25 de junho de 2026

Com histórico polêmico, Conserino contraria polícia e leva vice do Corinthians ao banco dos réus com denúncia baseada em auditoria inconclusiva

A ação penal contra Armando Mendonça é conduzida por promotor conhecido por mover processos de grande repercussão
Victor Gomes/Meu Timão

Em meio a uma das maiores crises políticas recentes do Corinthians, o vice-presidente licenciado Armando Mendonça acaba de tornar-se réu na Justiça de São Paulo sob a controversa acusação de apropriação indevida de materiais esportivos fornecidos pela Nike ao clube e de suposta subtração de camisas da NFL. Transtornado e declarando-se vítima de uma tentativa de assassinato de reputação, Mendonça afirmou em nota não haver provas de qualquer delito criminal e salientou que a base da denúncia do Ministério Público de São Paulo é uma auditoria interna (não independente) inconclusiva quanto ao vice. A acusação tem as digitais de ninguém menos que Cássio Conserino, um promotor com histórico polêmico e que costuma atrair holofotes da mídia, já condenado por danos morais contra o presidente Lula.

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Conserino conseguiu que a denúncia fosse aceita pela juíza Amanda Eiko Sato, da 25ª Vara Criminal da Capital, nesta quarta-feira (24). A decisão judicial chama atenção porque ocorre apesar de a Polícia Civil ter concluído, ao final de uma investigação própria, que não há elementos suficientes para caracterizar furto qualificado ou a atuação de organização criminosa dentro do Corinthians no chamado “caso Nike”. Houve, na visão dos investigadores, “falhas administrativas e de controle interno do clube” em relação ao estoque de materiais esportivos fornecidos pela Nike, mas não crime comum.

O GGN teve acesso à íntegra da auditoria que colocou o vice Armando Mendonça na berlinda. O relatório, assinado pelo diretor de Tecnologia do Corinthians, Marcelo Munhoes, atribui ao vice uma posição alta na hierarquia do departamento que controla os estoques de materiais esportivos, mas sem comprovar tal papel institucional. Ao contrário disso, a própria auditoria mostra a cadeia e o fluxo de trabalho que envolve outros funcionário — um deles, demitido por ter feito retirada de produtos da Nike usando o nome da presidência do clube.

A auditoria afirma que Mendonça recolheu 131 itens da Nike, fazendo juízo de valor sobre o montante, ao afirmar que é muito mais do que a presidência ou outros diretores retiraram, mesmo não havendo um parâmetro estabelecido para tais retiradas. O relatório informa que até outubro de 2025, quando o documento foi concluído, volume de itens recebido pela Nike foi de 41.963. Isso significa que o vice-presidente teria solicitado 0,31% do total fornecido ao clube. O relatório não aprofunda a destinação dos materiais. Em sua defesa, o vice falou em ilações sem fundamentos. Ele disse, em nota:

“A acusação sequer teve o cuidado de ver que desses 131 materiais, 62 itens sequer saíram do Corinthians; 6 itens foram destinados para o segurança de confiança do Presidente Osmar, Fernando; 2 malas foram destinadas para o Leonardo Pantaleão. Há equívocos que já foram explicados e continuarão sendo esclarecidos. O próprio documento interno produzido no âmbito do Corinthians não afirma que eu tenha praticado desvio, apropriação ou qualquer conduta dessa natureza. Também o inquérito policial não concluiu pela existência de desvio de materiais por minha parte.”

A denúncia também sustenta que teria havido tentativa de intimidação dos auditores por parte de Medonça, porque ele entrou na reunião marcada para entrevistar o representante da Nike junto ao clube. O dirigente, hoje, responde ao processo em liberdade e se afastou voluntariamente do cargo. Ao anunciar a decisão, ele criticou a diretoria do Corinthians, dizendo que “faltou firmeza da instituição, por meio de seu presidente, em esclarecer” para a opinião pública que que não há provas de desvio patrimonial. “Faltou vontade, de quem poderia fazê-lo, para encerrar de vez uma narrativa falsa, injusta e destrutiva. Uma acusação dessa merece uma posição do clube para toda a nação e não apenas em roda de sócios, amigos e alguns torcedores.”

“Também é preciso dizer, com serenidade e firmeza, que não se pode atribuir a mim suposta “gestão temerária” sobre área que não estava sob minha responsabilidade direta e que não integrava minhas atribuições institucionais. A vice-presidência que exerço não se confundia com gestão operacional de almoxarifado, controle de estoque, distribuição ou baixa de materiais esportivos”, acrescentou.

Para a defesa de Mendonça, as conclusões da polícia reforçam que as inconsistências identificadas decorrem de falhas administrativas e não de condutas criminosas. Mas a promotoria, por meio de Conserino, decidiu dar outro peso à história.

Promotor acumula histórico de casos controversos

A atuação de Cássio Conserino no caso amplia a visibilidade de um dos promotores mais conhecidos e controversos do Ministério Público paulista. Conserino ganhou projeção nacional em 2003 ao denunciar vereadores e empresários de Porto Ferreira acusados de explorar sexualmente adolescentes. Dois anos depois, integrou as investigações que atingiram o então ministro Antonio Palocci no episódio que ficou conhecido como “Máfia do Lixo de Ribeirão Preto”. A denúncia acabou rejeitada pela Justiça em 2010.

O promotor também teve participação em investigações relacionadas aos confrontos entre integrantes do PCC e policiais militares que marcaram o Estado de São Paulo em 2012. Seu nome voltou ao centro do debate político em 2016, quando apresentou, ao lado de outros integrantes do Ministério Público, denúncia contra o presidente Lula por lavagem de dinheiro e falsidade ideológica envolvendo o triplex no Guarujá. O episódio teve ampla repercussão nacional e contribuiu para projetar Conserino como uma das figuras mais conhecidas do MP.

Além da atuação em casos de grande repercussão, o promotor também acumulou controvérsias fora dos tribunais. Em 2019, foi condenado pela Justiça a pagar indenização de R$ 60 mil a Lula por uma publicação feita em rede social na qual chamou o petista de “encantador de burros”. O juiz Anderson Fabrício da Cruz considerou a manifestação ofensiva, pejorativa e injuriosa. Na mesma decisão, o magistrado destacou que Conserino já havia sido condenado anteriormente ao pagamento de R$ 20 mil por danos morais em outro processo, observando que a condenação anterior aparentemente não produziu o efeito pedagógico esperado.

Também em 2019, o promotor apresentou denúncia criminal contra 19 lideranças de movimentos de moradia em São Paulo. A acusação sustentava a existência de extorsão, enriquecimento ilícito e vínculos com o PCC. O caso gerou forte reação de advogados, pesquisadores e entidades ligadas ao direito à moradia, que classificaram a iniciativa como tentativa de criminalização de movimentos sociais e questionaram a robustez das provas apresentadas.

Agora, ao conseguir transformar Armando Mendonça em réu no caso dos materiais esportivos do Corinthians, Conserino volta ao centro de uma disputa que mistura investigação criminal, crise política interna e divergências sobre a interpretação das conclusões produzidas pela auditoria do clube e pela Polícia Civil.

Enquanto o Ministério Público sustenta que há elementos suficientes para responsabilizar o dirigente, a defesa afirma que o processo se apoia em uma sindicância interna que não identificou crime e em uma narrativa que teria motivações políticas dentro do Corinthians. Caberá à Justiça decidir se as acusações resistirão ao contraditório e à produção de provas durante a ação penal.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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