25 de junho de 2026

Caverna no Paraná revela 7,5 mil anos de história das chuvas extremas no Sul do Brasil

Estudo identificou 921 registros de inundações preservados em estalagmites e aponta que a frequência de eventos extremos no século 20 está entre as mais altas de toda a série histórica
Crédito: Julio Cauhy/ Agência Brasil

Uma caverna no interior do Paraná funciona como um verdadeiro arquivo climático. Pesquisadores brasileiros usaram estalagmites da Caverna do Malfazido, localizada no município de Doutor Ulysses, na região metropolitana de Curitiba, para reconstruir a história das chuvas extremas no Sul do Brasil ao longo dos últimos 7,5 mil anos, e os resultados são preocupantes.

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O levantamento identificou 921 camadas de sedimentos depositados pelas enchentes dentro das formações rochosas da caverna e mostrou que a frequência de eventos extremos no século 20 figura entre as mais elevadas de toda a série histórica. O estudo foi publicado em abril na revista científica Communications Earth & Environment, do grupo Nature.

Enchentes

Durante períodos de cheia, sedimentos finos são depositados sobre as estalagmites, formações minerais que crescem a partir do chão das cavernas, e ficam preservados em camadas microscópicas dentro do carbonato que continua se formando ao redor. O rápido crescimento dos espeleotemas na Caverna do Malfazido é uma característica rara que torna o local particularmente valioso para esse tipo de análise.

As amostras foram datadas por métodos isotópicos, que utilizam a proporção de elementos químicos como uma espécie de relógio natural. A confiabilidade do método foi confirmada ao comparar parte dos registros geológicos com enchentes documentadas em 2023 no rio Turvo, onde deságuam as águas da caverna.

“Até agora, todo o nosso conhecimento era limitado a séries instrumentais, que geralmente cobrem os últimos cem anos, no máximo, no Brasil. Os espeleotemas podem crescer de maneira contínua e rápida, produzindo um registro de alta resolução. Com isso, conseguimos produzir o primeiro registro de eventos extremos para um passado remoto”, explicou o geólogo Julio Cauhy, autor principal do artigo, à Agência FAPESP.

Parte da pesquisa foi desenvolvida no Instituto Max Planck de Química e na Universidade Johannes Gutenberg Mainz, na Alemanha.

Caverna ideal

A Caverna do Malfazido tem características únicas que a tornam ideal para esse tipo de estudo. Alimentada por um rio subterrâneo, ela é dividida em duas galerias, superior e inferior, com zonas de inundação bem definidas e uma sequência de grandes barragens naturais de calcita que aprisionam água e sedimentos durante as cheias. Essas estruturas, chamadas de “represas de travertinos”, podem atingir até dois metros de altura e formam uma série de tanques naturais que se enchem de água e lama durante as inundações, preservando cada evento em camadas nas estalagmites submersas.

“Andamos por centenas de cavernas pelo Brasil e nunca tínhamos visto um conduto com essa configuração. Não é o tipo de coisa que se consegue fazer todos os dias. O trabalho do Julio virou uma referência”, afirma o professor Nicolás Strikis, do Instituto de Geociências da USP, colaborador da pesquisa.

Dados

A análise mostrou que, entre 3 mil e 2 mil anos atrás, houve um período de baixa frequência de chuvas extremas. Já os picos de maior recorrência foram observados entre 7,5 mil e 4 mil anos atrás e, novamente, durante o último milênio, com destaque para o século 20.

Os pesquisadores identificaram dois fatores que influenciam esses ciclos: a variabilidade climática na Antártida Ocidental e a ocorrência do El Niño. Verões com temperaturas mais baixas na Antártida tendem a coincidir com maior frequência de eventos extremos no Sul do Brasil, possivelmente por alterarem a circulação atmosférica e favorecer o transporte de umidade da Amazônia para a região. Nos últimos mil anos, também se nota uma relação significativa entre chuvas extremas e episódios moderados ou fortes de El Niño.

Os achados são especialmente relevantes neste momento: a Organização Meteorológica Mundial (OMM) aponta alta probabilidade de ocorrência de um El Niño de intensidade moderada a forte nos próximos meses. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) já emitiu alertas para a possível ocorrência de chuvas intensas e desastres hidro geológicos na região centro-sul do país.

O estudo foi motivado, em parte, pelas enchentes que devastaram mais de 470 municípios no Rio Grande do Sul em maio de 2024, ano de El Niño, e sugere que o aquecimento global provocado por atividades humanas pode estar contribuindo para a intensificação recente desses eventos. Os autores enfatizam a necessidade de estratégias de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, especialmente para comunidades mais vulneráveis.

“Esse trabalho coloca os eventos extremos em perspectiva histórica. A partir do momento em que começamos a observar que estão ficando mais recorrentes e considerando o aumento da temperatura da atmosfera, podemos gerar um cenário mais claro”, conclui Strikis.

*Com informações da Agência Fapesp.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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