Crise, guerra e polarização no mundo à sombra de Trump
por Rômulo Paes de Sousa
No dia 25 de abril, o engenheiro norte-americano Cole Tomas Allen, armado com uma espingarda, uma pistola e algumas facas, entrou para a história política do seu país ao tentar invadir a tiros a sala do hotel em que o presidente Trump discursava. Seu atentado fracassou. Embora as motivações e eventuais colaborações não estejam plenamente esclarecidas, o presidente Trump se apressou em garantir tratar-se de uma iniciativa solitária e anticristã. O objetivo é claro: pregar um cravo em uma ação que não conta com apoio de mais ninguém e outro na vinculação do atirador aos inimigos da “cruzada” contra o Irã. De imediato, afloraram especulações quanto à exploração do episódio para reverter a baixa popularidade que o presidente dos EUA vem amargando nos últimos tempos.
Donald Trump renasceu das cinzas em 2025, superando o desgaste da derrota para Biden e da frustrada tentativa de golpe quatro anos antes. No seu segundo mandato, tornou-se onipresente e inspirador do extremismo em todo o mundo. O fato de não poder disputar novas eleições parece ter removido a cautela que os políticos costumam ter ao tomar decisões de grande impacto. Em 2025, retornou ao poder promovendo um tarifaço contra muitos países, o que provocou inflação nos EUA e desgaste entre seus aliados globais. No Brasil, seus apoiadores ficaram desorientados: alguns condenando timidamente, outros tentando colar no governo Lula a responsabilidade pela tributação abusiva contra produtos brasileiros. A firmeza do governo brasileiro frente às ações norte-americanas rendeu bons dividendos políticos.
A onipresença política de Trump é expressa por meio de ameaças militares, ofensas verbais e interferências eleitorais. Há exemplos em países muito diversos, como Canadá, Austrália, Alemanha, Áustria, Hungria, Cuba, Honduras, Argentina e Venezuela. O exemplo mais recente vem da Hungria, onde o vice-presidente JD Vance visitou o país às vésperas das eleições de 12 de abril, participando do comício de Viktor Orbán, ocasião em que colocou o presidente norte-americano em viva voz. Isso não foi suficiente para salvar Orbán da previsível derrota. Trump também perdeu outra aliada importante na Europa: Giorgia Meloni, primeira-ministra da Itália, negou-se a apoiar a guerra contra o Irã, interpretando a vontade da maioria do eleitorado italiano, já que o país é muito dependente do combustível fóssil dos países do Golfo Pérsico. As críticas que Trump fez ao Papa Leão XIV ofereceram o pretexto para a ruptura política: os protestos da primeira-ministra contra o ataque ao Papa foram seguidos da proibição do uso das bases na Sicília pelos EUA na guerra contar o Irã e da ruptura com Israel.
Novamente, o presidente Lula subiu o tom contra o presidente norte-americano, na expectativa de explorar os efeitos da guerra contra o Irã sobre o preço dos combustíveis e a consequente inflação no Brasil. Essa iniciativa coloca a candidatura de Flávio Bolsonaro em uma posição difícil, já que ele conta com uma eventual interferência do governo norte-americano nas eleições brasileiras sem provocar aversão dos eleitores. Trata-se de uma expectativa improvável, uma vez que o presidente norte-americano tem se tornado um aliado tóxico em vários lugares onde tentou influir.
É pouco provável que o atentado em Washington mude o humor da maioria dos norte-americanos em relação ao seu presidente. Após uma retórica tão agressiva quanto mentirosa sobre agendas internas e externas, é improvável que eleitores que nunca o apoiaram ou que recentemente lhe viraram as costas deixem de considerá-lo o animal mais perigoso da Terra.
Rômulo Paes de Sousa é pesquisador e coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE) e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO)
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