A Pausa do Futebol e a Crise de Flávio Bolsonaro
por Rômulo Paes de Sousa
Nem todos os brasileiros ficaram decepcionados com o jogo de estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo de futebol masculino. Flávio Bolsonaro respirou aliviado com as manchetes dos jornais, que passaram a ser dominadas pela exaltação a Vinicius Jr. e pelas críticas a Casemiro. Para o centroavante do direitismo brasileiro, é melhor que o Brasil se consuma no debate sobre o desentrosamento dos jogadores brasileiros do que nas afinadas tabelinhas Vorcaro-Bolsonaro para a construção de um projeto de dominação política em parceria com um mega golpe financeiro a céu aberto.
A candidatura de Flávio Bolsonaro nunca foi um consenso no direitismo brasileiro. Para o bolsonarismo raiz, ele parece não dispor da vibração necessária para empolgar o eleitorado. Para a direita que só usa palavrões na vida privada, ele é superficial e não consegue sugerir um projeto de país que satisfaça os apetites econômicos desse segmento. Para os políticos experientes do PL e seus aliados, ele possui um telhado de vidro gigantesco, que poderá lhe render maus bocados durante o período eleitoral. O currículo negativo de Flávio Bolsonaro inclui rachadinhas, imóveis adquiridos por valores improváveis e com recursos de origem misteriosa, uma loja de chocolates de lucros inacreditáveis e vínculos explícitos com milicianos. Ainda que pratiquem tais expedientes com enorme frequência, os veteranos da política direitista sabem que os pecados de domingo se pagam na segunda-feira. É na principal campanha majoritária do país que um candidato como Flávio Bolsonaro precisará ser capaz de se defender das mentiras e sobretudo das verdades que dirão a seu respeito.
Flávio Bolsonaro fez-se senador pelo prestígio do pai e rico por vias obscuras. É um resumo pouco animador para um homem que ambiciona governar o país. Mesmo assim, o hesitante senador tornou-se candidato à Presidência pela vontade do pai. Coube à maior parte do direitismo brasileiro acatar o desejo de quem tem a capacidade de aglutinar a maioria dos votos antipetistas. Sem o aval de Jair Bolsonaro, nenhum candidato de direita seria competitivo diante do presidente Lula.
No dia 13 de maio, uma reportagem do portal The Intercept Brasil revelou mensagens e gravações nas quais o senador Flávio Bolsonaro solicitava R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro. Desde então, os grandes jornais e revistas passaram a competir por manchetes em meio à profusão de detalhes sobre os diversos vínculos entre o senador e o dono do Banco Master. As pesquisas eleitorais logo captaram o estrago em sua intenção de voto para presidente. As perdas foram particularmente grandes entre mulheres, evangélicos, jovens e eleitores da região Sudeste. O pior é que os demais candidatos da direita não parecem empolgar aqueles que estão desertando da candidatura do senador. Trata-se, portanto, de uma candidatura que sangra, mas não morre, deixando os incomodados sem argumentos para defender uma substituição do candidato.
A pausa futebolística vem em boa hora para o direitismo brasileiro. Os otimistas apostam que, até o fim da Copa, o eleitorado estará mais preocupado com as agruras ou as glórias da seleção brasileira nos gramados da América do Norte. Quanto mais tempo o Brasil se mantiver na competição, melhor.
Depois, Flávio Bolsonaro estará de volta com uma estratégia de marketing renovada, aos moldes dos candidatos direitistas da América Latina, e um roteiro organizado para se defender de suas velhas e novas mazelas. Voltará a martelar em sua campanha o combate ao crime, as vantagens que seu governo teria na relação com os Estados Unidos, sua fidelidade aos interesses do mercado e sua condição de principal opositor do governo, de Lula e do PT. Daniel Vorcaro jamais sairá de sua biografia, mas o candidato espera que os eleitores o perdoem por seus pecados devidos ao excesso de zelo filial e ao milionário conforto que a política pode eventualmente proporcionar a um homem que nasceu sem muitas qualidades.
Rômulo Paes de Sousa é pesquisador e coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE) e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO)
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