O azarão da ficção diante do escândalo real
por Rômulo Paes de Sousa
O filme Dark Horse está previsto para estrear somente em setembro de 2026, mas já é o tema mais comentado no Brasil. A trama gira em torno de um presidente acidental que saiu de um obscuro mandato parlamentar, venceu muitas adversidades e triunfou nas urnas em 2018. O vazamento de uma mensagem do senador Flávio Bolsonaro cobrando o compromisso de apoio financeiro de um encrencado Vorcaro para sustentar a hagiografia do pai ultrapassa a arte. Os R$ 134 milhões pedidos pelo senador, o destino da parcela do dinheiro repassado, a negação de vínculos pessoais e compromissos com o mecenas, além da valentia do senador ao enfrentar jornalistas sem apresentar uma versão minimamente crível, excedem a imaginação artística. O conjunto da obra é mais mirabolante do que qualquer teaser que venha a ser divulgado da mais ambiciosa produção cinematográfica da direita brasileira.
Além dos governistas, muitos receberam com satisfação os infortúnios do senador. O senador Ciro Nogueira, que estava no olho do furacão na semana passada justamente pelos vazamentos referentes à sua proveitosa amizade com Vorcaro, tornou-se exemplo disso. Muitos líderes da direita, incluindo o próprio Flávio Bolsonaro, apressaram-se em se distanciar do parceiro de longa data em apuros. Seus aliados mais próximos ficaram indignados com a facilidade com que se desvencilharam de alguém que havia se convertido em estorvo. Vigora no Brasil o sentimento de que a direita maximiza a ironia que Nelson Rodrigues atribuía a Otto Lara Resende, ao não ser solidária entre si “nem no câncer”. Ciro Nogueira permaneceu longe do noticiário dos grandes jornais até que, na sexta-feira, a Operação Sem Refino, da Polícia Federal, bateu à porta de Jonathas Assunção, que foi o número dois de Ciro Nogueira na Casa Civil durante o governo de Jair Bolsonaro. Segundo a PF, Assunção teria recebido R$ 1,3 milhão da Refit para contribuir com um esquema de sonegação que teria causado prejuízo de R$ 52 bilhões ao Tesouro. Mesmo assim, a exposição do senador Nogueira foi modesta quando comparada ao que ocorreu na semana anterior.
A estratégia do senador Ciro Nogueira tem sido: 1) falar pouco, já que não é produtivo tentar se defender de evidências tão robustas quanto sua conduta em defesa dos interesses de Vorcaro; 2) trazer um advogado muito competente, mas low profile, para liderar sua defesa. Por isso, trocou o combativo Antônio Carlos de Almeida Castro (Kakay) pelo discreto Conrado Gontijo; 3) apostar que o Senado parta em seu socorro, seja por corporativismo, seja por pura autodefesa, já que outros CPFs da Casa poderão ser arrolados no processo; 4) usar em seu favor o peso político que a Federação União Progressista pode emprestar para a estabilidade política do país, apelando à solidariedade de seus pares e constrangendo os demais poderes.
O senador Flávio Bolsonaro fez o caminho inverso. Resolveu fugir para frente. Uma estratégia que o tem obrigado a produzir narrativas contraditórias sobre a sua relação com Daniel Vorcaro. A cada dia que passa, somos informados da intimidade que ele e os que lhe são próximos partilhavam com o descaído banqueiro.
Já para o ministro André Mendonça, o vazamento trouxe apenas dissabores. Evidenciou que a Polícia Federal administra os vazamentos conforme os seus difusos e contraditórios interesses de seus agentes, colocando o ministro em uma situação cujas alternativas lhes causam prejuízo. Se contiver a exposição dos malfeitos atribuídos ao senador Bolsonaro, perderá parte do capital político que lhe conferiu legitimidade como o ministro mais influente do momento. Se permitir que os vazamentos continuem prejudicando a candidatura de Flávio Bolsonaro, entrará em conflito com aqueles que o alçaram à Suprema Corte. Não importa qual venha a ser o desfecho: ele será desfavorável ao ministro Mendonça.
O senador Flávio Bolsonaro tentará desesperadamente estar nas urnas em outubro de 2026 como candidato à Presidência. Não apenas para manter o protagonismo da família sobre a direita, mas também para sobreviver política e economicamente. A especulação sobre uma chapa encabeçada pela senadora Tereza Cristina e tendo Michelle Bolsonaro como vice não interessa ao clã Bolsonaro. Os filhos de Jair Bolsonaro não desejam a projeção política da madrasta, e o ex-presidente encarcerado tampouco aceita que seu sobrenome ocupe posição secundária, sendo ele o principal eleitor da direita.
Segundo Heidegger, uma das funções da arte é servir como laboratório da vida: ir aonde a experiência humana não pode ou não deve ir, seja por limitações biológicas, seja por imperativos morais. O filme Dark Horse pretende ser um protesto contra o sistema político-econômico que impede o país de se desenvolver e promover bem-estar. Por ironia do destino, não conseguirá demonstrar, com a mesma contundência da realidade, como a apropriação de favores proporcionados pelo sistema político-econômico encarnado por Vorcaro e pela família Bolsonaro pode gerar contrapartidas políticas, viabilizar financeiramente um projeto de poder e, de quebra, enriquecer seus envolvidos. Esse azarão não tem a menor chance de vencer a corrida contra a realidade.
Rômulo Paes de Sousa é Coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE) e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).
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