Por Alex Cardoso Bastos
Em The Conversation
Quando os navegadores europeus partiram em direção ao desconhecido nos séculos XV e XVI, um dos maiores desafios era cartografar o que havia abaixo do mar. Não era por curiosidade científica, mas para sobreviver. Recifes, bancos de areia e rochas podiam destruir uma embarcação inteira.
Hoje, séculos depois, o fundo dos oceanos ainda guarda mais mistérios do que a superfície de outros planetas. Temos mapas de Marte e da Lua com resolução de poucos metros.
Apenas 28% dos nossos oceanos têm suas profundidades medidas com precisão acústica. Os outros 72% são estimativas baseadas em dados de satélite, insuficientes para entender o que realmente acontece no fundo do mar.
De um fio de prumo ao sonar: uma longa jornada
As primeiras tentativas de medir a profundidade dos oceanos eram exatamente o que parecem: um peso preso a uma corda longa, jogado ao mar. O processo era lento e impreciso.
Em 1855, o oficial americano Matthew Fontaine Maury publicou um dos primeiros mapas do Atlântico e especulou sobre uma grande elevação central. Ele identificou o que conhecemos hoje como a atual Cordilheira Meso-Atlântica, cadeia de montanhas submarinas de mais de 14 mil quilômetros.
O salto decisivo veio com a Expedição Challenger (1872–1876): 70 mil milhas náuticas, mais de 500 medições de profundidade ao redor do mundo, e o nascimento da oceanografia moderna.
A Segunda Guerra Mundial acelerou o mapeamento ao impulsionar os sonares. Avanço tecnológico para fins militares que passou a revelar o relevo do fundo oceânico com precisão inédita e mais rapidez.
Na década de 1970, Marie Tharp, Bruce Heezen e Maurice Ewing, da Universidade de Columbia (EUA), produziram o primeiro mapa detalhado da fisiografia dos oceanos.
O trabalho de Tharp — que enfrentou décadas de resistência por ser mulher num campo dominado por homens — revelou cordilheiras, fossas e zonas de fratura, sendo peça fundamental para a consolidação da Teoria da Tectônica de Placas, uma revolução científica.
Menos de um terço mapeado: por que isso importa?
Em 2017, quando o projeto Seabed 2030 foi lançado por iniciativa da Fundação Nippon em parceria com o General Bathymetric Chart of the Oceans (GEBCO/UNESCO), apenas 5% do fundo oceânico havia sido mapeado com precisão acústica. Hoje, esse número chegou a 28%. A meta é atingir 100% até o final desta década.
Parece uma questão técnica distante do cotidiano, mas não é. Dentro do contexto dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, o conhecimento sobre o fundo dos oceanos tem um papel fundamental para várias questões inerentes e de interesse da sociedade: segurança à navegação, soberania, modelos climáticos e de risco geológico, biodiversidade, recursos pesqueiros e recursos minerais e energéticos.
Portos, cabos submarinos de internet, rotas comerciais e plataformas de petróleo dependem de cartas náuticas precisas. Sedimentos marinhos regulam o clima ao acumular carbono por milênios. Corais de água profunda, fontes hidrotermais e montes submarinos abrigam ecossistemas únicos, muitos ainda desconhecidos.
E o mapeamento detalhado do relevo submarino é ferramenta essencial para antecipar riscos de desastres, modelar a propagação de tsunamis e orientar a instalação de cabos e estruturas offshore.
Mapear não é só medir profundidade
Durante muito tempo, mapeamento oceânico significava uma coisa: medir a profundidade. Hoje, o conceito é muito mais amplo. Os ecobatímetros multifeixe modernos adquirem também o backscatter (a intensidade do sinal acústico refletido no fundo), que indica se o substrato é rochoso ou inconsolidado (lama e areia), compactado, coberto de algas ou se é um recife.
A combinação dessas informações com o relevo do fundo permite criar mapas que revelam a geodiversidade marinha — a variedade de substratos, estruturas e relevos que existem no fundo oceânico.
A geodiversidade acaba tendo uma relação forte com a distribuição da biodiversidade. Fundos mais complexos e variados tendem a abrigar uma maior diversidade de espécies. Determinados recursos pesqueiros, habitam áreas específicas. Isso significa que o mapeamento da geodiversidade marinha pode servir como um guia para prever e modelar a distribuição da biodiversidade e de recursos pesqueiros.
