17 de junho de 2026

O papel das “Guerras Quentes” na era da Guerra Fria 2.0, por Euclides de Sousa

A premissa é que a mudança de objetivos mais imediatos não eclipsa, não esconde e não altera o fundamental que é a competição interestatal
Irã - Tasnim News Agency - Reprodução

Guerras na Ucrânia e contra Irã são proxy wars do Ocidente, focadas na guerra econômica e energética contra a China.
EUA e Israel usam conflitos para ganhos políticos internos, enquanto a competição geopolítica global persiste.
China é alvo e mediadora, com papel crucial para evitar escalada maior na Guerra Fria 2.0 entre blocos globais.

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O papel das “Guerras Quentes” na era da Guerra Fria 2.0

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por Euclides Roberto Novaes de Sousa

Não se enganem: a Guerra contra o Irã e a Guerra da Ucrânia têm por base a guerra econômica, comercial e energética contra a China.

Não por acaso estão atuando na Ásia Ocidental e Eurásia os dois proxys do Ocidente (leia-se EUA e OTAN) – Israel e Ucrânia. Nem precisam estar incluídos diretamente nas Forças da OTAN para isso.

Evidente que na curta duração da política os motivos para as duas guerras se resolvem nos respectivos mandatos dos líderes de EUA e Israel.

Donald Trump, alçado ao poder em janeiro de 2025, encontra a Guerra da Ucrânia já em seu terceiro ano de curso. Promessa de campanha: “terminar com guerra”; especulações sobre ganhar o Nobel da Paz; encontro com Putin em agosto daquele ano, em Anchorage, no Alasca. Sem anúncios de acordo, a guerra prosseguiu… e prossegue ainda. Promessa de campanha ainda não cumprida.

Benjamin Netanyahu, cujo exercício de mandatos neste século perde-se na memória, posto que à exceção de um breve período de um governo de coalização (jun/2021-dez/22), vem exercendo o poder desde 2009. Em contraste com Trump, que se autocandidata ao Nobel da Paz, Natanyahu possui mandado de prisão internacional expedido contra ele pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) desde novembro de 2024, por crimes contra a humanidade, decorrentes das táticas militares aplicadas nos conflitos na Faixa de Gaza, especialmente contra a população civil. Desgastado internamente por inúmeras acusações, quer tirar proveito máximo da Guerra contra o Irã, onde atua como proxy dos EUA, embora fale-se muito da influência do lobby sionista sobre Washington, pressionando sobre a continuidade da guerra e, portanto, de Natanyahu no poder.  Enquanto isso durar, sabe que as discussões apenas vão girar em torno da guerra e uma eventual vitória extrairia dividendos políticos a seu favor.

Essa é a curta duração. A da política, que exige resolução rápida dos conflitos e parece expressar demandas mais imediatas de sobrevivência político-eleitoral. Nos EUA aproximam-se as eleições para renovação parcial do Senado e do Congresso na sua totalidade, além da maior parte dos governos estaduais. Trump precisaria de uma vitória no campo externo o mais rápido possível, não apenas para dar conta da aprovação de governo, posto que enfrenta muitos protestos e oposição interna, mas para manter governabilidade e expectativa de vitória nas próximas eleições presidenciais. Quanto mais continuada a guerra, mais o desgaste geopolítico aumenta — dado que um acordo nas duas frentes, contra o Irã e na Ucrânia,  não se configura no horizonte imediato.

Por outro lado, essas duas guerras expressam inclusive e principalmente a longa duração da guerra comercial-econômica e interestatal, naquilo que Fiore refere como pressão competitiva, instituída desde a Paz de Vestfália (1648), considerada marco inicial do sistema internacional moderno onde cada estado procura soberania, independência econômica e prevalência geopolítica, ainda que regionalmente.  Esta é a primeira premissa.

A segunda premissa é que a mudança de objetivos mais imediatos não eclipsa, não esconde e não altera o fundamental que é a competição interestatal, que aqui se configura naquilo que Fernand Braudel denominou de “permanência de sistemas”. Isso nos conduz da Guerra ao Terror dos anos 1990 ao atual estágio, onde a guerra energética se acopla à guerra comercial. Em outros termos: disputa pelo petróleo e gás, pelo domínio tecnológico e pelas áreas de influência comercial. E as duas guerras atuais, envolvendo Irã e Ucrânia expressam isso. Por trás de tudo, a China.

A China é o maior importador de petróleo mundial atualmente, a despeito da intensa diversificação de sua matriz energética. Países fornecedores em grandes quantidades são os mesmos sob ataque do Hegemon, os EUA: Venezuela, Irã, Rússia. O primeiro, facilmente debelado. O segundo, resistindo. E a Rússia partiu para ofensiva, antes que fosse estrangulada num anel em seu Heartland eurasiano. Desde 2001, com assinatura do Tratado de Boa-Vizinhança, Amizade e Cooperação, com a China, vem se tornando seu principal parceiro comercial-estratégico, consolidando-se no acordo de 2022, a “parceria sem limites”, que inclui a segurança — mas não só, ao estabelecer princípios para uma governança global, desafiando o próprio EUA.

