Os fatores que podem decidir as eleições de 2026
por Rômulo Paes de Sousa
Estamos a menos de seis meses do primeiro turno das eleições de 2026. Especialistas e ansiosos tentam colher, no cotidiano, indícios do que poderá fazer diferença na apertadíssima disputa presidencial de outubro. O político mineiro Hélio Garcia dizia que as eleições só começam depois da parada de 7 de setembro. Até lá, tudo o que ocorre tende a ter impacto limitado, já que os senhores e senhoras eleitores estão mais preocupados com as pedreiras que precisam quebrar no dia a dia. Mesmo assim, o crescimento das intenções de voto em Flávio Bolsonaro e a alta rejeição ao presidente Lula têm deixado muitos governistas em desassossego.
Poucos recordam que, nessa mesma época em 2022, Lula pontuava, em média, com cerca de 12 pontos percentuais de vantagem nas intenções de voto sobre o então presidente. Ao longo dos meses, Jair Bolsonaro ganhou terreno e acabou derrotado por margem estreita. Portanto, recomenda-se aos mais ansiosos que observem os grandes movimentos que podem, de fato, impactar o processo eleitoral.
Grande atenção deve ser voltada à possível entrada de Ciro Gomes na disputa presidencial, como desejam os tucanos remanescentes do que já foi um grande partido nacional. Nos últimos anos, Ciro foi se deslocando para a direita (ou “retornando”, como afirmam seus desafetos) até formar uma aliança com bolsonaristas em sua candidatura ao governo do Ceará. Caso decida disputar novamente a Presidência, lhe restará buscar o caminho da ambicionada terceira via. Para isso, Ciro terá de assumir uma posição crítica ao bolsonarismo e ao seu candidato presidencial. O desafio será calibrar o discurso para atrair eleitores de centro sem provocar aversão entre os bolsonaristas. Se for brando demais nas críticas ao filho 01, corre o risco de se tornar escada do principal candidato da direita, convertendo-se no Padre Kelmon da vez. Ciro, no entanto, é autoconfiante demais para aceitar um papel de coadjuvante dessa natureza. Isso também pressionaria Ronaldo Caiado a endurecer o tom contra Flávio Bolsonaro, sobretudo porque muitos apostam no eventual derretimento da candidatura da família Bolsonaro, hipótese sobre a qual Caiado e Ciro, eventualmente, pretendem erguer suas estratégias eleitorais.
Outro ponto importante é o escândalo do Banco Master. Daniel Vorcaro, o encarcerado mais graúdo ligado ao esquema, tem adiado sua delação, possivelmente à espera de termos mais favoráveis. Não é simples atender às expectativas de quem pretende reduzir uma eventual pena longa, preservando parte dos valores obtidos de forma ilícita. O problema é que novas prisões, como a do ex-diretor do BRB, Paulo Henrique Costa, podem reduzir a importância da delação de Vorcaro. Aqueles que ocuparam posições subalternas na hierarquia do esquema têm mais incentivos para colaborar com a Justiça. Nos bastidores políticos, é consenso que eventuais delações tendem a atingir lideranças importantes do centrão e aliados próximos do bolsonarismo. A coincidência entre o calendário eleitoral e o eventual surgimento dessas denúncias pode produzir impactos relevantes na disputa presidencial.
Também será importante observar como o Supremo Tribunal Federal lidará com o clima de tensão com parte do Senado e outros atores políticos. O STF está sob ataque, com grande desgaste junto aos eleitores e à comunidade jurídica e profundamente desunido para enfrentar a crise. A reforma do Judiciário virou a plataforma da vez. Só falta combinar de qual reforma se está falando. Movimento mais recente indica que os ministros que estão mais habituados ao embate com o legislativo resolveram sair da defensiva e atacar os que buscam faturar com a crise do STF, neste caso: senador Alessandro Vieira e o ex-governador Romeu Zema. É preciso observar quanto tempo e quão longe durará esse combate. Seu aprofundamento produzirá um nível mais elevado de conflito, no qual ministros do Supremo poderiam processar e condenar os seus detratores, interferindo no processo eleitoral.
Dessa forma, quem estiver interessado em antecipar os resultados de outubro deve observar com atenção os grandes movimentos finais que darão contornos mais nítidos às disputas eleitorais. É nesse terreno que as condições de combate estarão mais bem estabelecidas. No mais, o desfecho seguirá dependente da dinâmica própria da campanha e das inevitáveis reviravoltas da política brasileira.
Rômulo Paes de Sousa é coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE-Fiocruz) e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).
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