Hoje, algoritmos de inteligência artificial são treinados para identificar padrões nesses dados e classificar automaticamente tipos de fundo marinho. Isso contribui para prever a distribuição de espécies bentônicas, áreas de pesca sustentável e recursos minerais.
É uma área em rápida expansão tecnológica, e pesquisadores brasileiros precisam estar na fronteira desse desenvolvimento.
O Brasil e a Amazônia Azul: uma oportunidade que não pode ser desperdiçada
Nos últimos quinze anos, pesquisadores brasileiros — quase sempre em redes colaborativas com recursos escassos — acumularam descobertas relevantes.
Descrevemos mosaicos de recifes submersos na Plataforma de Abrolhos, paleovales (rios submersos) afogados no Espírito Santo, estruturas recifais na Foz do Amazonas, depressões que indicam diferentes processos geoquímicos e biológicos, e exploraram amplamente o uso do backscatter na definição do substrato de fundo.
Os resultados mostram que há muito a descobrir e que a capacidade científica existe no país. Mas faltam investimento e embarcações com tecnologia de ponta.
Os anos de 2026 e 2027 representam uma janela histórica. O Instituto Schmidt Ocean trouxe seu navio Falkor (too) para o Atlântico Sul Ocidental, onde realizará expedições em parceria com pesquisadores brasileiros e internacionais sem custo direto para as equipes selecionadas.
O navio está equipado com um veículo autônomo para mapeamento de alta resolução junto ao fundo (em profundidades de até 6 mil metros) e um veículo operado remotamente capaz de mergulhar até 4 mil 500 metros, filmar o fundo e coletar amostras. É uma oportunidade rara de acesso à tecnologia de ponta. Aproveitá-la, porém, exige que o Estado brasileiro trate os oceanos como prioridade estratégica — o que ainda está aquém do papel que o país pode assumir no Atlântico Sul.
Uma parte significativa dos dados batimétricos já coletados, principalmente, por empresas permanece classificada como confidencial, inacessível à comunidade científica.
Um país que não conhece seu oceano não tem como governá-lo
Os setores ligados à economia do mar no Brasil — pesca, petróleo e gás, turismo costeiro, transporte marítimo, aquicultura, e a cadeia de suprimentos — geram, juntos, segundo um estudo mais recente, cerca de 6,4% do PIB nacional, gerando cerca de 4,5% do emprego no país.
Esses números variam de acordo com a metodologia usada, e já houve aposta de que poderia chegar a quase 19% do PIB. O país tem uma das maiores zonas econômicas exclusivas do mundo e está ampliando suas reivindicações sobre o fundo oceânico na ONU.
O Brasil está em processo de requerer a extensão de sua Zona Econômica Exclusiva, a Amazônia Azul, de 3,6 milhões para 5,7 milhões de km². Sendo que 80% dessa área possui profundidades superiores a 200 metros. Para isso, é necessário conhecer o que há no fundo dessa área.
Iniciativas como o Programa de Geologia e Geofísica Marinha, que reúne mais de 20 instituições de ensino e pesquisa e atua desde 1969, novas boas perspectivas de parcerias com o Instituto Nacional de Pesquisa Oceânica e o programa Ciências no Mar do Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação apontam para o caminho certo.
A ampliação do número de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia em Ciências Oceânicas é uma outra ação importante. Assim como pacotes de incentivos fiscais para que os pesquisadores tenham acesso a embarcações privadas de maior porte é outra iniciativa que deve ser usada no Brasil.
Um país desenvolvido investe em ciência básica porque sabe que ela é a base de tudo o mais: das inovações tecnológicas, das políticas públicas bem fundamentadas, da capacidade de tomar decisões soberanas sobre seus próprios recursos.
O fundo do oceano não é um tema distante, reservado a especialistas. É onde está boa parte do nosso futuro e presente, tanto em termos de alimentos, energia, clima e soberania. Conhecê-lo não é luxo. É necessidade.
Alex Cardoso Bastos é professor titular da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas e da coordenação do programa de geologia e geofísica da Marinha desde 2018.
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