Talvez os EUA tenham despertado tarde para discernir seu principal inimigo no século XXI. As Guerras Eternas, na Ásia Ocidental e adjacências, em sua ambiguidade, foram descortinando, pouco a pouco, o personagem oculto que se insinuava no cenário mundial. E percebeu-se que não bastava garantir o domínio das tradicionais áreas de produção de petróleo: é preciso interferir no fluxo desta commodity que se dirige para seu inimigo, a alimentar seu crescimento econômico. Estão se dando conta que também os corredores logísticos são de suma importância.  É a transmutação das guerras em “Guerra Energética & Logística”, onde os minerais de terras raras acabam de se incluir.

Não por acaso, Barack Obama, ainda em seu primeiro mandato nos EUA (2009-2013), lança uma nova estratégia: o pivô para a Ásia (pivot to Asia), após décadas oscilando entre uma política de contenção e outra de engajamento na Ordem Mundial “baseada em regras” — leia-se as regras ditadas e muitas vezes duramente impostas pelo Hegemon. O Pivô para Ásia estabelecia uma política mais dura e firme com relação à região e à China, principalmente. Na medida em que a pressão competitiva aumenta entre estes dois Estados os conflitos se acirrarão, seja ora na área comercial, seja ora no campo da guerra propriamente dita, por meio de seus proxys.

Por tudo isso, não se enganem: as “guerras quentes” atuais são o palco mais visível, a face horrenda da Guerra Fria 2.0: a guerra contra a China-Rússia e contra os BRICS+, arrastando assim todo o Sul Global.

O que Kant não enxergou.

Ao escrever seu opúsculo, À Paz Perpétua, propondo um Direito Internacional que pusesse certo ordenamento às guerras entre os Estados, Kant não percebeu — ou talvez tenha apenas intuído — que na busca e preservação da autonomia e soberania estatal, ainda que sob as bases iluministas, os atores internacionais quebram o imperativo formal.  É o que os EUA sempre fizeram e estão fazendo, ao não seguir as próprias regras que ditou Breton Woods e mesmo o Consenso de Washington. Mas por outro lado assim também o fez a China, ao estabelecer um planejamento estatal sob rigoroso protecionismo em sua fase inicial e depois desobedecendo exemplarmente as regras do neoliberalismo. Manteve, estrategicamente, o planejamento estatal, inserindo-se favoravelmente na economia-mundo. 

O que vai acontecer.

Tudo. Ou nada. Se a guerra é a continuação da política por outros meios, como afirmou Clausewitz, a única certeza que temos é que os inimigos na guerra continuarão os mesmos na política, se não forem derrotados. As especulações sobre o fim da guerra são perecíveis, enquanto ela dura; sabemos como começa, mas não sabemos como termina, no vocabulário de senso comum. Mais sofisticadamente, discorremos sobre a imprevisibilidade do resultado, a despeito de ter em perspectiva todas as determinantes do fenômeno. O que aumenta a imprevisão e de certo modo a instabilidade global é o fato de que nas duas guerras, envolvendo Irã contra EUA/Israel e Ucrânia/OTAN contra a Rússia, as partes mantêm cláusulas inegociáveis. A China terá que desempenhar, em ambos os casos, o papel de intermediador e estabilizador — justamente por que está por trás delas, e não só como alvo. Em outros termos, a paz perpétua kantiana depende da China. De sua habilidade diplomática dependerá de a  “armadilha de Tucídides” continuar desarmada.

Euclides Roberto Novaes de Sousa – É servidor público na área da justiça. Graduado em Ciências Sociais, História e Filosofia pela USP. Amante das artes plásticas, cinema, livros, mas também do bom futebol. Mantém artigos no: www.blogdoclydes.blogspot.com

Fontes para este artigo:

BRAUDEL, Fernand. História e Ciências Sociais. A longa duração. In: Escritos sobre a História. Ed. Perspectiva, 1978 (1969)

COSTA JUNIOR, Pedro Donizete da. EUA x China: a luta pelo poder global. São Paulo: Escuta Geopolítica, 2026.

FIORI, José Luís (org.). A Guerra, a energia e o novo mapa do poder mundial. Petrópolis, RJ: Vozes; Rio de Janeiro: INEEP, 2023.

FIORI, José Luís; MEDEIROS, Carlos; SERRANO, Franklin. O sistema interestatal capitalista no início do século XXI. In: O mito do colapso do poder americano. Rio de Janeiro: Record,  2008.

KANT, Immanuel. À Paz Perpétua: um projeto filosófico. Trad. Bruno Cunha. Petrópolis/RJ: Vozes, 2024 (1795).

MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto. A Segunda Guerra Fria: geopolítica e dimensão estratégica dos Estados Unidos — das rebeliões na Eurásia à África do Norte e Oriente Médio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

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