvedor da força de trabalho excedente, contribuindo para a formação de um novo sujeito coletivo.
A chegada da era digital não reverteu essa tendência. Pelo contrário. Com o avanço das plataformas digitais, parte da informalidade transformou-se em modelo de negócios voltado à apropriação do excedente econômico na sociedade de serviços hiperconectada e de baixa produtividade.
Motoristas, entregadores, prestadores de serviços e trabalhadores sob demanda passaram a integrar cadeias produtivas altamente conectadas tecnologicamente, mas sem acesso aos benefícios tradicionais do emprego formal. Criou-se, assim, uma situação paradoxal, com uma sociedade hiperconectada associada a relações de trabalho cada vez mais fragmentadas e precarizadas, incapazes de sustentar a mobilidade social ascendente.
O aplicativo tornou-se a fábrica do século XXI, mas sem sindicato, sem estabilidade, sem carreira e sem horizonte de ascensão social. A consequência mais profunda dessa transformação é o surgimento do que pode ser chamado de “capitalismo sem povo”, concentrado em poucos setores, como o financeiro, as plataformas digitais globais e os grandes conglomerados econômicos que operam com reduzida necessidade de mão de obra.
Pela primeira vez desde a formação da sociedade urbano-industrial brasileira, o baixo dinamismo econômico ocorre sem criar perspectivas reais de ascensão social para a maioria da população.
A educação continua se expandindo, mas a estrutura econômica já não acompanha esse movimento. A juventude estuda mais para disputar menos oportunidades, seja com diplomas mais elevados ocupando postos precários, seja com qualificações superiores distantes da possibilidade de acumular patrimônio.
O desafio da soberania produtiva e digital
Neste segundo quarto do século XXI, destaca-se o desafio da soberania produtiva e digital. A crise da mobilidade social não será resolvida apenas com mais educação ou programas compensatórios.
O problema é, antes de tudo, estrutural, pois a retomada da mobilidade exige reconstruir os segmentos mais dinâmicos do circuito superior da economia por meio de uma nova estratégia nacional de desenvolvimento.
Isso implica reindustrialização baseada em tecnologia avançada, fortalecimento da pesquisa científica, ampliação do sistema público de inovação, soberania sobre dados e infraestrutura digital, comprometimento das universidades públicas e coordenação nacional estatística e geocientífica dos registros administrativos para a formulação de novas políticas preditivas voltadas à expansão de empregos qualificados associados às transições ecológica e digital.
A sociedade de serviços da era digital do século XXI não elimina a necessidade de planejamento nacional. Ao contrário, torna-o ainda mais indispensável.
Sem capacidade de controlar seus dados, sua infraestrutura tecnológica e seus centros de decisão econômica, um país transforma-se apenas em fornecedor de informações, matérias-primas e consumidores para plataformas globais.
Em síntese, a reportagem jornalística evidencia apenas um sintoma. O diagnóstico é mais profundo, pois a estagnação da mobilidade social brasileira não resulta do fracasso da educação, mas do esgotamento de um modelo econômico que deixou de integrar a maioria da população ao progresso material.
O Brasil que emergiu após 1990 tornou-se mais conectado, mais financeirizado e mais globalizado. Contudo, também se tornou menos capaz de transformar conhecimento em prosperidade compartilhada.
A grande questão do século XXI não é apenas produzir mais riqueza. É decidir se a riqueza continuará servindo a poucos ou voltará a constituir a base de um projeto nacional capaz de incluir milhões.
Sem isso, a promessa histórica de que cada geração viveria melhor que a anterior poderá transformar-se em uma exceção do passado. Sobre esse desafio, somente um novo projeto nacional de desenvolvimento, distante do receituário neoliberal, poderá responder de forma ousada, soberana e proativa às necessidades do conjunto dos brasileiros.
Marcio Pochmann é economista, pesquisador, professor e político brasileiro, atual presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
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